s
e
n
ã
o
f
o
r
p
r
a
l i b e r t a r
não
vale
a pena
a poesia
***
30/10/2010
27/10/2010
21/10/2010
A Vida Vivida
(Vinicius de Moraes)
Quem sou eu senão um grande sonho obscuro em face do Sonho
Senão uma grande angústia obscura em face da Angústia
Quem sou eu senão a imponderável árvore dentro da noite imóvel
E cujas presas remontam ao mais triste fundo da terra?
De que venho senão da eterna caminhada de uma sombra
Que se destrói à presença das fortes claridades
Mas em cujo rastro indelével repousa a face do mistério
E cuja forma é prodigiosa treva informe?
Que destino é o meu senão o de assistir ao meu Destino
Rio que sou em busca do mar que me apavora
Alma que sou clamando o desfalecimento
Carne que sou no âmago inútil da prece?
O que é a mulher em mim senão o Túmulo
O branco marco da minha rota peregrina
Aquela em cujos braços vou caminhando para a morte
Mas em cujos braços somente tenho vida?
O que é o meu amor, ai de mim! senão a luz impossível
Senão a estrela parada num oceano de melancolia
O que me diz ele senão que é vã toda a palavra
Que não repousa no seio trágico do abismo?
O que é o meu Amor? senão o meu desejo iluminado
O meu infinito desejo de ser o que sou acima de mim mesmo
O meu eterno partir da minha vontade enorme de ficar
Peregrino, peregrino de um instante, peregrino de todos os instantes?
A quem respondo senão a ecos, a soluços, a lamentos
De vozes que morrem no fundo do meu prazer ou do meu tédio
A quem falo senão a multidões de símbolos errantes
Cuja tragédia efêmera nenhum espírito imagina?
Qual é o meu ideal senão fazer do céu poderoso a Língua
Da nuvem a Palavra imortal cheia de segredo
E do fundo do inferno delirantemente proclamá-los
Em Poesia que se derrame como sol ou como chuva?
O que é o meu ideal senão o Supremo Impossível
Aquele que é, só ele, o meu cuidado e o meu anelo
O que é ele em mim senão o meu desejo de encontrá-lo
E o encontrando, o meu medo de não o reconhecer?
O que sou eu senão ele, o Deus em sofrimento
O temor imperceptível na voz portentosa do vento
O bater invisível de um coração no descampado...
O que sou eu senão Eu Mesmo em face de mim
Rio de Janeiro, 1938
-
esses librianos...
Quem sou eu senão um grande sonho obscuro em face do Sonho
Senão uma grande angústia obscura em face da Angústia
Quem sou eu senão a imponderável árvore dentro da noite imóvel
E cujas presas remontam ao mais triste fundo da terra?
De que venho senão da eterna caminhada de uma sombra
Que se destrói à presença das fortes claridades
Mas em cujo rastro indelével repousa a face do mistério
E cuja forma é prodigiosa treva informe?
Que destino é o meu senão o de assistir ao meu Destino
Rio que sou em busca do mar que me apavora
Alma que sou clamando o desfalecimento
Carne que sou no âmago inútil da prece?
O que é a mulher em mim senão o Túmulo
O branco marco da minha rota peregrina
Aquela em cujos braços vou caminhando para a morte
Mas em cujos braços somente tenho vida?
O que é o meu amor, ai de mim! senão a luz impossível
Senão a estrela parada num oceano de melancolia
O que me diz ele senão que é vã toda a palavra
Que não repousa no seio trágico do abismo?
O que é o meu Amor? senão o meu desejo iluminado
O meu infinito desejo de ser o que sou acima de mim mesmo
O meu eterno partir da minha vontade enorme de ficar
Peregrino, peregrino de um instante, peregrino de todos os instantes?
A quem respondo senão a ecos, a soluços, a lamentos
De vozes que morrem no fundo do meu prazer ou do meu tédio
A quem falo senão a multidões de símbolos errantes
Cuja tragédia efêmera nenhum espírito imagina?
