11/11/2012

nhac


DIGERIR. o tanto de vida que a vida dá. o que é corte-forte e o que é asa fluida, digerir para expressar. a expressão quase instantânea do que nos acontece como mundo  é verborrágica e nos distancia da incorporação do acontecido. incorporação advinda de uma descoberta de mundo que instaura a ação reflexiva e agita em questionamentos o corpo; esta “incorporação do acontecido” diz respeito a um alargamento de fronteiras. alargamento que não é visível como instante, mas que sinaliza-se com (in)consciências-vagalumes que piscam em nós fazendo com que desejemos “mudar de lugar”. reconhecemos em nossos corpos – considerando sua dimensão física-psíquica-emocional  – nódulos que se querem desfeitos, e então deste desvelar de “ranhuras” surge um ímpeto de movimento que quer/busca chacoalhar este corpo.

no entanto estes movimentos requerem observação, apropriação, um tempo de digestão para que sejam in-corporados e não escorram de nós como prelúdios de novos mundos; a expressão destes movimentos de alargamento das fronteiras que não respeita o tempo de germinação das novas consciências não alcança estado de enraizamento no/do ser, transfigurando consciências em bibelôs que colamos ao nosso corpo-imagem.

07/11/2012

laboratório b

espaço É
para ser espaço-Ser,
espaço É para SER desde as microlinhas
o que parecer pra você

imagem de convivência ou espera
templo do abandono e vislumbre
de aquarela ao mesmíssimo tempo

canto-circuito de rotinas poeirentas que nas
entrelinhas é repleto da riqueza dos caça-palavras
espaço é para ser espanto e questão e despertar

e tudo que para o ser-se, são
cores de preencher a existência

espaço-eu, espaço-diálogo de euemundo

31/10/2012

prelúdio de invertida


sou de tristeza e
folhas, por agora
amarelas laranjas
caídas folhas...
sou dentro uma
primavera mono
-cromática e fo r a
um final arrastado
de outono



a distância do frescor
já não lembra amores
jeitosos, palpitações
brilhos nas dobras
enfiei-me-corpo
numa profundeza
humana de pântano



conheci príncipes de
mundos subtérreos
e lambuzei-me de
doçuras e suspenses
que me engoliram em
Esfinge. agora-agora,
com alguma luz acesa
sangro uma forma grave:
os braços recheados de vento
as mãos vibrando em vermelho
e as pernas-tronco sustentando minha cintura aquática

. . . sob os pés a realeza da terra

22/10/2012

sobre meninas e lobos I


cheio de alguma coisa o movimento
é sempre

isso que me mexe nessas horas
é

desvelar          sair de          desembaçar          clarear os olhos          o umbigo

(que tem o umbigo?)

a música dá

coisa muito ainda contida
isso de cruzar as pernas

estouram cores dos órgãos
é isso

incham incham estouram
colorem de inundação

tremo no fundo de cada risco no espaço
um espasmo insistente e quase invisível

- eu percebo! não vai ficar aí, azucrina
não vai!

desembaçar          clarear os olhos

delinear . . .
. . . o umbigo

(que tem o umbigo?)

a música invade o pulso
vale: pulsar junto, contra e independente de

o silêncio sublinha o pulso
e vale.

o umbigo irradia
o que tem o umbigo 

03/10/2012

Aonde a arte nos leva?

Ainda que não seja uma pretensão consciente de músicos, dançarinos, coreógrafos ou pintores, o seu fazer artístico, bem como as suas obras, assumem – só por existir como objeto artístico construído – um caráter “tele transportador”. E então poderíamos dizer que a arte nos leva exatamente para onde queremos ser levados (por Ricardo Reis: “A realidade sempre é mais ou menos o que nós queremos...”): ao assistirmos a um filme, os estímulos visuais e sonoros que nos são dados se juntam às nossas memórias e experiências pessoais, direcionando-nos para um sítio imaginário que é único - sendo pouco ou muito fantástico. Alguns acessarão porões animalescos da mente assistindo leoas amamentando seus filhotes, outros se sentirão acariciados por essa cena. Dessa forma notamos que, ainda que pretendesse direcionar o espectador para um “lugar x”, o máximo que o artista vai conseguir é dar pistas do que ele gostaria que fosse visto no caminho.


Mas, para onde a arte nos leva enquanto artistas? Nós todos: seres expressivos e por isso humanos, que pintaríamos o mundo de cores lindas de bom grado se nos fosse dado o gosto e a fala para essa linguagem. Mas não... Batem palmas para nossas primeiras palavras tortuosamente ditas, para os nossos discursos, para as vezes em que a nossa voz prevalece a mais alta; e se não somos dos que gritam e esbravejam força por aí a fora, sucumbimos ao mundo. E então toda a força nos baterá cá dentro e socará as paredes do estômago, há de mastigar com dentes brabos o coração, se este mundo que só sabe do que vê e ouve em letras claras não tem poros para o que dizemos de outro modo. Seremos então um monte cinza de gente, um amontoado de falas que não têm língua para serem ditas, que não têm voz (ainda que por fora estejamos tagarelando mesmices). E neste sentido a arte nos levaria a nós mesmos, nos salvando a cada um a vida. Dando a letra para uma nova linguagem, dando ouvidos às vozes que nos gritam de dentro e outros ouvidos capazes de (e interessados em) ouvir nossos gritos puros.


