Ok. Eu me aproveito da sua varanda, e aí?
Vai ficar agora, encostado, fingindo que não gosta de me ver aqui enfeitando a rede?
Vai emburrar de me ver desenrolar novelos no seu peito sabendo que eu venho pelo espaço vazio?
E sem essa de ficar me encarando, ao invés de me encostar – não faz mesmo o seu gênero –, encerra os lábios e dá os olhos por cansados, jurando que não me ataca com a boca fechada. Outro obstáculo: vencer as coisas não ditas.
(e como as procuro sem querer, e caio sempre nos braços mais mudos, sisudos e machucados que se tem notícia; eu que grito por gosto e sofro tanto em jogos de mímica, em física, matemática, meditação e tudo mais que exija um número escasso de palavras.)
- E a solução, cadê?
Mas eu não vim aqui pra dizer! (nem sabia que se buscava uma...) Eu vim respirar essas flores e olhar de olhos muito abertos o céu, vim pelo tempo exposto, por um peito roxo de ausências; eu vim porque o domingo daqui é lindo e dias assim são bem-vindos.
Não tem x, a questão, nenhum fio precisa ser cortado, continua lindo o gramado e os cantos distantes, os pássaros, a água gelada... (não embaça a história) é bem essa a nossa vitória.
***
29/11/2010
27/11/2010
noite três
Eu queria dizer as coisas e descansar a mente, o peito, a cabeça no travesseiro, mas não acho uma palavra que me caiba agora. Que não é espera o que se passa, nem é mais primavera aqui da minha janela, não tem o derramar intenso da chuva (mas tem a fúria), e não tem o ardor do fogo (mas tem o vermelho), não tá escuro o mundo, e ainda não tá claro; eu ando me sentindo muito incomodada, longe das coisas, querendo o dia ao contrário e seguindo a bula, o protocolo, a linha da estrada – mas a minha cabeça voa na contramão buscando uma porrada.
***
***
26/11/2010
de fora pra dentro
eu grito inteira – até quando não
grito – e grita, agora, o universo
junto comigo: as cartas, os orixás
os guetos, em polvorosa eu e o mundo.
nada sossega a alma, nem os tiros, nem
os versos de cautela, nem o que é cela;
soltaram os cachorros e os malucos de
mil hospícios, não me entendo, não me
quero, não me busco; secou a roseira –
fritou do sol de terça – e sumiram as
pessoas das ruas, esvaiu-se em cinzas
a fogueira; esvaziou o interior, encheu a beira.
não tarda o sacolejo alcança o eixo
ou a enxurrada de cores inunda o tempo
(eu escutei que a culpa é minha?) e aí
os silêncios serão respeitados – como
são os torturados –, deixem que explodam
os ambientes e vulcanizem-se os dormentes
ardam em embriaguez de realidade, sofram,
sangrem as vaidades; destranquem os portões
por enfrentamento à batida, mas não olhe pela
janela que a moça tem outro beijando ela...
e eles não ligam se você sente medo ou frio
ou vazio ou se a vida é inteira uma porcaria
(ali qualquer onda funciona)
– é essa então a sua verdade? estar arrasado e ponto final?
não tem o meu aval essas dores, nem esse peito infestado de invasores
e se eu pintei a boca e saí exibindo vulcões particulares a embriagados
dormentes não foi simplesmente para ocupar o tempo, foi por engenho;
não é minha a culpa, não é sua; não é de falar as coisas que se vive
(é de calar? por favor, não me obriguem a continuar...)
[o machucado que poderia parar de sangrar
se você parasse de mexer, mas você não vai.]
nos traímos pelo bem oculto das paixões, pelas
páginas novas de verão, pela promessa pitoresca
dos dias que virão... e vamos acabar mesmo arruinados
das horas e gentes e cigarros, arranhados de gatos
arbustos e arames enferrujados e porque faz-se realmente
necessário um final, digo a vocês que cochilem: não sei de
onde isso veio, não vi por onde passei, mas pedem todas
as minhas coisas um [ponto] e se não funcionar desse jeito
há sempre o jeito contrário.
***
"A vida é bela e cruel, despida
tão desprevenida e exata que um
dia acaba ... (laia laia lalaiááá)."
grito – e grita, agora, o universo
junto comigo: as cartas, os orixás
os guetos, em polvorosa eu e o mundo.
nada sossega a alma, nem os tiros, nem
os versos de cautela, nem o que é cela;
soltaram os cachorros e os malucos de
mil hospícios, não me entendo, não me
quero, não me busco; secou a roseira –
fritou do sol de terça – e sumiram as
pessoas das ruas, esvaiu-se em cinzas
a fogueira; esvaziou o interior, encheu a beira.
não tarda o sacolejo alcança o eixo
ou a enxurrada de cores inunda o tempo
(eu escutei que a culpa é minha?) e aí
os silêncios serão respeitados – como
são os torturados –, deixem que explodam
os ambientes e vulcanizem-se os dormentes
ardam em embriaguez de realidade, sofram,
sangrem as vaidades; destranquem os portões
por enfrentamento à batida, mas não olhe pela
janela que a moça tem outro beijando ela...
