05/10/2010

dê-erre

eu tentei, menina
te prender na cama hoje
enchi teu corpo de moleza
embalei-a com cantigas doces
juntei soltos fios de sonhos para surpreender-te com reflexões que ardem
não percebes que só te molhei os cabelos por querê-la até mais tarde?

mas tu não sossegas!
eu avisei que não deixaria de descer...

pretendia fazer descansar a tua saia
mas teimas sempre nessas voltas

nesses encontros e desencantos
em embriagar-se de multidão

não te deixo rodar hoje!
paro o trânsito, apago as luzes e os corações irisados
mas não te deixo andar com a vida

só por ciúme te prendo aí dentro com essa gente fosca
sugo a energia da noite, e congelo inteiro o teu dia!

                *

pode gritar, chuva teimosa
me agradam as liras cinzas
por isso essa tua crise
me parece tão desmedida

só saí porque me empurravam
umas horas muito nervosas
bambas e sem direção

mas ansiosas por algum movimento
cantaram alto, de forma insistente
notas que soaram como passos ao coração

portanto choraste litros de raiva à toa
não me incomoda o teu trovão
não morro, andando, de medo de raios
nem me afligem tuas gotas d'água e solidão

- na verdade as recebo como me derreto por carinhos -

fugi de mim, não de ti
(teu desatino é o meu ninho)
***