26/09/2010

pretensão de primavera

sofro de constipação poética
nas luas cheias da primavera
- é a certeza da minha contradição -
anseio inquieta por essas cores
elas chegam, me ocupa o vão

pairo em tom fantasma
por pasmar e desligar
afim só da brisa e da estrada...
talvez limpeza astral
talvez implicância de algum
deus lírico Universal;
mas não falo das flores que me tangem

enquanto ainda me esfola o verão
as desejo como o que arde
em desencantos-outonos
me contorço em saudades
sofro delas, dedicada
em invernos fabulosos

mas em certos dias primaveris
me suga energeticamente
a rua

a noite impera magistral
me hipnotiza a solidão
da lua

falta fôlego para as palavras
falta noção de movimento
fico sem direção, cega
rosa-dos-ventos...

se esvai em torpor minha poesia
tudo no mundo me escapa
vôo aqui, ali, alheia - sangrando
ao longo, multicoloridas pétalas -
vem de mim a primavera
***

14/09/2010

de vento em vento o quê?

vamos andando tontos, pra lá de sonsos
embriagados de música pra sempre...
certo isso e certo que estão, as voltas
à mercê do imaginário e do vento

e agora o quê?
insosso interregno
(e haja paciência com o tempo)

vamos indo porque é de ir que somos feitos.

desejaremos coisas sem forma
refletiremos certos sons por renovação
vamos respirar estes mesmos ares
sem saudade ou vergonha ou maldade
deixa relaxar a paisagem, clareia a paleta

arriscaremos leves suspiros
pequenos saltos...
lentíssimos voos . . .
(aquela velha coisa de equilíbrio)

mas ainda transbordamos

 ... de quando em quando

 ... de sono em sono
                     [sonho]

 ... de vento em vento
       [tempo]


viu que não nos maltratamos?
mas de mentalizar idílios, carinho
tardamos
***

06/09/2010

the sky above us shoots to kill

boca que foge à dona
história a ser derramada
letra tossida, torcida ou cuspida
poesia que não vai ser descartada

isso a que vocês chamam
ação, em mim, não passam
de faíscas dissimuladas do
inconsciente

anseio desmedido por
abraçar o instante
espasmo sonso de
pássaro longe do céu

as coisas secretas
e de evitar enchente
partem de mim vomitadas
vazam instintivas pelos dedos
escorrem grossas, as letras
meio em ordem, meio pra
organizar a desordem...

aí leio, releio
mudo coisas de lugar
dou jeito nos acentos
nos pontos, no que é
parêntese ou nota da
paisagem

- soa mais interferido -

o programado pra ser
esquecido são os sentires
que eu visto mas evito

versos que vão evaporar
dias inteiros moldados
em fumaça e matéria de
nuvem

as melodias
ocultas aonde
os escondo
me encontro
e ratifico

minhas cenas
de "juro que fico"...

depois se vira a oca
página em branco

a que não vai ser escrita
aquela última

sem guarita

o motivo não bambeia

nasce puro
e vive mudo
(morre do próprio momento)


            *

era disso que eu falava:
vocês não me veem a sério
assim como são frágeis pedacinhos
os seres que reinam na minha cabeça

(mas é de verdade que eu queria
lhes dizer as coisas que digo...)

e ainda que um dia eu me mostre inteira

- feita do tal barro, pétalas e brisa
contando com a ausência das
minhas máscaras sem margem -

ainda que eu me desconstrua
ninguém no mundo todo terá
me visto crua
***