01/04/2011

dia desses

As pessoas são mesmo estranhas vistas de fora. Mas há de se acreditar que dentro delas existe um motivo. Um motivo para andar sem nunca parar, ou para 'ensozinhar-se' numa arquibancada abandonada às 16:00 horas da tarde... Esse com a bolsa de carteiro preta e nenhum fio de cabelo: já passou, agora voltou e parou encostado no poste. Piscou os dois olhos pro nada beeeem devagar, olhou pra mim e pensou: “e essa menina sentada aí fingindo que lê, será que se perdeu?” – o olhar foi bem mais curto que o pensamento. Agora ele seguiu riscando o dedo na parede cor de telha encardida. Esse helicóptero militar impertinente que sobrevoa a minha bolha tem um motivo – que não é me irritar – mas que de fora não se vê.

(de fora não se vê nada muito além de uma sólida carcaça ou de um manto enfeitado em purpurina e flores. Até ocorrem variações, mas o que eu quero dizer é que o visível não passa de uma pontinha do mistério – considerando que há mistério.)

Agora que eu andei uns 97 passos pra frente e resolvi sentar no banco de outra quadra, eu sou o helicóptero – muito embora ele ainda exista aqui em cima me perturbando. Têm um casal e um menino de blusa amarela ali do outro lado. Eu acho que a blusa é amarela. Não posso olhar se não entrego o jogo.

Só escutei agora as vozes. Não sei também de que boca vem cada palavra. Na verdade não sei quais são as palavras. Agora riram. E o menino andando de skate fez UUuuLL. É, dois meninos e dois skates. Uns sons de pássaros que eu não reconheço (mas eu não reconheço mesmo sons de pássaros...), a roda do skate no chão grosso da quadra, ainda o helicóptero, “mas só tem existência as coisas nomeadas?”, foi a pergunta da professora de Filosofia e Estética, na última aula.

- É o que eu queria saber!

Aula de F-I-L-O-S-O-F-I-A.

Fiquei sem resposta.
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