17/01/2013

etc e heidegger


A “metafísica da subjetividade” trás como ponto de apoio para o desenrolar do conhecimento que propõe, o sujeito. Define que o sujeito é o ente capaz de manipular, enquanto que o objeto é o ente manipulável. Determina funções hierarquicamente. A linguagem para a semiótica e para a semiologia é, então, um objeto passível de manipulação pelo sujeito. Este pensamento parte de olhares científicos – semióticos. Olhares estes que imbuídos de humanismo acabam por centrar o homem em si; colocando-se para si próprio como um objeto, ente a ser manipulado, dissecado, revirado em busca de respostas. Para isso a de se ter um método que desmembre, esclareça esta linguagem-objeto que este homem-ente absoluto no Universo usa para se comunicar com o meio em que está inserido. Temos conseguinte, a semiologia.  

Acontece-nos que a linguagem tida como um veículo de comunicação é uma perspectiva moldada aos trejeitos de uma técnica que busca tornar claro através de signos e mensagens codificadas o que o homem quer dizer.  Mas querer dizer já não é calar o que por si só se diz? Temos primeiro, a fala em nós. Borbulhante em essência, vigor, e só depois o querer dizer. Ainda depois do querer dizer está a fala organizada em códigos específicos, códigos que nos permitem que o dizer que até então nos habitava seja compartilhado pela forma de mensagem. A mensagem é precária. Forma que peca pela objetividade de se sonhar esclarecida. O dizer, por outro lado, é a pulsão que se derrama do ser por ter como destino este caminho. O dizer, simplesmente, se diz. Tornando-se muitas vezes uma fala ininteligível e inaudível em nosso tempo. A gravidade desta deficiência para a escuta na contemporaneidade está no fato de que o a ser dito é, justamente, a alma do ser-homem. Não somos senão isto que em nós busca a cada instante-já dizer de nós mesmos.

Acontece-nos, ainda, que o homem não está “inserido” no meio. Homem-e-meio são simbióticos, constroem suas existências em congruência, ainda que não tomem consciência disso. Desta forma o homem não é, absolutamente, absoluto no Universo só porque pensa e sabe que pensa. Esta cisão entre homem e meio reflete-se hoje na relação de exploração obsessiva dos recursos naturais. Entendendo a natureza como um ente fora de si e – o que é mais grave – distante de si, o homem contemporâneo corre na contramão de seu próprio ser, se distancia a passos largos do dizer que o habita e que é o cristal vital de sua existência. A “casa do ser”, para Heidegger. A linguagem, finalmente.

Nas artes certa norma tecnicista impera também com violência. Exige com crueldade aos artistas que se expliquem e ao público que entenda. Mas entender arte é coisa inventada há alguns poucos séculos, solicitação de uma era em que tudo precisa fazer sentido para alguma coisa ou para alguém. Esse apego já citado por códigos, representações e esclarecimentos torna-se um engodo mortífero às manifestações artísticas. Na dança os códigos estabelecidos são vencidos na medida em que nos apropriamos deles subvertendo-os em fala de nossa própria existência. Muitas vezes traindo nosso corpo acostumado, cultural e historicamente esculpido; fazendo da escuta a via de encontro com o corpo (que é justamente a imagem mais próxima que podemos ter do ser) acabamos por transformar passos já estabelecidos há anos – como os dados pela técnica clássica ou pelas danças populares – em fala própria. Longe de ser simples, esta atitude requer como primeira ação coragem, pois mesmo no âmbito da dança, onde encontramos noções prolíferas acerca do corpo e da arte, sentimos impregnado o perfume persuasivo e sedutor da clareza, da especialização e do virtuosismo. Ainda assim acreditamos que seja pelo fazer do corpo em corpo que o homem se encontrará como possibilidade e abertura. Queremos dizer com isto que acreditamos na arte. Ainda que nublada, enfeitada, virtualizada. O envolvimento com os abismos, com a máxima universal do principiar é obra a ser talhada verso a verso, passo a passo, imagem a imagem. O inacabamento do corpo, a sua possibilidade de vir a ser nos toma de assalto, nos convence de sua beleza e veracidade sem que procuremos com traquitanas tecnológicas por ela.