21/12/2013

O véu: cores e texturas

De pintar-se e despintar-se vive o humano
Cobrir e destacar ingenuidades, felicidades . . . 
Sangrar em vermelho as durezas
Colorir de terra amáveis lembranças
Vibra o peito em natureza 
Sufocam as mãos de abandono
Velam-se cicatrizes ardidas 
Apressam-se a fechar cortes esvaziados


De tempo e tinta vive o humano
Empoeirar-se e espanar-se cor 
Riscar   Delinear   Sobrepor   Com-por 
Regar em paciência a flor
Cartografar as passagens 
Guardar e vasculhar estas paisagens
Desdobrar corpo em movimento:



17/11/2013

sobre-idas

faltou abraço

. . .

que a minha falta de jeito com laço
me arranca aos passos em fuga adormecida

. . .

não é desdém. não é certeza de onde ir.
é configuração de veia e plasma
arranjo encabulado de vento .   .   .

. . .

desvendar a terra
é feito ser criança na frente do mar
a gente corre para pegar a onda

e foge quando ela vem nos pegar

15/09/2013

. . .

Se revelar é re-velar

E se revelar é mostrar

Então mostrar


É velar de novo?

12/04/2013

Corporeidade e Terapia Ocupacional

(notas sobre o texto de Marcus Vinícius Machado)

            O autor tece uma discussão que parte da explanação de alguns olhares estudiosos acerca do corpo como tema. Passa por abordagens da filosofia, da antropologia, das artes e da saúde buscando construir e compartilhar uma possibilidade de perspectiva sobre o corpo para a área da terapia ocupacional. Trazendo para o desenvolvimento de sua argumentação questões pertinentes ao estudo da corporeidade, Almeida busca compreender o homem como ser que no fazer, atua em pensamentoesentimento.

            Marcus Vinícius põe em xeque, a partir de interrogações em torno dos sentimentos (como amar, por exemplo), o olhar sob o corpo que o considera uma estrutura dada e acabada – formulação de pensamento que imperou a partir do homem-máquina, descrito por Descartes. Esta visão, impregnada nos saberes científicos, é questionada pelo autor, que aposta numa perspectiva que considere os espaços intersticiais que o corpo apresenta. A partir desta ótica, o homem é sim um organismo, mas um organismo histórico, cultural e afetivo, passível de infindáveis modificações que são obras traçadas em uma via que entrelaça homem-e-fazer.

            O texto de Marcus Vinícius é revolucionário, pois apresenta de mãos dadas as áreas da terapia, da arte e da neurociência. A mim, chama especial atenção os apontamentos acerca das neurociências e as colocações do autor sobre este pensamento, que é tão fragilmente compartilhado com a sociedade fora do âmbito acadêmico. As notas acerca dos estudos neurocientíficos, que dizem o corpo como um “sistema poético auto-regulável”, e as considerações de Damásio acerca das “muitas e inéditas consciências” que se (des)constroem em congruência com o corpo-que-se-faz foram as linhas que mais me encheram os olhos, acabando por diluir certo ranço que ainda me habita em relação ao pensamento científico.

            Este assunto: consciência, e alguns de seus apêndices como inconsciência e intuição, me atraem facilmente. É tão intrigante, quanto fugidia a questão que aproxima as experiências corporais do surgimento das novas consciências. Tanto quanto o são as modificações que nos ocorrem ao longo de uma caminhada de des-coberta/experienciação do corpo. Em sala de aula vivenciamos tomadas de decisão; com relação a que caminhos (se permitir) seguir ou a que portas rejeitar. E esta atitude se dá muitíssimas vezes, sem que formulemos racionalmente uma escolha. As notas do autor acerca da fluida relação entre o fazer, o corpo e a criação de consciências, onde corpo e consciências de (re)criam incessantemente a partir das experiências (fazeres) em que o corpo se envolve, ilustram de forma como até hoje não tinha ainda conseguido organizar, o que transcorre durante e em seguida a uma experiência corporal significativa. Os pensamentos, movimentos, afetos e atravessamentos se re-organizam a partir do vivenciado, se colocando em ordem absolutamente inaugural sem que se mexa de forma racionalmente direcionada nestes elementos. Pensamentos, movimentos, gestos - e a partir disso também as atitudes e posturas - se rearranjam independentes, inaugurando o corpo dia-a-dia.
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27/03/2013

essa desenfreada fome


tenho cá na carne
metros infinitamente
dobrados de palavrimagens
em seus legítimos lugares
para figurar riquíssimo
todo o filme que se (des)enrola
no carretel de minha vida

