ansiedade, em mim, é massacrante.
que só o que eu quero, agora, é morder morder morder morder pra sempre
a minha boca, até ter coragem de arrancar um pedaço e mastigar.
e suprimir isso que não me resolve a vida (isso o quê?) isso! que não tá aqui, não tá ali, não tá em lugar nenhum! arreganharam as cortinas do meu quarto, me encheram de encanto por flores e bichos voadores, mas cadê a porra do jardim?
o pior é que eu já me perdi...
que lugar é esse?
ei, quem é você?
...
vamos sonhar com,
...
põe pra tocar aquela,
aquela música ...
(debruçou-se louca na janela, rimou fera-anjo-e-primavera, dançou na beira do espelho, mergulhou na foto da revista bacana, sonhou com ovelhas voadoras, contou estrelas protetoras, não achou em lugar algum as pérolas (chorou por elas), gritou de raiva por sentir ódio, esmagou as flores roxas em protesto aos risos dos caras-enlatadas, escalou quantas montanhas quis, por todos os dias que pôde sem cansar de andar e sem lembrar-se de respirar. deitou, por fim, sabe-se lá aonde, mas logo, logo era feita de algodão... sem dores, sem pulso, sem vão... sem ossos, sem o peso do mundo no pescoço, sem calor ou frio ou vontade de mastigar o próprio mindinho... algodão que não rima, não tem sina ou passo a dar pra próxima esquina... frouxo algodão... puro, frouxo e aconchegante algodão...)
- oi?
...é que a lua cheia continua tonteando os tonteáveis
e esse negócio de esperar resultados...
(me aniquilam, os meus silêncios e andam
me enjoando, as minhas interrogações.)
- ali, a esquina:
...
meu cordão arrebentou e eu tô com medo... é isso... o medo? vontade de ficar parada e de não terminar de escrever nunca pra não parecer a última e mais perdida pessoa do mundo? é isso, medo? eu tenho as sobrancelhas tristemente franzidas, o lábio por baixo dos dentes e as pernas cruzadas num perplexo descompasso... eu tenho medo? me serve de que o peito abafado?
...
meu cordão arrebentou.
até me assustou, mas amanhã
(que não é feriado)
vou andar por um calçadão feio mesmo
mas salva por tons agradáveis...
vou procurar um joalheiro que vai curar
o meu cordão e eu (porque amanhã é amanhã)
vou levantar azul e leve e com inúmeros cheiros
de campo a escorrer pela pele, vou virar para trás o pescoço
por escutar as margaridas que ventaram ali à noite.
vou esfregar os olhos gastos de sonhos
e escolher dois passos prum novo plano.
***
pelo dia 21:
“Quem brincava de princesa
Acostumou na fantasia.”
(final de mês é triste...)