25/08/2011

lugar um

eu moro dentro de uma caixa florida
com uma janela que dá para cima
e o vento já não pede licença
para entrar – tanto acaricia
quanto esburaca

eu tô uns degraus pra lá dessa realidade
e acho que arde menos sentir saudade

se tivesse uma varinha pintaria agora um
balanço e apagaria as luzes dos postes
mas tenho que recuperar a trajetória...

eu moro dentro de uma caixa florida que vive
com uma das abas aberta e sou repleta de envelopes
e insetos – os que voam, voam e os que rastejam
são invisíveis

cruzo com uma caixa de lápis de cor
e estamos alojadas numa encruzilhada –
para a direita meu eu-ascendente à vida
do lado esquerdo a voz exasperada da morte,
a minha sorte vai escrita e adivinhada ao dia seguinte

a frente o silêncio



se viro de costas
ecos mais ensurdecedores
que os barulhos –

ali pingam amores e estouram
gotas d’água fresca e cheirosa

mais ali,

.

.

.

dentro do espelho
paixões roxas e beterrabas amarradas

e porque são quatro as linhas da estrada
perco o dia aqui mesmo, nesse ir e vir
de gente bamba, meio acreditando no que
diz a frente, meio suspirando relances

um pouco enfiando agulhas finas
nas doenças do mundo, um pouco
lambendo feridas profundas

eu moro numa encruzilhada colorida
aqui o frio é quente e a boca florida
e não se duvida nem da verdade nem da mentira

ninguém me empurra para trás
porque é meu
o buraco
e só
(...)

***