e eles não ligam se você sente medo ou frio
ou vazio ou se a vida é inteira uma porcaria
(ali qualquer onda funciona)
– é essa então a sua verdade? estar arrasado e ponto final?
não tem o meu aval essas dores, nem esse peito infestado de invasores
e se eu pintei a boca e saí exibindo vulcões particulares a embriagados
dormentes não foi simplesmente para ocupar o tempo, foi por engenho;
não é minha a culpa, não é sua; não é de falar as coisas que se vive
(é de calar? por favor, não me obriguem a continuar...)
[o machucado que poderia parar de sangrar
se você parasse de mexer, mas você não vai.]
nos traímos pelo bem oculto das paixões, pelas
páginas novas de verão, pela promessa pitoresca
dos dias que virão... e vamos acabar mesmo arruinados
das horas e gentes e cigarros, arranhados de gatos
arbustos e arames enferrujados e porque faz-se realmente
necessário um final, digo a vocês que cochilem: não sei de
onde isso veio, não vi por onde passei, mas pedem todas
as minhas coisas um [ponto] e se não funcionar desse jeito
há sempre o jeito contrário.
***
"A vida é bela e cruel, despida
tão desprevenida e exata que um
dia acaba ... (laia laia lalaiááá)."
22/11/2010
noite dois
sabe esse choro que não é de alegria, nem tristeza, nem nada?
quando os olhos estão só
cansados e cheios de água
(ou a alma inundada)
quando a gente não faz questão
de luz e deixa a lágrima
escorrer tranquila e amiga
querendo secar devagar
sem soluço, sem gosto, sem cheiro
sem nada que atormente
quando o que importa é respirar
e deixar esvair-se o miolo
abrir
outra porta
e outra
e outra
e procurar as plantas semi-mortas
para pintá-las com cores antigas e
caçar borboletas pretas para liberta-las
...
***
quando os olhos estão só
cansados e cheios de água
(ou a alma inundada)
quando a gente não faz questão
de luz e deixa a lágrima
escorrer tranquila e amiga
querendo secar devagar
sem soluço, sem gosto, sem cheiro
sem nada que atormente
quando o que importa é respirar
e deixar esvair-se o miolo
abrir
outra porta
e outra
e outra
e procurar as plantas semi-mortas
para pintá-las com cores antigas e
caçar borboletas pretas para liberta-las
...
***
21/11/2010
tcha-rããã
sentou-se para descansar e em breve fazia de conta que ela era uma mulher azul porque o crepúsculo mais tarde talvez fosse azul, faz de conta que fiava com fios de ouro as sensações, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que dela não estava em silêncio alvíssimo escorrendo sangue escarlate, e que ela não estivesse pálida de morte mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz de conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse com o faz de conta verde-cintilante, faz de conta que amava e era amada , faz de conta que não precisava morrer de saudade, faz de conta que estava deitava na palma transparente da mão de Deus, não Lóri mas o seu nome secreto que ela por enquanto ainda não podia usufruir, faz de conta que vivia e não que estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, faz de conta que ela não ficava de braços caídos de perplexidade quando os fios de ouro que fiava se embaraçavam e ela não sabia desfazer o fino fio frio, faz de conta que ela era sábia bastante para desfazer os nós de corda de marinheiro que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua pois ela era lunar, faz de conta que ela fechasse os olhos os seres amados surgissem quando abrisse os olhos úmidos de gratidão, faz de conta que tudo o que tinha não era faz de conta, faz de conta que se descontraía o peito e uma luz douradíssima e leve a guiava por uma floresta de açudes mudos e de tranquilas mortalidades, faz de conta que ela não era lunar, faz de conta que ela não estava chorando por dentro
***
Clarice, né.
(Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres [ou o superior dos superiores])
tchau, dia 21.
***
Clarice, né.
(Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres [ou o superior dos superiores])
tchau, dia 21.
Porta-retrato
(Caio Fernando Abreu)
A unha batia contra o dente. Contatos assim: uma coisa definida chocando-se com outra definida também. E não só contatos, emoções, linguagens. Quase analfabeto de si mesmo, sem vocabulário suficiente para explicar-se sequer a um espelho. Não queria assim, esses turvos. Não queria assim, esses vagos. Sem nenhum humor. Sem nada que pulsasse mais forte que o frio cuidado com que desordenava-se, um gole disciplinado de vodca quando alguma corda do violino rebentava em plena sinfonia e, no meio do palco, impossível deter o acorde. Unicamente imagens assim lhe ocorriam, essa coisa das árvores, das gramáticas, das minas, dos concertos. Elegantemente, sempre.
http://www.4shared.com/get/4ajmoEBJ/Caio_Fernando_Abreu_-_Fragment.html
***
inaugurado o dia [21] das citações.
