17/07/2011

Preciosa e o Ar

(García Lorca)

Na lua de pergaminho
Preciosa tocando segue
por um anfíbio caminho
de cristais e louros verdes.
O silêncio sem estrelas,
da batucada a esconder-se,
cai onde o mar bate e canta
a noite cheia de peixes.
Na serra os carabineiros
pelos cumes adormecem
vigiando as brancas torres
onde vivem os ingleses.
E os ciganos da água
para distrair-se se erguem,
gazebos caracóis
e ramos de pinho verde.
-

Na lua de pergaminho
Preciosa tocando segue.
Ao vê-la se ergueu o vento,
vento que nunca adormece.
E São Cristóvão desnudo,
cheio de línguas celestes,
olha a menina tocando
uma doce gaita ausente.

Menina, deixa que eu erga
teu vestido para ver-te.
Abre em meus dedos antigos
a rosa azul de teu ventre.

Preciosa atira o pandeiro
e dispara sem deter-se.
Vento-homenzarrão persegue-a
com uma espada ardente.

Franze seu rumor o mar.
Olivais empalidecem.
Cantam as flautas de umbria
e o liso gongo da neve.

Preciosa, corre, Preciosa,
que te pega o vento verde!
Preciosa, corre, Preciosa!
Olha por onde vem ele!
Sátiro de estrelas baixas
com as línguas reluzentes.
-

Preciosa adentra, de medo
cheia, a casa que pertence,
mais acima dos pinheiros,
ao que é cônsul dos ingleses.

Assustados pelos gritos
três soldados aparecem,
as negras capas cingidas
e nas testas os barretes.

O inglês dá à cigana
um copo de morno leite,
mais uma taça de gim
que Preciosa não bebe.

E enquanto conta, chorando.
a aventura àquela gente,
pelas telhas de piçarra,
bravo, o vento a morder segue.
***