Qual é o meu ideal senão fazer do céu poderoso a Língua
Da nuvem a Palavra imortal cheia de segredo
E do fundo do inferno delirantemente proclamá-los
Em Poesia que se derrame como sol ou como chuva?
O que é o meu ideal senão o Supremo Impossível
Aquele que é, só ele, o meu cuidado e o meu anelo
O que é ele em mim senão o meu desejo de encontrá-lo
E o encontrando, o meu medo de não o reconhecer?
O que sou eu senão ele, o Deus em sofrimento
O temor imperceptível na voz portentosa do vento
O bater invisível de um coração no descampado...
O que sou eu senão Eu Mesmo em face de mim
Rio de Janeiro, 1938
-
esses librianos...
15/10/2010
aleatório (3)
depois, quando eu dou a mão prum qualquer que me passe na mente acenando confetes
e resolvo ir bem longe dessa coisa toda de proteínas, vitaminas, poli... B12, guanina (?)
me vem o que é externo – e dano, sem perceber, a chamar Universo – me vem cobrar compromisso. com isso? (com o que vier por trás dos montes! estás sempre a correr, a largar metades e desaparecer) é a minha cabeça que anda vazia e ao mesmo tempo cheia de coisas... (e faz, em algum lugar, sentido isso?) ... é como ter infinitos pensamentos sem nenhuma substância; ter calma e paciência para esperar (é assistir!) a própria cara se partir em pedaços. (podes bater ou te submeter) não, sutilmente passo:
me afetem
cantos
e cores
e sombras
e silêncios esguios
mexam comigo
bichos
e gentes
e folhas de todas as árvores
alguém, por vocação
ou instinto
me estremeça
por dentro
me arremesse dessa
pasma realidade
à próxima esquina
de se perder no tempo.
***
e resolvo ir bem longe dessa coisa toda de proteínas, vitaminas, poli... B12, guanina (?)
me vem o que é externo – e dano, sem perceber, a chamar Universo – me vem cobrar compromisso. com isso? (com o que vier por trás dos montes! estás sempre a correr, a largar metades e desaparecer) é a minha cabeça que anda vazia e ao mesmo tempo cheia de coisas... (e faz, em algum lugar, sentido isso?) ... é como ter infinitos pensamentos sem nenhuma substância; ter calma e paciência para esperar (é assistir!) a própria cara se partir em pedaços. (podes bater ou te submeter) não, sutilmente passo:
me afetem
cantos
e cores
e sombras
e silêncios esguios
mexam comigo
bichos
e gentes
e folhas de todas as árvores
alguém, por vocação
ou instinto
me estremeça
por dentro
me arremesse dessa
pasma realidade
à próxima esquina
de se perder no tempo.
***
11/10/2010
Para: o domingo
de relembrar ou lendo ouvindo ou vendo passagens
percebi que o domingo é o pai dos abandonados
e por gosto ou perdição acalanta os sofridos
cabem nele, sem julgamento
serenatas que seriam impensáveis às quintas-feiras obscenas
e exageros que chegariam às segundas desgastados
e para que é que servem estes dias se não para isso mesmo: serem tortuosamente desperdiçados ou remoídos em filmes distantes?
existem oficialmente como início
mas soam dentro das vidas
como final de dia vazio
só aos domingos a preguiça toda do mundo se exibe estendida numa longa varanda sem (ainda) ser massacrada pela pressa das horas correntes
deixem aos domingos suas breguices e brejeirices de roça à giz de cera; seus amorecos de praça e suas cores de retratar semana amarga
não intimidem-se, notas dominicais
(hão de entender que coisas são feitas ao passar delas mesmas)
enrubesci e desisti de me contorcer
deixo tecidos e esquecidos
meus domingos
por você
***
percebi que o domingo é o pai dos abandonados
e por gosto ou perdição acalanta os sofridos
cabem nele, sem julgamento
serenatas que seriam impensáveis às quintas-feiras obscenas
e exageros que chegariam às segundas desgastados
e para que é que servem estes dias se não para isso mesmo: serem tortuosamente desperdiçados ou remoídos em filmes distantes?