A unha batia contra o dente. Contatos assim: uma coisa definida chocando-se com outra definida também. E não só contatos, emoções, linguagens. Quase analfabeto de si mesmo, sem vocabulário suficiente para explicar-se sequer a um espelho. Não queria assim, esses turvos. Não queria assim, esses vagos. Sem nenhum humor. Sem nada que pulsasse mais forte que o frio cuidado com que desordenava-se, um gole disciplinado de vodca quando alguma corda do violino rebentava em plena sinfonia e, no meio do palco, impossível deter o acorde. Unicamente imagens assim lhe ocorriam, essa coisa das árvores, das gramáticas, das minas, dos concertos. Elegantemente, sempre.
http://www.4shared.com/get/4ajmoEBJ/Caio_Fernando_Abreu_-_Fragment.html
***
inaugurado o dia [21] das citações.
Odalisca Andróide
(Fausto Fawcett)
Eu estou sempre aqui, olhando pela janela. Não vejo arranhões no céu nem discos voadores. Os céus estão explorados mas vazios.
Existe um biombo de ossos perto daqui. Eu acho que estou meio sangrando.
Eu já sei, não precisa me dizer. Eu sou um fragmento gótico. Eu sou um castelo projetado. Eu sou um slide no meio do deserto. Eu sempre quis ser isso mesmo. Uma adolescente nua, que nunca viu discos voadores, e que acaba capturada por um trovador de fala cinematográfica. Eu sempre quis isso mesmo: armar hieróglifos com pedaços de tudo, restos de filmes, gestos de rua, gravações de rádio, fragmentos de tv.
Mas eu sei que os meus lábios são transmutação de alguma coisa planetária. Quando eu beijo eu improviso mundos molhados. Aciono gametas guardados. Eu sou a transmutação de alguma coisa eletrônica. Uma notícia de saturno esquecida, uma pulseira de temperaturas, um manequim mutilado, uma odalisca andróide que tinha uma grande dor, que improvisou com restos de cinema e com seu amor, um disco voador.
***
[eita...]
Eu estou sempre aqui, olhando pela janela. Não vejo arranhões no céu nem discos voadores. Os céus estão explorados mas vazios.
Existe um biombo de ossos perto daqui. Eu acho que estou meio sangrando.
Eu já sei, não precisa me dizer. Eu sou um fragmento gótico. Eu sou um castelo projetado. Eu sou um slide no meio do deserto. Eu sempre quis ser isso mesmo. Uma adolescente nua, que nunca viu discos voadores, e que acaba capturada por um trovador de fala cinematográfica. Eu sempre quis isso mesmo: armar hieróglifos com pedaços de tudo, restos de filmes, gestos de rua, gravações de rádio, fragmentos de tv.
Mas eu sei que os meus lábios são transmutação de alguma coisa planetária. Quando eu beijo eu improviso mundos molhados. Aciono gametas guardados. Eu sou a transmutação de alguma coisa eletrônica. Uma notícia de saturno esquecida, uma pulseira de temperaturas, um manequim mutilado, uma odalisca andróide que tinha uma grande dor, que improvisou com restos de cinema e com seu amor, um disco voador.
***
[eita...]
17/11/2010
Estudo Coreográfico – La Llorona (1)
Era doce o gosto dela feito
O fruto em primavera
Sonhava longe um par bonito
E todo coberto de cobre
Quando viu chegando do mar
Um tipo príncipe hispânico
Que lhe veio bem a calhar
Enfeitiçaram-se um do outro
E vieram desse encanto, duas bonitas
Crianças
Mas a ele não bastava nada
Que não fosse o mar como
Estrada
E ainda rezaram os deuses
Dias de muito tormento caso
O pai pretendesse levar oceano
A fora os rebentos
Apodreceu a bela, estragada pelo
Abandono, cegueta de ódio e vaidade
Vagava esbranquiçando a cidade
Amargurando aos olhos do tempo
(indiferença é pá de cal e sombra em qualquer tipo de sentimento)
Soterrada, perdida por constituição e
Agora abençoada de vento, deixou os
Filhos sangrarem rio abaixo...
(o universo tem dessas de revelar obscuridades por razões que só entendemos muito, mas muito mais tarde)
Salvou a América do esculaxo
Por pouco, mas algum tempo.
...
Não se deixe estremecer
Por seus gritos de mis hijos!
Cortou os punhos fervendo
Em paixão e humanidade
Se ela aparecer controla o espanto
Tem dó da moça, por caridade.
***
O fruto em primavera
Sonhava longe um par bonito
E todo coberto de cobre
Quando viu chegando do mar
Um tipo príncipe hispânico
Que lhe veio bem a calhar
Enfeitiçaram-se um do outro
E vieram desse encanto, duas bonitas
Crianças
Mas a ele não bastava nada
Que não fosse o mar como
Estrada
E ainda rezaram os deuses
Dias de muito tormento caso
O pai pretendesse levar oceano
A fora os rebentos
Apodreceu a bela, estragada pelo
Abandono, cegueta de ódio e vaidade
Vagava esbranquiçando a cidade
Amargurando aos olhos do tempo
(indiferença é pá de cal e sombra em qualquer tipo de sentimento)
Soterrada, perdida por constituição e
Agora abençoada de vento, deixou os
Filhos sangrarem rio abaixo...
