Andava pela casa com a caneta perfeitamente encaixada na mão. A postos para súbitas inspirações. Mesmo quando tinha a cabeça, o peito e todo o resto mais vazios que o último trem da estação, não descansava nunca a mão. Na falta da caneta rodeava a unha do polegar com o dedo indicador, depois ao contrário, até estar tão enrolada entre mindinhos e anelares que esquecia-se do tormento que lhe causava aquele tipo de esvaziamento. Vinha da nuca, o peso do mundo. E aquela necessidade muito grande de existir na hora errada. A respiração fraca, os braços mortos de cansaço, o peito roxo das tantas badaladas do relógio, os olhos muito perdidos num mar cheio de maré bem calma... Toda ela em banho-maria. É como sonhava. Uma banheira cheirosa, uma música gostosa... acordava. Nada disso rende história. Voltava a pesar a cabeça de abóbora. Se não escrevia, também não lia. Ria pouco, chorava oco e não sentia. Que na falta de todas as suas utilidades, sempre lhe restou ao resgate, agradar-se com os próprios gracejos. Mas, por mais uma noite, nada de nada lhe ocorria. Quando parada, parecia mesmo capaz de sustentar aquela posição para sempre; e se botava-se a dar passos saltava do sofá para ir sumir na feira, e logo estava na padaria ou comprando canetas em alguma papelaria... Andava desconhecida por ruas que só são bonitas quando se está perdido, e aquelas tarefas cotidianas, das mais simples de se cumprir, dissolviam-se sempre em mais passos. Comer: depois. Cortar o cabelo: depois. Fazer compras: beeem depois. Esbarrava num forjado cansaço. Voltava trágica ao sofá. Como se não tivesse saído de lá. Como se nunca tivesse começado a viver. As voltas que dera, até então, soavam alto como a materialização do que é vão.
Fora isso, uma vontade constante de fazer xixi.
Que era mesmo a única coisa que sentia.
Vontade a todo momento de fazer xixi.
E a caneta pesando na mão...
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[do som]
Where you invest your love/ You invest your life
O sol se pôs/ Depois nasceu/ E nada aconteceu
O sol.../ Há de brilhar mais uma vez...
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Saltou louca do sofá por um pedaço de chocolate.
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28/03/2011
21/03/2011
O corpo tem suas razões
Nosso corpo somos nós. É nossa única realidade perceptível. Não se opõe à nossa inteligência, sentimentos, alma. Ele os inclui e dá-lhes abrigo. Por isso tomar consciência do próprio corpo é ter acesso ao ser inteiro… Pois corpo e espírito, psíquico e físico e até força e fraqueza, representam não a dualidade do ser, mas a unidade.
(Thereze Bertherat)
***
(Thereze Bertherat)
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01/03/2011
A Margarida
Ainda que insista a paisagem
em transbordar borboletas de cor
há uma Margarida à flor da
pétala distante desse fervor
Tendo sofrido do vento e
sonhado estrelas desajeitadas
termina a estação indiferente
à maioria dos bichos com asas
Já cansada, suspira fundo
e dilacerando a primavera
entrega de presente à noite
o perfume de sua espera:
Um cheiro lento e doce que induz a fantasia
como quem diz a toda a gente que persiste a poesia.
***
http://www.youtube.com/watch?v=g55S8vi-AuY
em transbordar borboletas de cor
há uma Margarida à flor da
pétala distante desse fervor
Tendo sofrido do vento e
sonhado estrelas desajeitadas
termina a estação indiferente
à maioria dos bichos com asas
Já cansada, suspira fundo
e dilacerando a primavera
entrega de presente à noite
o perfume de sua espera:
Um cheiro lento e doce que induz a fantasia
como quem diz a toda a gente que persiste a poesia.
***
http://www.youtube.com/watch?v=g55S8vi-AuY
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