existem oficialmente como início
mas soam dentro das vidas
como final de dia vazio
só aos domingos a preguiça toda do mundo se exibe estendida numa longa varanda sem (ainda) ser massacrada pela pressa das horas correntes
deixem aos domingos suas breguices e brejeirices de roça à giz de cera; seus amorecos de praça e suas cores de retratar semana amarga
não intimidem-se, notas dominicais
(hão de entender que coisas são feitas ao passar delas mesmas)
enrubesci e desisti de me contorcer
deixo tecidos e esquecidos
meus domingos
por você
***
07/10/2010
A defesa do poeta
(Natália Correia)
Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto
Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim
Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes
Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei
Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em criança que salvo
do incêndio da vossa lição
Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis
Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além
Senhores três quatro cinco e Sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?
Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa
Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.
--
Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto
Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim
Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes
Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei
Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em criança que salvo
do incêndio da vossa lição
Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis
Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além
Senhores três quatro cinco e Sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?
Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa
Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.
--
05/10/2010
dê-erre
eu tentei, menina
te prender na cama hoje
enchi teu corpo de moleza
embalei-a com cantigas doces
juntei soltos fios de sonhos para surpreender-te com reflexões que ardem
não percebes que só te molhei os cabelos por querê-la até mais tarde?
mas tu não sossegas!
eu avisei que não deixaria de descer...
pretendia fazer descansar a tua saia
mas teimas sempre nessas voltas
nesses encontros e desencantos
em embriagar-se de multidão
não te deixo rodar hoje!
paro o trânsito, apago as luzes e os corações irisados
mas não te deixo andar com a vida
só por ciúme te prendo aí dentro com essa gente fosca
sugo a energia da noite, e congelo inteiro o teu dia!
*
pode gritar, chuva teimosa
me agradam as liras cinzas
por isso essa tua crise
me parece tão desmedida
só saí porque me empurravam
umas horas muito nervosas
bambas e sem direção
mas ansiosas por algum movimento
cantaram alto, de forma insistente
notas que soaram como passos ao coração
portanto choraste litros de raiva à toa
não me incomoda o teu trovão
não morro, andando, de medo de raios
nem me afligem tuas gotas d'água e solidão
- na verdade as recebo como me derreto por carinhos -
fugi de mim, não de ti
(teu desatino é o meu ninho)
***
te prender na cama hoje
enchi teu corpo de moleza
embalei-a com cantigas doces
juntei soltos fios de sonhos para surpreender-te com reflexões que ardem
não percebes que só te molhei os cabelos por querê-la até mais tarde?
mas tu não sossegas!
eu avisei que não deixaria de descer...
pretendia fazer descansar a tua saia
mas teimas sempre nessas voltas
nesses encontros e desencantos
em embriagar-se de multidão
não te deixo rodar hoje!
paro o trânsito, apago as luzes e os corações irisados
mas não te deixo andar com a vida
só por ciúme te prendo aí dentro com essa gente fosca
sugo a energia da noite, e congelo inteiro o teu dia!
*
pode gritar, chuva teimosa
me agradam as liras cinzas
por isso essa tua crise
me parece tão desmedida
só saí porque me empurravam
umas horas muito nervosas
bambas e sem direção
mas ansiosas por algum movimento
cantaram alto, de forma insistente
notas que soaram como passos ao coração
portanto choraste litros de raiva à toa
não me incomoda o teu trovão
não morro, andando, de medo de raios
nem me afligem tuas gotas d'água e solidão
- na verdade as recebo como me derreto por carinhos -
fugi de mim, não de ti
(teu desatino é o meu ninho)
***
Assinar:
Comentários (Atom)