(o universo tem dessas de revelar obscuridades por razões que só entendemos muito, mas muito mais tarde)
Salvou a América do esculaxo
Por pouco, mas algum tempo.
...
Não se deixe estremecer
Por seus gritos de mis hijos!
Cortou os punhos fervendo
Em paixão e humanidade
Se ela aparecer controla o espanto
Tem dó da moça, por caridade.
***
13/11/2010
Título para reflexão
O meu maior pecado é mesmo essa bruta contradição.
(Do início:)
A dialética do perdão: eu e eu (no lugar de todos ou de algum de vocês), aí me contorço o quanto for, mas resolvo os ventos e sigo o movimento; e como boa pecadora, me dou ao contrário do que padeço [o passo não é calculável, não é fácil e é só o começo]
Aí vem, pelo meio, a história de desde pequena admirar grandes mulheres;
- É isso, vou ser Grande quando crescer!
Eu olhava essas Anitas, essas Bárbaras, todas as Anas, as Rosas, as Isadoras, tinham vida todas elas... Eu queria ir lutar em qualquer lugar ou desbravar inúmeros corações e depois largá-los ou ter um único coração e poder guardá-lo; eu queria ser o fruto amargo da poesia doce, recordação de cores infinita na paleta da imaginação, sobressalto incansável e inesgotável... Mas não tenho o que sobra de ardor Nestas.
Cresci e me desvendei em Elisas, em pálidas Manoelas, em Beatrizes e Isabelas; tenho vocação pra todas essas, e não seria feio se desejasse do fundo do peito um final esguio e sonso de Cinderela; mas pelo meu pecado insistente, viro a minha serpente.
Me conduz um espírito lunático, sonhador de passos firmes (quero histórias com início-meio-e-fim mas me encanto pelo que sobra delas) e se pretendo deixar imperar a razão, me dou ao avesso pela emoção.
Não há em mim a força capaz de vencer as guerras e, embora participe de todas, não tenho gana por elas, mas não quero também o que cabe às moças que são de janela (não dou para o brilho, não dou pro martírio).
E no final das coisas julgo a vida toda muito bem subentendida. Tenho uma máscara quando não quero que se desprende quando preciso dela, me entrega aos olhos do mundo crua enquanto eu me arrisco inteira e madura. Talvez o pecado seja, então, a transparência...
(há sempre quem me convença) Eu sou um reflexo forte de tudo o que é maleável, sou de dissolver e sonho eternidades; mas não sou fugaz, não sou de consumir páginas, vidas, cenários...
Aqui, nesse corredor, moro eu e mais algumas outras, que também abriram mão dos nomes. Cabe a cada uma, um ideal: tem as que cansaram de se buscar e as que se encontram em lugares demais; as que querem ter, mas repelem paixões e as que têm as paixões e querem o perdão; as que sonham e querem agir; as que de tanto agir esqueceram como se sonha;
tem as de sangrar
as de escorrer
e as de vazar litros
e litros (fluidas, todas...)
não somos muitas
não somos poucas
e nem somos um time
somos o que sobra das
nossas histórias coexistindo
com o que diz de nós mesmas
morremos todas sufocadas
- cada uma de si, eu digo -
pelo pecado que nos consumir
(considerando as inúmeras formas
que esse pecado pode assumir)
***
(Do início:)
A dialética do perdão: eu e eu (no lugar de todos ou de algum de vocês), aí me contorço o quanto for, mas resolvo os ventos e sigo o movimento; e como boa pecadora, me dou ao contrário do que padeço [o passo não é calculável, não é fácil e é só o começo]
Aí vem, pelo meio, a história de desde pequena admirar grandes mulheres;
- É isso, vou ser Grande quando crescer!
Eu olhava essas Anitas, essas Bárbaras, todas as Anas, as Rosas, as Isadoras, tinham vida todas elas... Eu queria ir lutar em qualquer lugar ou desbravar inúmeros corações e depois largá-los ou ter um único coração e poder guardá-lo; eu queria ser o fruto amargo da poesia doce, recordação de cores infinita na paleta da imaginação, sobressalto incansável e inesgotável... Mas não tenho o que sobra de ardor Nestas.
Cresci e me desvendei em Elisas, em pálidas Manoelas, em Beatrizes e Isabelas; tenho vocação pra todas essas, e não seria feio se desejasse do fundo do peito um final esguio e sonso de Cinderela; mas pelo meu pecado insistente, viro a minha serpente.
Me conduz um espírito lunático, sonhador de passos firmes (quero histórias com início-meio-e-fim mas me encanto pelo que sobra delas) e se pretendo deixar imperar a razão, me dou ao avesso pela emoção.
