Ostras são moluscos, animais sem esqueleto, macias, que são as delícias dos gastrônomos. Podem ser comidas cruas, com pingos de limão, com arroz, paellas, sopas. Sem defesas – são animais mansos – seriam uma presa fácil dos predadores. Para que isso não acontecesse a sua sabedoria as ensinou a fazer casas, conchas duras, dentro das quais vivem. Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas saía uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário. Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste. As ostra felizes se riam dela e diziam: “Ela não sai da sua depressão...” Não era depressão. Era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro da sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor. O seu corpo sabia que, para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de sua aspereza, arestas e pontas, bastava envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda. Assim, enquanto cantava seu canto triste, o seu corpo fazia o seu trabalho – por causa da dor que o grão de areia lhe causava. Um dia passou por ali um pescador com o seu barco. Lançou a sua rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-as para a sua casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras de repente seus dentes bateram numa objeto duro que estava dentro da ostra. Ele tomou-o em suas mãos e deu uma gargalhada de felicidade: era uma pérola, uma linda pérola. Apenas a ostra sofredora fizera uma pérola. Ele tomou a pérola e deu-a de presente para a sua esposa. Ela ficou muito feliz...
***
em Quarto de Badulaques LXXV
(www.rubemalves.com.br)
21/04/2011
14/04/2011
09/04/2011
sobre ver
você me parece tão longe
que a dor se esconde
muito quieta, atrás das
cores deixadas para trás
às pinceladas ventadas
(borradas, esbarradas, interferidas
qualquer coisa que não concluídas)
mas se algum objeto voar de
cima de uma das prateleiras
se eu não perder seu olhar
pr’alguma estrela
(se eu olhar, finalmente)
vou me ver de longe acenando
à cena, vou ver flutuarem
palavras amenas saídas das
bolhas de sabão que não
passarão de minúsculas gotas...
quase-água-nenhuma que só mancha
o chão do beijo que dá nele pra estourar
(poc)
eu vou acreditar no que você contar
mas não posso acreditar olhando...
(olhar é acreditar demais)
***
que a dor se esconde
muito quieta, atrás das
cores deixadas para trás
às pinceladas ventadas
(borradas, esbarradas, interferidas
qualquer coisa que não concluídas)
mas se algum objeto voar de
cima de uma das prateleiras
se eu não perder seu olhar
pr’alguma estrela
(se eu olhar, finalmente)
vou me ver de longe acenando
à cena, vou ver flutuarem
palavras amenas saídas das
bolhas de sabão que não
passarão de minúsculas gotas...
quase-água-nenhuma que só mancha
o chão do beijo que dá nele pra estourar
(poc)
eu vou acreditar no que você contar
mas não posso acreditar olhando...
(olhar é acreditar demais)
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04/04/2011
1956
abandonada à gravidade
e sufocada de susto,
o fundo do buraco
é bem mais embaixo.
um nó rouco na garganta
soluçoselágrimas
nenhuma força para amar
sem esperança...
mas,
quem éramos nós há dez anos atrás?
e ela há vinte, trinta ou mais?
... Aonde o atrás nos traz?
***
e sufocada de susto,
o fundo do buraco
é bem mais embaixo.
um nó rouco na garganta
soluçoselágrimas
nenhuma força para amar
sem esperança...
mas,
quem éramos nós há dez anos atrás?
e ela há vinte, trinta ou mais?
... Aonde o atrás nos traz?
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01/04/2011
dia desses
As pessoas são mesmo estranhas vistas de fora. Mas há de se acreditar que dentro delas existe um motivo. Um motivo para andar sem nunca parar, ou para 'ensozinhar-se' numa arquibancada abandonada às 16:00 horas da tarde... Esse com a bolsa de carteiro preta e nenhum fio de cabelo: já passou, agora voltou e parou encostado no poste. Piscou os dois olhos pro nada beeeem devagar, olhou pra mim e pensou: “e essa menina sentada aí fingindo que lê, será que se perdeu?” – o olhar foi bem mais curto que o pensamento. Agora ele seguiu riscando o dedo na parede cor de telha encardida. Esse helicóptero militar impertinente que sobrevoa a minha bolha tem um motivo – que não é me irritar – mas que de fora não se vê.
(de fora não se vê nada muito além de uma sólida carcaça ou de um manto enfeitado em purpurina e flores. Até ocorrem variações, mas o que eu quero dizer é que o visível não passa de uma pontinha do mistério – considerando que há mistério.)
Agora que eu andei uns 97 passos pra frente e resolvi sentar no banco de outra quadra, eu sou o helicóptero – muito embora ele ainda exista aqui em cima me perturbando. Têm um casal e um menino de blusa amarela ali do outro lado. Eu acho que a blusa é amarela. Não posso olhar se não entrego o jogo.
Só escutei agora as vozes. Não sei também de que boca vem cada palavra. Na verdade não sei quais são as palavras. Agora riram. E o menino andando de skate fez UUuuLL. É, dois meninos e dois skates. Uns sons de pássaros que eu não reconheço (mas eu não reconheço mesmo sons de pássaros...), a roda do skate no chão grosso da quadra, ainda o helicóptero, “mas só tem existência as coisas nomeadas?”, foi a pergunta da professora de Filosofia e Estética, na última aula.
- É o que eu queria saber!
Aula de F-I-L-O-S-O-F-I-A.
Fiquei sem resposta.
***
(de fora não se vê nada muito além de uma sólida carcaça ou de um manto enfeitado em purpurina e flores. Até ocorrem variações, mas o que eu quero dizer é que o visível não passa de uma pontinha do mistério – considerando que há mistério.)
Agora que eu andei uns 97 passos pra frente e resolvi sentar no banco de outra quadra, eu sou o helicóptero – muito embora ele ainda exista aqui em cima me perturbando. Têm um casal e um menino de blusa amarela ali do outro lado. Eu acho que a blusa é amarela. Não posso olhar se não entrego o jogo.
Só escutei agora as vozes. Não sei também de que boca vem cada palavra. Na verdade não sei quais são as palavras. Agora riram. E o menino andando de skate fez UUuuLL. É, dois meninos e dois skates. Uns sons de pássaros que eu não reconheço (mas eu não reconheço mesmo sons de pássaros...), a roda do skate no chão grosso da quadra, ainda o helicóptero, “mas só tem existência as coisas nomeadas?”, foi a pergunta da professora de Filosofia e Estética, na última aula.
- É o que eu queria saber!
Aula de F-I-L-O-S-O-F-I-A.
Fiquei sem resposta.
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