12/04/2013

Corporeidade e Terapia Ocupacional

(notas sobre o texto de Marcus Vinícius Machado)

            O autor tece uma discussão que parte da explanação de alguns olhares estudiosos acerca do corpo como tema. Passa por abordagens da filosofia, da antropologia, das artes e da saúde buscando construir e compartilhar uma possibilidade de perspectiva sobre o corpo para a área da terapia ocupacional. Trazendo para o desenvolvimento de sua argumentação questões pertinentes ao estudo da corporeidade, Almeida busca compreender o homem como ser que no fazer, atua em pensamentoesentimento.

            Marcus Vinícius põe em xeque, a partir de interrogações em torno dos sentimentos (como amar, por exemplo), o olhar sob o corpo que o considera uma estrutura dada e acabada – formulação de pensamento que imperou a partir do homem-máquina, descrito por Descartes. Esta visão, impregnada nos saberes científicos, é questionada pelo autor, que aposta numa perspectiva que considere os espaços intersticiais que o corpo apresenta. A partir desta ótica, o homem é sim um organismo, mas um organismo histórico, cultural e afetivo, passível de infindáveis modificações que são obras traçadas em uma via que entrelaça homem-e-fazer.

            O texto de Marcus Vinícius é revolucionário, pois apresenta de mãos dadas as áreas da terapia, da arte e da neurociência. A mim, chama especial atenção os apontamentos acerca das neurociências e as colocações do autor sobre este pensamento, que é tão fragilmente compartilhado com a sociedade fora do âmbito acadêmico. As notas acerca dos estudos neurocientíficos, que dizem o corpo como um “sistema poético auto-regulável”, e as considerações de Damásio acerca das “muitas e inéditas consciências” que se (des)constroem em congruência com o corpo-que-se-faz foram as linhas que mais me encheram os olhos, acabando por diluir certo ranço que ainda me habita em relação ao pensamento científico.

            Este assunto: consciência, e alguns de seus apêndices como inconsciência e intuição, me atraem facilmente. É tão intrigante, quanto fugidia a questão que aproxima as experiências corporais do surgimento das novas consciências. Tanto quanto o são as modificações que nos ocorrem ao longo de uma caminhada de des-coberta/experienciação do corpo. Em sala de aula vivenciamos tomadas de decisão; com relação a que caminhos (se permitir) seguir ou a que portas rejeitar. E esta atitude se dá muitíssimas vezes, sem que formulemos racionalmente uma escolha. As notas do autor acerca da fluida relação entre o fazer, o corpo e a criação de consciências, onde corpo e consciências de (re)criam incessantemente a partir das experiências (fazeres) em que o corpo se envolve, ilustram de forma como até hoje não tinha ainda conseguido organizar, o que transcorre durante e em seguida a uma experiência corporal significativa. Os pensamentos, movimentos, afetos e atravessamentos se re-organizam a partir do vivenciado, se colocando em ordem absolutamente inaugural sem que se mexa de forma racionalmente direcionada nestes elementos. Pensamentos, movimentos, gestos - e a partir disso também as atitudes e posturas - se rearranjam independentes, inaugurando o corpo dia-a-dia.
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