Não há em mim a força capaz de vencer as guerras e, embora participe de todas, não tenho gana por elas, mas não quero também o que cabe às moças que são de janela (não dou para o brilho, não dou pro martírio).
E no final das coisas julgo a vida toda muito bem subentendida. Tenho uma máscara quando não quero que se desprende quando preciso dela, me entrega aos olhos do mundo crua enquanto eu me arrisco inteira e madura. Talvez o pecado seja, então, a transparência...
(há sempre quem me convença) Eu sou um reflexo forte de tudo o que é maleável, sou de dissolver e sonho eternidades; mas não sou fugaz, não sou de consumir páginas, vidas, cenários...
Aqui, nesse corredor, moro eu e mais algumas outras, que também abriram mão dos nomes. Cabe a cada uma, um ideal: tem as que cansaram de se buscar e as que se encontram em lugares demais; as que querem ter, mas repelem paixões e as que têm as paixões e querem o perdão; as que sonham e querem agir; as que de tanto agir esqueceram como se sonha;
tem as de sangrar
as de escorrer
e as de vazar litros
e litros (fluidas, todas...)
não somos muitas
não somos poucas
e nem somos um time
somos o que sobra das
nossas histórias coexistindo
com o que diz de nós mesmas
morremos todas sufocadas
- cada uma de si, eu digo -
pelo pecado que nos consumir
(considerando as inúmeras formas
que esse pecado pode assumir)
***
06/11/2010
Contagem Regressiva
Na verdade o que varia não é
A intensidade do querer. Querer,
Te quero por esse tempo que nos
Persegue sem nunca cansar do assunto
A diferença fica explícita
Na alma do sentimento, no
Fator que conduz o sopro
E vasculha meu pensamento
Às vezes é um quererzinho
Feito coceira no dedo do pé
Cosquinha inconveniente
Aconchego manso e ondeante
Coça a mente
Coça a mente
Coça a mente
Até abrir larga ferida
Aí muda completamente o
Cenário, e te quero enlouquecida
Por não querer nada da vida
Num tapete melodramático me
Esparramo na escuridão, vôo em cegos
Corredores fugindo do que é razão
Cansada da viagem, volto ao mundo
Para espairecer refletindo em botões
De rosa o valor de retroceder
Passa a ardência, passa a hora
O sol, a lua; as nuvens vêm e vão embora
O sangue estanca
Cicatriza em verso a ferida...
E volto a te querer do início da partida:
***
A intensidade do querer. Querer,
Te quero por esse tempo que nos
Persegue sem nunca cansar do assunto
A diferença fica explícita
Na alma do sentimento, no
Fator que conduz o sopro
E vasculha meu pensamento
Às vezes é um quererzinho
Feito coceira no dedo do pé
Cosquinha inconveniente
Aconchego manso e ondeante
Coça a mente
Coça a mente
Coça a mente
Até abrir larga ferida
Aí muda completamente o
Cenário, e te quero enlouquecida
Por não querer nada da vida
Num tapete melodramático me
Esparramo na escuridão, vôo em cegos
Corredores fugindo do que é razão
Cansada da viagem, volto ao mundo
Para espairecer refletindo em botões
De rosa o valor de retroceder
Passa a ardência, passa a hora
O sol, a lua; as nuvens vêm e vão embora
O sangue estanca
Cicatriza em verso a ferida...
E volto a te querer do início da partida:
***
05/11/2010
Mais
( I )
lá vai ela, mais uma vez
de tropeço em tropeço
atingir logo o proibido
arrepia a pele e congela a razão
mas esse som...
vento ao pé do ouvido
e disfarça a sedução
abre as pernas, envolve as mãos
respira essa ansiedade
e cospe na cara da vontade
mas a noite é linda;
“e a dança, e a dança, e a dança”
encosta-se por acaso
perde tempo com a sombra
mas ainda não está desfeito o caso...
( II )
a outra pensa em afagos
e ele só quer conseguir respirar
insiste, tenta de novo
e uma vontade de espirrar...
ela grita, esperneia
(não tarda a desapontar)
mas ele, longe dali
passa a ver só boca mexendo
e de repente o que era cor escura cambalhota
bambolê em cores
espiral multicolorido
vem vindo, vindo
e quando encosta-lhe a face
transformou-se:
é azul, azul cristalino.
( + )
depois do mergulho, ele emerge
cansado de dar asas ao pensamento
e de caçar buracos, cansado de cansar sempre
e de cercar-se de sorrisos fracos
só aí, percebendo o erro
abre a porta e vê toda a água no chão:
o azul era o avesso.
o azul era o outro lado.
***
fevereiro/2009, na verdade.
lá vai ela, mais uma vez
de tropeço em tropeço
atingir logo o proibido
arrepia a pele e congela a razão
mas esse som...
vento ao pé do ouvido
e disfarça a sedução
abre as pernas, envolve as mãos
respira essa ansiedade
e cospe na cara da vontade
mas a noite é linda;
“e a dança, e a dança, e a dança”
encosta-se por acaso
perde tempo com a sombra
mas ainda não está desfeito o caso...
