A
“metafísica da subjetividade” trás como ponto de apoio para o desenrolar do
conhecimento que propõe, o sujeito. Define que o sujeito é o ente capaz
de manipular, enquanto que o objeto é o ente manipulável. Determina funções
hierarquicamente. A linguagem para a semiótica e para a semiologia é, então, um
objeto passível de manipulação pelo sujeito. Este pensamento parte de olhares
científicos – semióticos. Olhares estes que imbuídos de humanismo acabam por
centrar o homem em si; colocando-se para si próprio como um objeto, ente a ser
manipulado, dissecado, revirado em busca de respostas. Para isso a de se ter um
método que desmembre, esclareça esta linguagem-objeto
que este homem-ente absoluto no
Universo usa para se comunicar com o meio em que está inserido. Temos
conseguinte, a semiologia.
Acontece-nos
que a linguagem tida como um veículo de comunicação é uma perspectiva
moldada aos trejeitos de uma técnica que busca tornar claro através de signos e
mensagens codificadas o que o homem quer dizer. Mas querer dizer já não é calar o que por si
só se diz? Temos primeiro, a fala em nós. Borbulhante em essência, vigor, e só
depois o querer dizer. Ainda depois
do querer dizer está a fala organizada em códigos específicos, códigos que nos
permitem que o dizer que até então nos habitava seja compartilhado pela forma
de mensagem. A mensagem é precária. Forma que peca pela objetividade de se
sonhar esclarecida. O dizer, por outro lado, é a pulsão que se derrama do ser
por ter como destino este caminho. O dizer, simplesmente, se diz. Tornando-se
muitas vezes uma fala ininteligível e inaudível em nosso tempo. A gravidade
desta deficiência para a escuta na contemporaneidade está no fato de que o a ser dito é, justamente, a alma do
ser-homem. Não somos senão isto que em nós busca a cada instante-já dizer de
nós mesmos.
Acontece-nos,
ainda, que o homem não está “inserido” no meio. Homem-e-meio são simbióticos,
constroem suas existências em congruência, ainda que não tomem consciência disso.
Desta forma o homem não é,
absolutamente, absoluto no Universo só porque pensa e sabe que pensa. Esta
cisão entre homem e meio reflete-se hoje na relação de exploração obsessiva dos
recursos naturais. Entendendo a natureza como um ente fora de si e – o que é
mais grave – distante de si, o homem contemporâneo corre na contramão de seu
próprio ser, se distancia a passos largos do dizer que o habita e que é o
cristal vital de sua existência. A “casa do ser”, para Heidegger. A linguagem,
finalmente.
Nas
artes certa norma tecnicista impera também com violência. Exige com crueldade
aos artistas que se expliquem e ao público que entenda. Mas entender arte é
coisa inventada há alguns poucos séculos, solicitação de uma era em que tudo
precisa fazer sentido para alguma coisa ou para alguém. Esse apego já
citado por códigos, representações e esclarecimentos torna-se um engodo
mortífero às manifestações artísticas. Na dança os códigos estabelecidos são
vencidos na medida em que nos apropriamos deles subvertendo-os em fala de nossa
própria existência. Muitas vezes traindo nosso corpo acostumado, cultural e
historicamente esculpido; fazendo da escuta a via de encontro com o corpo (que
é justamente a imagem mais próxima que podemos ter do ser) acabamos por
transformar passos já estabelecidos há anos – como os dados pela técnica
clássica ou pelas danças populares – em fala própria. Longe de ser simples,
esta atitude requer como primeira ação coragem, pois mesmo no âmbito da dança,
onde encontramos noções prolíferas acerca do corpo e da arte, sentimos impregnado
o perfume persuasivo e sedutor da clareza, da especialização e do virtuosismo.
Ainda assim acreditamos que seja pelo fazer do corpo em corpo que o homem se
encontrará como possibilidade e abertura. Queremos dizer com isto que
acreditamos na arte. Ainda que nublada, enfeitada, virtualizada. O envolvimento
com os abismos, com a máxima universal do principiar é obra a ser talhada verso
a verso, passo a passo, imagem a imagem. O inacabamento do corpo, a sua
possibilidade de vir a ser nos toma de assalto, nos convence de sua beleza e
veracidade sem que procuremos com traquitanas tecnológicas por ela.