03/10/2012

Aonde a arte nos leva?

Ainda que não seja uma pretensão consciente de músicos, dançarinos, coreógrafos ou pintores, o seu fazer artístico, bem como as suas obras, assumem – só por existir como objeto artístico construído – um caráter “tele transportador”. E então poderíamos dizer que a arte nos leva exatamente para onde queremos ser levados (por Ricardo Reis: “A realidade sempre é mais ou menos o que nós queremos...”): ao assistirmos a um filme, os estímulos visuais e sonoros que nos são dados se juntam às nossas memórias e experiências pessoais, direcionando-nos para um sítio imaginário que é único - sendo pouco ou muito fantástico. Alguns acessarão porões animalescos da mente assistindo leoas amamentando seus filhotes, outros se sentirão acariciados por essa cena. Dessa forma notamos que, ainda que pretendesse direcionar o espectador para um “lugar x”, o máximo que o artista vai conseguir é dar pistas do que ele gostaria que fosse visto no caminho.


Mas, para onde a arte nos leva enquanto artistas? Nós todos: seres expressivos e por isso humanos, que pintaríamos o mundo de cores lindas de bom grado se nos fosse dado o gosto e a fala para essa linguagem. Mas não... Batem palmas para nossas primeiras palavras tortuosamente ditas, para os nossos discursos, para as vezes em que a nossa voz prevalece a mais alta; e se não somos dos que gritam e esbravejam força por aí a fora, sucumbimos ao mundo. E então toda a força nos baterá cá dentro e socará as paredes do estômago, há de mastigar com dentes brabos o coração, se este mundo que só sabe do que vê e ouve em letras claras não tem poros para o que dizemos de outro modo. Seremos então um monte cinza de gente, um amontoado de falas que não têm língua para serem ditas, que não têm voz (ainda que por fora estejamos tagarelando mesmices). E neste sentido a arte nos levaria a nós mesmos, nos salvando a cada um a vida. Dando a letra para uma nova linguagem, dando ouvidos às vozes que nos gritam de dentro e outros ouvidos capazes de (e interessados em) ouvir nossos gritos puros.


A arte transforma o que é ininteligível no humano em liberdade


O caminho da arte é o léu . . .