( II )
a outra pensa em afagos
e ele só quer conseguir respirar
insiste, tenta de novo
e uma vontade de espirrar...
ela grita, esperneia
(não tarda a desapontar)
mas ele, longe dali
passa a ver só boca mexendo
e de repente o que era cor escura cambalhota
bambolê em cores
espiral multicolorido
vem vindo, vindo
e quando encosta-lhe a face
transformou-se:
é azul, azul cristalino.
( + )
depois do mergulho, ele emerge
cansado de dar asas ao pensamento
e de caçar buracos, cansado de cansar sempre
e de cercar-se de sorrisos fracos
só aí, percebendo o erro
abre a porta e vê toda a água no chão:
o azul era o avesso.
o azul era o outro lado.
***
fevereiro/2009, na verdade.
03/11/2010
A moça, o bebê e a poesia
Garantia silenciosamente a noite que o dia seguinte seria ruidoso (ideologicamente falando). Por conhecer bem a insônia não se deixou afetar pelos desassossegos da madrugada, mas Elisa sabia que chegado o próximo sol o dia iria maltratá-la. Embalou as cartas que entregaria ao amanhecer com ou sem os pressentimentos.
Afinal se deitou e ficou rememorando o tapete de pétalas e as bicicletas do Aterro do Flamengo...
O acordar foi de uma vez (essa é a minha história dela:) abriu os angustiados olhos castanhos e saltou da cama vestida da energia injetável das noites mal-dormidas. Um banho pelo contato com a água, quatro nozes pelo Ômega 3, uma olhada na janela para a arrumação da bolsa, as vitaminas amarelas por recomendação médica, um macacão frouxo para conforto do bebê – que já carregava, a essa época, uma grande barriga de entregar uns cinco meses de gestação; imagino-a atravessando uma rua ou lendo manchetes vazias numa banca de jornal, sentada num ponto de ônibus remoendo amores por distração, tentando livrar a consciência de afogar-se em problemas tão prematuros – os óculos escuros por ilusória invisibilidade, três pulinhos na saída de casa pelo medo que a consumia nas últimas semanas, o pé direito e o bom dia pela nobre e velha rotina.
Vinha notando certos arroubos em seu comportamento como que em resposta fisiológica às forças que a buscavam secretamente. Ria trêmula, sentia o peito ora congelar, ora ferver; sentia pulsar o canto dos olhos, da boca, da alma; sofria delícias de folhetim. Logo ela, a amiga mais cética, a criadora de histórias pela falta de lirismo que aqueles anos vinham lhe esfregando na cara; ouvia estalar o coração, a mente, a áurea... Mas não comentava insights cósmicos com praticamente ninguém. Só com o bebê, às vezes, e telepaticamente.
O bebê, aliás, era o Universo intocado de Elisa, e por vontade própria serviria-lhe de casa para sempre. “Aqui na Realidade separam os pais das mães por informação, seqüestram meninas por besta diversão; aqui nesse país a música não toca e também não é o silêncio puro o que nos consola; aqui nos impuseram certas palavras e outras querem que finjamos que não existem; aqui arrancam unhas feitas por qualquer desfeita, andam matando demais e eu prefiro te guardar aí a te ver sangrando por nenhuma liberdade, feito eu, aqui desse lado.”
É claro que ela defendia a democracia – quem, vendo o que eles viam, não defenderia? –, os generais não permitiam suas “frases dissimuladas” de estudante de literatura, apagavam suas cores favoritas das ruas; a Zona Sul não era mais azul e o subúrbio da Vizinha e das cachoeiras de domingo aplaudia gols que se desmanchavam no ar enquanto Arthur morria. “Aqui fora você não vai mesmo encontrar com seu pai (não chorava) e a mim você tem inteira estando aí dentro...”
A moça refletia, mas não era subversiva. Torcia pela volta do Sarau, queria noites possíveis de serem vividas, seus silenciosos e bêbados amores, as rodas de girar saia e conquistar flores... “Não é pela Revolução, coisinha, é pelo perdão.”
No comitê, chamavam-na flor do burgo. Ria de canto, quase gostava e respondia sempre com as coisas já resolvidas. Escrevia cartas que deixava presas em canteiros à porta de colégios ou em cima de bancos de praça, em balanços, em pontos de ônibus... Dizia nelas os versos que lhe oprimiam, contava estrelas invisíveis e suspirava martírios a completos desconhecidos. Nunca ficava para ver quem lia suas linhas despejadas.
(meu reino por uma dessas cartas perdidas)
Eles acharam, leram e tentaram entender a poesia; “Não pode, é obscena”, disseram que insultava a Bíblia. Caçaram a luz das palavras, mandaram usurpar a criatividade do artista, quiseram romper os laços bonitos da imaginação com golpes de espalhar desespero em corredores da razão.
