31/07/2011

tréplica

- rapadura que é doce, mas não é mole
solta açúcar sem precisar de mordida.

- [...] e eu volto quando for
só pra dizer que volto de
novo quando você achar
que eu saí, porque aqui
onde a gente parou da
pra ver de longe que
não acabou, e ainda
que você me diga vou
de novo e vou e vou,
eu volto – passem quantos
ventos quiserem passar –
pra te trazer um sopro
qualquer que te faça ir
sem nenhum medo de
deixar.

(volto sem nem sair do lugar)
***

24/07/2011

da ambiguidade das coisas

Saudade esburaca
Maltrata a carne fraca
Amassa o peito, papel de pão
Não pulsa, arde

- nas veias, na cara, na sola do pé...
não dá e passa, ultrapassa
as horas contadas, reina à
revelia do tempo correndo -

Cada vez mais pra dentro
Até morrer de grito infinito
ou suspiro comprido . . .

a saudade é um som ambíguo
***

17/07/2011

Preciosa e o Ar

(García Lorca)

Na lua de pergaminho
Preciosa tocando segue
por um anfíbio caminho
de cristais e louros verdes.
O silêncio sem estrelas,
da batucada a esconder-se,
cai onde o mar bate e canta
a noite cheia de peixes.
Na serra os carabineiros
pelos cumes adormecem
vigiando as brancas torres
onde vivem os ingleses.
E os ciganos da água
para distrair-se se erguem,
gazebos caracóis
e ramos de pinho verde.
-

Na lua de pergaminho
Preciosa tocando segue.
Ao vê-la se ergueu o vento,
vento que nunca adormece.
E São Cristóvão desnudo,
cheio de línguas celestes,
olha a menina tocando
uma doce gaita ausente.

Menina, deixa que eu erga
teu vestido para ver-te.
Abre em meus dedos antigos
a rosa azul de teu ventre.

Preciosa atira o pandeiro
e dispara sem deter-se.
Vento-homenzarrão persegue-a
com uma espada ardente.

Franze seu rumor o mar.
Olivais empalidecem.
Cantam as flautas de umbria
e o liso gongo da neve.

Preciosa, corre, Preciosa,
que te pega o vento verde!
Preciosa, corre, Preciosa!
Olha por onde vem ele!
Sátiro de estrelas baixas
com as línguas reluzentes.
-

Preciosa adentra, de medo
cheia, a casa que pertence,
mais acima dos pinheiros,
ao que é cônsul dos ingleses.

Assustados pelos gritos
três soldados aparecem,
as negras capas cingidas
e nas testas os barretes.

O inglês dá à cigana
um copo de morno leite,
mais uma taça de gim
que Preciosa não bebe.

E enquanto conta, chorando.
a aventura àquela gente,
pelas telhas de piçarra,
bravo, o vento a morder segue.
***

12/07/2011

o quadro

Na parede, em frente ao sofá menor, havia uma marca de quadro passada. Emoldurado em madeira, eu acho. Mas o que dizia esse texto que é agora um quadrado vago?

Sei que tinham pipas. Pipas e casinhas coloridas. Que postas como foram, bem juntas, pareciam uma caixa de lápis de cor... Três pipas com três crianças. E ainda quatro crianças sem pipas. Com e sem camisa, de usar calça curta e laço de fita:

os sem pipas são dois, são meninos e são bestas
mordem o próprio nariz sem perceber
- a gente não rola na xepa!

enquanto na calçada dois gatos assistem sentados
já sabidos da tortura – e da fuga
ao plano dos dois malvados

- vamos juntos, como quem não quer nada, assim se achegando de leve, como se deve, e pegamos os bichanos pelo rabo! Depois rodamos, rodamos, rodamos, até eles gritarem: quiabo!

- ralamos pelo ralo!

Fora tudo isso, duas meninas (uma muito comprida e a de laço de fita), e cada uma têm nas mãos um canudo e um copo com água e sabão para as bolinhas; e só por festa andam espalhando que aquele que, batendo como se batem as claras de ovo em neve, conseguir transformar o líquido transparente numa coisa azul, ganha um beijo na testa e uma bala de alcaçuz...
***

09/07/2011

diamantes, espinhos e flores

Tenho uma cicatriz de diamantes
No tamanho do dedo indicador, mais ou menos
Estirada bem no tendão de Aquiles

E ela sozinha conta uma história
Cheia de meios inícios e longos fins

Ardem cintilantes as pedras quando
Expostas ao sopro, ao vento, ao corpo
Ígneas vaidosas

Brilham na medida em que se fecha
Sobre elas minha pele em despedida

Mas no dia que sarar a ferida
E secar a volta dela em caminho
Os diamantes passam a ser protetores

(como espinhos e flores)
***