O meu maior pecado é mesmo essa bruta contradição.
(Do início:)
A dialética do perdão: eu e eu (no lugar de todos ou de algum de vocês), aí me contorço o quanto for, mas resolvo os ventos e sigo o movimento; e como boa pecadora, me dou ao contrário do que padeço [o passo não é calculável, não é fácil e é só o começo]
Aí vem, pelo meio, a história de desde pequena admirar grandes mulheres;
- É isso, vou ser Grande quando crescer!
Eu olhava essas Anitas, essas Bárbaras, todas as Anas, as Rosas, as Isadoras, tinham vida todas elas... Eu queria ir lutar em qualquer lugar ou desbravar inúmeros corações e depois largá-los ou ter um único coração e poder guardá-lo; eu queria ser o fruto amargo da poesia doce, recordação de cores infinita na paleta da imaginação, sobressalto incansável e inesgotável... Mas não tenho o que sobra de ardor Nestas.
Cresci e me desvendei em Elisas, em pálidas Manoelas, em Beatrizes e Isabelas; tenho vocação pra todas essas, e não seria feio se desejasse do fundo do peito um final esguio e sonso de Cinderela; mas pelo meu pecado insistente, viro a minha serpente.
Me conduz um espírito lunático, sonhador de passos firmes (quero histórias com início-meio-e-fim mas me encanto pelo que sobra delas) e se pretendo deixar imperar a razão, me dou ao avesso pela emoção.
Não há em mim a força capaz de vencer as guerras e, embora participe de todas, não tenho gana por elas, mas não quero também o que cabe às moças que são de janela (não dou para o brilho, não dou pro martírio).
E no final das coisas julgo a vida toda muito bem subentendida. Tenho uma máscara quando não quero que se desprende quando preciso dela, me entrega aos olhos do mundo crua enquanto eu me arrisco inteira e madura. Talvez o pecado seja, então, a transparência...
(há sempre quem me convença) Eu sou um reflexo forte de tudo o que é maleável, sou de dissolver e sonho eternidades; mas não sou fugaz, não sou de consumir páginas, vidas, cenários...
Aqui, nesse corredor, moro eu e mais algumas outras, que também abriram mão dos nomes. Cabe a cada uma, um ideal: tem as que cansaram de se buscar e as que se encontram em lugares demais; as que querem ter, mas repelem paixões e as que têm as paixões e querem o perdão; as que sonham e querem agir; as que de tanto agir esqueceram como se sonha;
tem as de sangrar
as de escorrer
e as de vazar litros
e litros (fluidas, todas...)
não somos muitas
não somos poucas
e nem somos um time
somos o que sobra das
nossas histórias coexistindo
com o que diz de nós mesmas
morremos todas sufocadas
- cada uma de si, eu digo -
pelo pecado que nos consumir
(considerando as inúmeras formas
que esse pecado pode assumir)
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