Elisa saiu, como que sugada, da sala de onde via subirem os monstros, para o mais próximo lance de escadas. E enquanto descia correndo, não pensava não queria não pedia, só chorava. E no segundo lance de degraus as lágrimas eram tão bem-vindas quanto o vento que esbarrou-lhe chegado de uma desconhecida janela. E foi nesse momento que se abriu a porta que dava para ela: viu homens cinzentos, sentiu a brisa, secou os olhos encharcados enquanto não ouvia o que gritavam, pressionou a barriga com a mão esquerda e deu-se a ventania,
sem obscurecer o dia
sem nenhum tormento
deixou o mundo em que
não cabia pela janela –
bebê-ela-e-poesia.
***
Me contaram, semana passada, essa história:
[1968, parece] menina grávida (e sem nome) pulou do antigo prédio de Letras da UERJ, no centro, por medo das mãos truculentas do Regime.
Afinal se deitou e ficou rememorando o tapete de pétalas e as bicicletas do Aterro do Flamengo...
O acordar foi de uma vez (essa é a minha história dela:) abriu os angustiados olhos castanhos e saltou da cama vestida da energia injetável das noites mal-dormidas. Um banho pelo contato com a água, quatro nozes pelo Ômega 3, uma olhada na janela para a arrumação da bolsa, as vitaminas amarelas por recomendação médica, um macacão frouxo para conforto do bebê – que já carregava, a essa época, uma grande barriga de entregar uns cinco meses de gestação; imagino-a atravessando uma rua ou lendo manchetes vazias numa banca de jornal, sentada num ponto de ônibus remoendo amores por distração, tentando livrar a consciência de afogar-se em problemas tão prematuros – os óculos escuros por ilusória invisibilidade, três pulinhos na saída de casa pelo medo que a consumia nas últimas semanas, o pé direito e o bom dia pela nobre e velha rotina.
Vinha notando certos arroubos em seu comportamento como que em resposta fisiológica às forças que a buscavam secretamente. Ria trêmula, sentia o peito ora congelar, ora ferver; sentia pulsar o canto dos olhos, da boca, da alma; sofria delícias de folhetim. Logo ela, a amiga mais cética, a criadora de histórias pela falta de lirismo que aqueles anos vinham lhe esfregando na cara; ouvia estalar o coração, a mente, a áurea... Mas não comentava insights cósmicos com praticamente ninguém. Só com o bebê, às vezes, e telepaticamente.
O bebê, aliás, era o Universo intocado de Elisa, e por vontade própria serviria-lhe de casa para sempre. “Aqui na Realidade separam os pais das mães por informação, seqüestram meninas por besta diversão; aqui nesse país a música não toca e também não é o silêncio puro o que nos consola; aqui nos impuseram certas palavras e outras querem que finjamos que não existem; aqui arrancam unhas feitas por qualquer desfeita, andam matando demais e eu prefiro te guardar aí a te ver sangrando por nenhuma liberdade, feito eu, aqui desse lado.”
É claro que ela defendia a democracia – quem, vendo o que eles viam, não defenderia? –, os generais não permitiam suas “frases dissimuladas” de estudante de literatura, apagavam suas cores favoritas das ruas; a Zona Sul não era mais azul e o subúrbio da Vizinha e das cachoeiras de domingo aplaudia gols que se desmanchavam no ar enquanto Arthur morria. “Aqui fora você não vai mesmo encontrar com seu pai (não chorava) e a mim você tem inteira estando aí dentro...”
A moça refletia, mas não era subversiva. Torcia pela volta do Sarau, queria noites possíveis de serem vividas, seus silenciosos e bêbados amores, as rodas de girar saia e conquistar flores... “Não é pela Revolução, coisinha, é pelo perdão.”
No comitê, chamavam-na flor do burgo. Ria de canto, quase gostava e respondia sempre com as coisas já resolvidas. Escrevia cartas que deixava presas em canteiros à porta de colégios ou em cima de bancos de praça, em balanços, em pontos de ônibus... Dizia nelas os versos que lhe oprimiam, contava estrelas invisíveis e suspirava martírios a completos desconhecidos. Nunca ficava para ver quem lia suas linhas despejadas.
(meu reino por uma dessas cartas perdidas)
Eles acharam, leram e tentaram entender a poesia; “Não pode, é obscena”, disseram que insultava a Bíblia. Caçaram a luz das palavras, mandaram usurpar a criatividade do artista, quiseram romper os laços bonitos da imaginação com golpes de espalhar desespero em corredores da razão.
