As pessoas são mesmo estranhas vistas de fora. Mas há de se acreditar que dentro delas existe um motivo. Um motivo para andar sem nunca parar, ou para 'ensozinhar-se' numa arquibancada abandonada às 16:00 horas da tarde... Esse com a bolsa de carteiro preta e nenhum fio de cabelo: já passou, agora voltou e parou encostado no poste. Piscou os dois olhos pro nada beeeem devagar, olhou pra mim e pensou: “e essa menina sentada aí fingindo que lê, será que se perdeu?” – o olhar foi bem mais curto que o pensamento. Agora ele seguiu riscando o dedo na parede cor de telha encardida. Esse helicóptero militar impertinente que sobrevoa a minha bolha tem um motivo – que não é me irritar – mas que de fora não se vê.
(de fora não se vê nada muito além de uma sólida carcaça ou de um manto enfeitado em purpurina e flores. Até ocorrem variações, mas o que eu quero dizer é que o visível não passa de uma pontinha do mistério – considerando que há mistério.)
Agora que eu andei uns 97 passos pra frente e resolvi sentar no banco de outra quadra, eu sou o helicóptero – muito embora ele ainda exista aqui em cima me perturbando. Têm um casal e um menino de blusa amarela ali do outro lado. Eu acho que a blusa é amarela. Não posso olhar se não entrego o jogo.
Só escutei agora as vozes. Não sei também de que boca vem cada palavra. Na verdade não sei quais são as palavras. Agora riram. E o menino andando de skate fez UUuuLL. É, dois meninos e dois skates. Uns sons de pássaros que eu não reconheço (mas eu não reconheço mesmo sons de pássaros...), a roda do skate no chão grosso da quadra, ainda o helicóptero, “mas só tem existência as coisas nomeadas?”, foi a pergunta da professora de Filosofia e Estética, na última aula.
- É o que eu queria saber!
Aula de F-I-L-O-S-O-F-I-A.
Fiquei sem resposta.
***