29/08/2011

Confraria dos Esquecidos

eu esqueci.
esqueci pra sempre
esqueci as coisas todas pra trás
como se esquecem as mentiras

perdi a conta dos dias
perdi o dia da feira
perdi a saída da estrada

eu esqueci
o mundo n’algum canto
eu esqueci do que é feito o pranto

esqueci de abrir a porta e depois
esqueci a mesma porta escancarada
eu demorei a vida, pela própria vida
pra passar despercebido...

não sigam o que eu digo
não me dêem ouvidos, braços, bocas partidas em grito
me esqueçam todos (que eu tenho a todos em mim só porque esquecidos)

...

– Eu esqueço o cigarro aceso e furo a camiseta

– Eu esqueço as chaves, o casaco, os brincos no banco de trás...

– Eu lembro dela que é pra não esquecer de mim.

– Eu esqueço as estrelas pra lá e não volto nunca atrás.

– Eu pisco, a todo momento, que é pra não me esquecerem.

– Eu esqueço de mim pela poesia assimilada

– Eu não lembro nem de esquecer, é outra coisa o viver

– Eu esqueço de dizer e digo
que esqueci por não ouvir

– Eu esqueço por esquecer...
***

www.youtube.com/watch?v=GjHbnPPyhR4&feature=related

25/08/2011

lugar um

eu moro dentro de uma caixa florida
com uma janela que dá para cima
e o vento já não pede licença
para entrar – tanto acaricia
quanto esburaca

eu tô uns degraus pra lá dessa realidade
e acho que arde menos sentir saudade

se tivesse uma varinha pintaria agora um
balanço e apagaria as luzes dos postes
mas tenho que recuperar a trajetória...

eu moro dentro de uma caixa florida que vive
com uma das abas aberta e sou repleta de envelopes
e insetos – os que voam, voam e os que rastejam
são invisíveis

cruzo com uma caixa de lápis de cor
e estamos alojadas numa encruzilhada –
para a direita meu eu-ascendente à vida
do lado esquerdo a voz exasperada da morte,
a minha sorte vai escrita e adivinhada ao dia seguinte

a frente o silêncio



se viro de costas
ecos mais ensurdecedores
que os barulhos –

ali pingam amores e estouram
gotas d’água fresca e cheirosa

mais ali,

.

.

.

dentro do espelho
paixões roxas e beterrabas amarradas

e porque são quatro as linhas da estrada
perco o dia aqui mesmo, nesse ir e vir
de gente bamba, meio acreditando no que
diz a frente, meio suspirando relances

um pouco enfiando agulhas finas
nas doenças do mundo, um pouco
lambendo feridas profundas

eu moro numa encruzilhada colorida
aqui o frio é quente e a boca florida
e não se duvida nem da verdade nem da mentira

ninguém me empurra para trás
porque é meu
o buraco
e só
(...)

***

19/08/2011

sete versos mais um

(já) acho graça de vocês
aí invisíveis e em-pilhados
me espalhando arrepio em ondas
me afetando sei lá de onde sei lá de quando
sei lá porque o tempo não cansa da gente
ao me ver ensacar nuvens para viagem
malabarista de pratos fantasmas
bamba em foco lunar - Lá
***

ler sem respirar.

15/08/2011

de dentro pra fora

muda de árvore repousada
em pedra, natureza em rio manso...
com borboletas me indagando
***