A arte transforma o que é ininteligível no humano em liberdade


O caminho da arte é o léu . . .

28/09/2012

sem tema


Tenho ondulações que
fogem à sua exigência, Ciência

Tenho ares que se transmutam em chacotas,
nesta caixa em que tu insistes que tenho que caber

Meus desejos, seguindo seu manual, me engolem em agressividade e tédio
Não dou tão descritiva no mundo . . .

Tenho um grito preso para cada movimento que você não permite

Tenho um passarinho amarrado para cada cópia que você me insiste

Tenho ares sombrios na vista de muita aeróbica e pouca poesia . . .
Espaço para minha sensível racionalização, Ciência, é potência, não frouxidão
,mas parece que engoliste teu umbigo e não enxergas um palmo fora da métrica

Em ti, até o que é leve soterra
E me arremeça pela janela num negrume de céu gelado que me alivia por ser livre para.







Não querendo, nem de longe, desmerecer o que é precisão
, mas deveria ela calar em mim o que é paixão?  
***

02/08/2012

TÍTULO

     EU CORPO ANDO
       FALANDO PRESENTE

LÍNGUA RECENTE E MORTA

   PARADOXALMENTE CLARA

DIALETO 
SÚBITO DE
ENTRANHA MAIS QUE
VIVA PALAVRA VIVA DE VIDA
BAGUNÇA-DA
BOA SORTE
LETRA AMOROSA E LIMPA
                
                      SINTA:

21/07/2012

Da distância


Dá pra estar um no outro encostado e sentir um aqui, o outro noutro estado

Dá pra estar a flor aqui, a cor na outra calçada e ainda assim o cheiro dela cosquinhar o ar

Dá pra ser fruto suculento de longe
E por um tempo lamber de desejo os beiços de tangerina

. . .  dá pra ver tudo isso secar de cima


Dá pra desaparecer pra dentro de tão íntimo
E soar mais distante que uma folha caída de árvore

- dá pra Ser até mais tarde?


Por baixo dessas cadeiras
Por detrás de armários
Estantes, geladeiras...

Embaixo das colchas de chita
Das flores de fita
Das gravatas apertadas
Depois da última esquina
                                

As boas vindas: aqui seremos isso que buscamos ser, aqui o nosso cheiro é nosso, os nossos olhos olham e vêem, os ouvidos escutam e a pele se abre inteira sem saber nada do medo;
aqui fogo é fogo e água é água

Nos movemos pelo que se move aqui dentro, não nos dis-dizemos, somos nós mesmos a tempo...

(somos nós mesmos o próprio tempo)  

24/06/2012

Junho


Felicidade chegou à casa mais cedo vestindo uma pasta amarela.

Bronzeada de rua e agitada de brisa secou os pés ludibriados no carpete da porta da sala.

Eu via o quadro do andar de cima, de uma janela em que não se via mais nada – só as entradas e saídas de Felicidade que eram, a cada estação, mais raras.

Dessa vez não eram as Flores que mandavam nem as Asas penosas.

Felicidade era uma cor e só. Passado-amarelo-pardo.

“Que forma de envelope possuem os dias...”, chorava de sobra. Pela alegria de entender o que diziam suas lágrimas mais incoerentes. Já não se entendia muito bem em línguas de gente, sussurrava sons de árvores, assobiava bravuras e se curava aos gritos e barrancos.

Saiu em asas de borboleta violeta – Felicidade não é retilínea.
...

É amor bem amado em história de bandido
Ar em dia de sangue
Cafuné espinhoso
Não é estado, não é jogo
Nó sem solução na garganta sufocando a gente de arco-íris
O tempo untando de geléia carinhosa uns passos nossos...

14/05/2012

BACH

não transformar a vida numa coisa medíocre.
não deve ser perecível nessa reta, a existência
não fazer da vida uma coisa medíocre.
- dança a moça por quê?
para não ser um isso que se deita levanta bebe leite e mija
transformar a mediocridade da vida
transformar a vida
(transvidar)

usar a palavra
o tempo
o não-tempo
som-e-silêncio
o-usar o passo lento
aprender a não-maltratar a tempo

aprender a
***

26/03/2012

(título)

E tu, como chama?
espera

E tu impera?
ofício.

De primavera?
de vício.


Grudei em ti feito os beiço com mangaba.
pois eu te olhava que era pra tu petrifica na minha.