Elisa saiu, como que sugada, da sala de onde via subirem os monstros, para o mais próximo lance de escadas. E enquanto descia correndo, não pensava não queria não pedia, só chorava. E no segundo lance de degraus as lágrimas eram tão bem-vindas quanto o vento que esbarrou-lhe chegado de uma desconhecida janela. E foi nesse momento que se abriu a porta que dava para ela: viu homens cinzentos, sentiu a brisa, secou os olhos encharcados enquanto não ouvia o que gritavam, pressionou a barriga com a mão esquerda e deu-se a ventania,
sem obscurecer o dia
sem nenhum tormento
deixou o mundo em que
não cabia pela janela –
bebê-ela-e-poesia.
***
Me contaram, semana passada, essa história:
[1968, parece] menina grávida (e sem nome) pulou do antigo prédio de Letras da UERJ, no centro, por medo das mãos truculentas do Regime.
02/11/2010
21.
Renascida [ponto]
Não porque antes me reconhecesse morta, mas porque o dia me pôs em contato com partes minhas que andavam misteriosamente perdidas em um mar de espasmos atemporais e sôfregos, numa zona de abissal poesia.
Não sei dizer se é onda da carta, do remédio ou da cafeína; talvez seja só vontade, por contato ilusório com a almejada liberdade, mas... intuitivamente: me livrei de você. Não entenda mal – não entenda, apenas. Que são bonitas as nossas coisas mesmo assim (e não posso nem me dar ao luxo de repetir isso alto, minha consciência itinerante teima sempre em te resgatar)
Digo só que o dia foi desses de sutilmente surpreender e divinamente agradar...
Ontem joguei cartas e tirei a 21 – O mundo. Acho-a linda das palavras-chave ao desenho no baralho, mas minha veia tortuosamente interrogativa me exibe a possibilidade dos meus ares corados serem influência da leitura...
De qualquer forma hoje rejeito inversões no pensamento, e seria mesmo legal se essa coisa holística e de energia em fluxo de saudade/criatividade/apelo ou alegria fosse verdadeira; e se o deus fosse um algo inteiro, não uma figura só Dele, imposta e por isso poderosa, mas uma super-força-universal e dinâmica: um turbilhão de cores em frenesi poético, resquícios flutuantes de envelhecidos amores, olhares de bichos servindo de postes de baixa iluminação a render contos selvagens à imaginação terrestre, a ingenuidade dilacerante dos nossos bichos domesticados e ventos, para incendiar movimentos e espalhar cheiro de vida no ar (que tem cheiro de coisa pra comer, a vida)
Isso mais algo que, por favor, voe, mais toda a compaixão das luas que nos inundam em noites de estar solitário, mais a felicidade de sangrar que mora nas chuvas e a solícita efemeridade das sempre bem-vindas rosas.
Ia ser mesmo lindo se o deus fosse isso – e nós um parêntese encantado da história, uma extensão ideológica da aquarela.
***
1 - lágrimas negras (otto e julieta venegas)
2 - positivismo (macalé)
3 - dança da solidão (com o paulinho mesmo)
4 - o trem azul (clube da esquina)
Não porque antes me reconhecesse morta, mas porque o dia me pôs em contato com partes minhas que andavam misteriosamente perdidas em um mar de espasmos atemporais e sôfregos, numa zona de abissal poesia.
Não sei dizer se é onda da carta, do remédio ou da cafeína; talvez seja só vontade, por contato ilusório com a almejada liberdade, mas... intuitivamente: me livrei de você. Não entenda mal – não entenda, apenas. Que são bonitas as nossas coisas mesmo assim (e não posso nem me dar ao luxo de repetir isso alto, minha consciência itinerante teima sempre em te resgatar)
Digo só que o dia foi desses de sutilmente surpreender e divinamente agradar...
Ontem joguei cartas e tirei a 21 – O mundo. Acho-a linda das palavras-chave ao desenho no baralho, mas minha veia tortuosamente interrogativa me exibe a possibilidade dos meus ares corados serem influência da leitura...
De qualquer forma hoje rejeito inversões no pensamento, e seria mesmo legal se essa coisa holística e de energia em fluxo de saudade/criatividade/apelo ou alegria fosse verdadeira; e se o deus fosse um algo inteiro, não uma figura só Dele, imposta e por isso poderosa, mas uma super-força-universal e dinâmica: um turbilhão de cores em frenesi poético, resquícios flutuantes de envelhecidos amores, olhares de bichos servindo de postes de baixa iluminação a render contos selvagens à imaginação terrestre, a ingenuidade dilacerante dos nossos bichos domesticados e ventos, para incendiar movimentos e espalhar cheiro de vida no ar (que tem cheiro de coisa pra comer, a vida)
Isso mais algo que, por favor, voe, mais toda a compaixão das luas que nos inundam em noites de estar solitário, mais a felicidade de sangrar que mora nas chuvas e a solícita efemeridade das sempre bem-vindas rosas.
Ia ser mesmo lindo se o deus fosse isso – e nós um parêntese encantado da história, uma extensão ideológica da aquarela.
***
1 - lágrimas negras (otto e julieta venegas)
2 - positivismo (macalé)
3 - dança da solidão (com o paulinho mesmo)
4 - o trem azul (clube da esquina)
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