Garantia silenciosamente a noite que o dia seguinte seria ruidoso (ideologicamente falando). Por conhecer bem a insônia não se deixou afetar pelos desassossegos da madrugada, mas Elisa sabia que chegado o próximo sol o dia iria maltratá-la. Embalou as cartas que entregaria ao amanhecer com ou sem os pressentimentos.
Afinal se deitou e ficou rememorando o tapete de pétalas e as bicicletas do Aterro do Flamengo...
O acordar foi de uma vez (essa é a minha história dela:) abriu os angustiados olhos castanhos e saltou da cama vestida da energia injetável das noites mal-dormidas. Um banho pelo contato com a água, quatro nozes pelo Ômega 3, uma olhada na janela para a arrumação da bolsa, as vitaminas amarelas por recomendação médica, um macacão frouxo para conforto do bebê – que já carregava, a essa época, uma grande barriga de entregar uns cinco meses de gestação; imagino-a atravessando uma rua ou lendo manchetes vazias numa banca de jornal, sentada num ponto de ônibus remoendo amores por distração, tentando livrar a consciência de afogar-se em problemas tão prematuros – os óculos escuros por ilusória invisibilidade, três pulinhos na saída de casa pelo medo que a consumia nas últimas semanas, o pé direito e o bom dia pela nobre e velha rotina.
Vinha notando certos arroubos em seu comportamento como que em resposta fisiológica às forças que a buscavam secretamente. Ria trêmula, sentia o peito ora congelar, ora ferver; sentia pulsar o canto dos olhos, da boca, da alma; sofria delícias de folhetim. Logo ela, a amiga mais cética, a criadora de histórias pela falta de lirismo que aqueles anos vinham lhe esfregando na cara; ouvia estalar o coração, a mente, a áurea... Mas não comentava insights cósmicos com praticamente ninguém. Só com o bebê, às vezes, e telepaticamente.
O bebê, aliás, era o Universo intocado de Elisa, e por vontade própria serviria-lhe de casa para sempre. “Aqui na Realidade separam os pais das mães por informação, seqüestram meninas por besta diversão; aqui nesse país a música não toca e também não é o silêncio puro o que nos consola; aqui nos impuseram certas palavras e outras querem que finjamos que não existem; aqui arrancam unhas feitas por qualquer desfeita, andam matando demais e eu prefiro te guardar aí a te ver sangrando por nenhuma liberdade, feito eu, aqui desse lado.”
É claro que ela defendia a democracia – quem, vendo o que eles viam, não defenderia? –, os generais não permitiam suas “frases dissimuladas” de estudante de literatura, apagavam suas cores favoritas das ruas; a Zona Sul não era mais azul e o subúrbio da Vizinha e das cachoeiras de domingo aplaudia gols que se desmanchavam no ar enquanto Arthur morria. “Aqui fora você não vai mesmo encontrar com seu pai (não chorava) e a mim você tem inteira estando aí dentro...”
A moça refletia, mas não era subversiva. Torcia pela volta do Sarau, queria noites possíveis de serem vividas, seus silenciosos e bêbados amores, as rodas de girar saia e conquistar flores... “Não é pela Revolução, coisinha, é pelo perdão.”
No comitê, chamavam-na flor do burgo. Ria de canto, quase gostava e respondia sempre com as coisas já resolvidas. Escrevia cartas que deixava presas em canteiros à porta de colégios ou em cima de bancos de praça, em balanços, em pontos de ônibus... Dizia nelas os versos que lhe oprimiam, contava estrelas invisíveis e suspirava martírios a completos desconhecidos. Nunca ficava para ver quem lia suas linhas despejadas.
(meu reino por uma dessas cartas perdidas)
Eles acharam, leram e tentaram entender a poesia; “Não pode, é obscena”, disseram que insultava a Bíblia. Caçaram a luz das palavras, mandaram usurpar a criatividade do artista, quiseram romper os laços bonitos da imaginação com golpes de espalhar desespero em corredores da razão.
Elisa saiu, como que sugada, da sala de onde via subirem os monstros, para o mais próximo lance de escadas. E enquanto descia correndo, não pensava não queria não pedia, só chorava. E no segundo lance de degraus as lágrimas eram tão bem-vindas quanto o vento que esbarrou-lhe chegado de uma desconhecida janela. E foi nesse momento que se abriu a porta que dava para ela: viu homens cinzentos, sentiu a brisa, secou os olhos encharcados enquanto não ouvia o que gritavam, pressionou a barriga com a mão esquerda e deu-se a ventania,
sem obscurecer o dia
sem nenhum tormento
deixou o mundo em que
não cabia pela janela –
bebê-ela-e-poesia.
***
Me contaram, semana passada, essa história:
[1968, parece] menina grávida (e sem nome) pulou do antigo prédio de Letras da UERJ, no centro, por medo das mãos truculentas do Regime.