eu moro dentro de uma caixa florida
com uma janela que dá para cima
e o vento já não pede licença
para entrar – tanto acaricia
quanto esburaca
eu tô uns degraus pra lá dessa realidade
e acho que arde menos sentir saudade
se tivesse uma varinha pintaria agora um
balanço e apagaria as luzes dos postes
mas tenho que recuperar a trajetória...
eu moro dentro de uma caixa florida que vive
com uma das abas aberta e sou repleta de envelopes
e insetos – os que voam, voam e os que rastejam
são invisíveis
cruzo com uma caixa de lápis de cor
e estamos alojadas numa encruzilhada –
para a direita meu eu-ascendente à vida
do lado esquerdo a voz exasperada da morte,
a minha sorte vai escrita e adivinhada ao dia seguinte
a frente o silêncio
se viro de costas
ecos mais ensurdecedores
que os barulhos –
ali pingam amores e estouram
gotas d’água fresca e cheirosa
mais ali,
.
.
.
dentro do espelho
paixões roxas e beterrabas amarradas
e porque são quatro as linhas da estrada
perco o dia aqui mesmo, nesse ir e vir
de gente bamba, meio acreditando no que
diz a frente, meio suspirando relances
um pouco enfiando agulhas finas
nas doenças do mundo, um pouco
lambendo feridas profundas
eu moro numa encruzilhada colorida
aqui o frio é quente e a boca florida
e não se duvida nem da verdade nem da mentira
ninguém me empurra para trás
porque é meu
o buraco
e só
(...)
***