eu tentei, menina
te prender na cama hoje
enchi teu corpo de moleza
embalei-a com cantigas doces
juntei soltos fios de sonhos para surpreender-te com reflexões que ardem
não percebes que só te molhei os cabelos por querê-la até mais tarde?
mas tu não sossegas!
eu avisei que não deixaria de descer...
pretendia fazer descansar a tua saia
mas teimas sempre nessas voltas
nesses encontros e desencantos
em embriagar-se de multidão
não te deixo rodar hoje!
paro o trânsito, apago as luzes e os corações irisados
mas não te deixo andar com a vida
só por ciúme te prendo aí dentro com essa gente fosca
sugo a energia da noite, e congelo inteiro o teu dia!
*
pode gritar, chuva teimosa
me agradam as liras cinzas
por isso essa tua crise
me parece tão desmedida
só saí porque me empurravam
umas horas muito nervosas
bambas e sem direção
mas ansiosas por algum movimento
cantaram alto, de forma insistente
notas que soaram como passos ao coração
portanto choraste litros de raiva à toa
não me incomoda o teu trovão
não morro, andando, de medo de raios
nem me afligem tuas gotas d'água e solidão
- na verdade as recebo como me derreto por carinhos -
fugi de mim, não de ti
(teu desatino é o meu ninho)
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