acontece que tá-a-is palavrimagens
tem morada é no (         ), que empunho
lápis de tinta para fisgá-las signo no papel
e tudo o que consigo são versos que bebem
do esforço deste movimento de vida sem sequer

roçar nele

01/03/2013

HAHAHA

Que tudo o que Há
Possa deixar de Ser
Para assumir outro Será

17/01/2013

etc e heidegger


A “metafísica da subjetividade” trás como ponto de apoio para o desenrolar do conhecimento que propõe, o sujeito. Define que o sujeito é o ente capaz de manipular, enquanto que o objeto é o ente manipulável. Determina funções hierarquicamente. A linguagem para a semiótica e para a semiologia é, então, um objeto passível de manipulação pelo sujeito. Este pensamento parte de olhares científicos – semióticos. Olhares estes que imbuídos de humanismo acabam por centrar o homem em si; colocando-se para si próprio como um objeto, ente a ser manipulado, dissecado, revirado em busca de respostas. Para isso a de se ter um método que desmembre, esclareça esta linguagem-objeto que este homem-ente absoluto no Universo usa para se comunicar com o meio em que está inserido. Temos conseguinte, a semiologia.  

Acontece-nos que a linguagem tida como um veículo de comunicação é uma perspectiva moldada aos trejeitos de uma técnica que busca tornar claro através de signos e mensagens codificadas o que o homem quer dizer.  Mas querer dizer já não é calar o que por si só se diz? Temos primeiro, a fala em nós. Borbulhante em essência, vigor, e só depois o querer dizer. Ainda depois do querer dizer está a fala organizada em códigos específicos, códigos que nos permitem que o dizer que até então nos habitava seja compartilhado pela forma de mensagem. A mensagem é precária. Forma que peca pela objetividade de se sonhar esclarecida. O dizer, por outro lado, é a pulsão que se derrama do ser por ter como destino este caminho. O dizer, simplesmente, se diz. Tornando-se muitas vezes uma fala ininteligível e inaudível em nosso tempo. A gravidade desta deficiência para a escuta na contemporaneidade está no fato de que o a ser dito é, justamente, a alma do ser-homem. Não somos senão isto que em nós busca a cada instante-já dizer de nós mesmos.

Acontece-nos, ainda, que o homem não está “inserido” no meio. Homem-e-meio são simbióticos, constroem suas existências em congruência, ainda que não tomem consciência disso. Desta forma o homem não é, absolutamente, absoluto no Universo só porque pensa e sabe que pensa. Esta cisão entre homem e meio reflete-se hoje na relação de exploração obsessiva dos recursos naturais. Entendendo a natureza como um ente fora de si e – o que é mais grave – distante de si, o homem contemporâneo corre na contramão de seu próprio ser, se distancia a passos largos do dizer que o habita e que é o cristal vital de sua existência. A “casa do ser”, para Heidegger. A linguagem, finalmente.

Nas artes certa norma tecnicista impera também com violência. Exige com crueldade aos artistas que se expliquem e ao público que entenda. Mas entender arte é coisa inventada há alguns poucos séculos, solicitação de uma era em que tudo precisa fazer sentido para alguma coisa ou para alguém. Esse apego já citado por códigos, representações e esclarecimentos torna-se um engodo mortífero às manifestações artísticas. Na dança os códigos estabelecidos são vencidos na medida em que nos apropriamos deles subvertendo-os em fala de nossa própria existência. Muitas vezes traindo nosso corpo acostumado, cultural e historicamente esculpido; fazendo da escuta a via de encontro com o corpo (que é justamente a imagem mais próxima que podemos ter do ser) acabamos por transformar passos já estabelecidos há anos – como os dados pela técnica clássica ou pelas danças populares – em fala própria. Longe de ser simples, esta atitude requer como primeira ação coragem, pois mesmo no âmbito da dança, onde encontramos noções prolíferas acerca do corpo e da arte, sentimos impregnado o perfume persuasivo e sedutor da clareza, da especialização e do virtuosismo. Ainda assim acreditamos que seja pelo fazer do corpo em corpo que o homem se encontrará como possibilidade e abertura. Queremos dizer com isto que acreditamos na arte. Ainda que nublada, enfeitada, virtualizada. O envolvimento com os abismos, com a máxima universal do principiar é obra a ser talhada verso a verso, passo a passo, imagem a imagem. O inacabamento do corpo, a sua possibilidade de vir a ser nos toma de assalto, nos convence de sua beleza e veracidade sem que procuremos com traquitanas tecnológicas por ela.