Vente brisa em mim...
pede calma, pede tempo e um gosto de folha pra mais tarde

Eu peço e tu vem?
sem metades.

Escuro ou claro?
escuro, que as estrelas têm gosto de canto..

Me beija na beira?
e no fundo . . .

(um gosto redondo de tu)

11/03/2012

Essas coisas de fim

(...) e sabe o quê?

aqui nada vai acontecer...
além d’eu me eternizar morrendo
de parada e de te ver

sabe o quê?

acordar dói quando a gente
não entende a linha que divisa
o sonho do mundo

e os olhos logo cansam de
ver plástico colorido voando

sabe o quê?

vi muitas borboletas amarelas e comecei a desconfiar...
e essa longitude estirada me morre a cada acordar

sabe que eu não sei se é sério, mas desperto cheia de lodo seu em mim.
e não posso mais. ta-dito.

sabe o quê? ...

confundo o peso do edredom com o seu braço
e dói sempre.

não escutei, horas atrás, o seu pedido de demora
desculpa, dei atenção às outras letras
é egoísta essa lembrança
dói mais.

tenho memórias que me causam contrações
e contrações que me causam enjôos
tenho enjôos que me causam reflexões
e em nenhuma delas . . . . . . . . . . . . paz

tenho dores que me causam ausências
e ausências incrustadas, já sem dores                                                                              

Impossível saber como viemos parar tão longe
Impossível torcer-se até certo ponto que seja
E contorcer-se em busca de um miolo...
Aonde o broto?
Que coisa é essa de fim?
tudo parece efeito

e se essa mão escorregasse?
e se alguém viesse todas as manhãs para regar as flores?

cansa
desespera
nada

- é lindo o que você faz, arrepia de longe a vida, mas corta de cruel.
Pode procurar no dicionário... Cru el.

- Eu amo você         ?      

eu amo você – todas minúsculas, com certeza.
E a interrogação. Uns segundos atrasada.
Deve ser mentira. Não devo amar coisíssima nenhuma.


Afinal, que coisa é essa amar?
-

"sabe, eu penso em você todo dia há pelo menos 1095 dias".

mil
e
noventa
e
cinco
dias

não é brincadeira, não.

aliás, claro que é. 

com toda certeza

uma brincadeira dessas favoritas e silenciosas
como ter amigo imaginário de duas cabeças, lugar secreto onde tudo acontece, um botão que faz chover...

agora eu escrevo lento
e penso e leio.

antes eu lia que pensava
antes de não sei quando,

tenho a paleta borrada

- há mar . . .

***

04/03/2012

DAN Ç

contra o medo

no sentido mais desafiador da palavra

o grito – não necessariamente uma história, não necessariamente um estudo

diga: arriscando arriscar arriscarei – escolher o grito, sublinhar o grito, expressar o grito ao vivo, soltar a mandíbula, a língua, liberar a passagem do ar, entornar litros e litros d’água na garganta seca, amar a água

amar a


amar
***

22/02/2012

retrospectiva em perda

passei o ano inteiro em pano, papel e tinta
– vai aprender a ser rio
a ser pedra rolada, coisa que não tem
outra coisa se não o botão

.

.

.

me arrancaram o moinho

 o cordão de pedras

o anel de três voltas

o casaco cinza

uma lágrima preta dessas de pendurar na orelha
uma carteira cheia de burocracias
meias, calcinhas ...

a borboleta que eu levava no dedo

,voou levando o véu que me coloria o sorriso in vitro.

dois recolhimentos:

- aproximar as partes para amenizar impactos
- florescer com palavras


o som d
            a madeira

a textura d
                 o que é maciço
                 o trigo


falas retas –
a terra.

[que tipo de combinação tem que ocorrer
para eu ser isso que falta em mim?]

- descobrir a cegueira
- castigar a surdez
- água

a plena noção da água.



um coração morto

água água Água !

pacientar com folhas

alimentar o que é carnívoro

não sublimar tanto... E sempre...

dar corda às esquinas

regar as plantas.
afinal, qual é o seu problema? regue as plantas!

“ultimamente têm passado muitos anos”

as Cores.

dança que não é música
música que não é dança

an, dança!

trançar aos poucos


lamber o que for de lamber


morder quando for morrer

espanar-e-ventar-e-aguar

(é que é tanta coisa ... )


- a gente começa por onde?

grita


(estabanadamente?)

f o g o a f o r a m u n d o a d e n t r o
***

25/01/2012

amanoelcência

algumas coisas me incomodam,
formigas não . . ..

faço flor de qualquer rabisco
passarinho de qualquer sino

adoeço de certas paixões
e tenho febres

quando
perdôo a dor passa
eu respiro, o amor adormece

o vento some
e sou só saia
pra que ele tome
gosto pela aparecencia

se ele ensandece a lua
varro dum chuá o brilho dela
com nuvens que me são veias

emudeço de verdes e cego de azuis
gatos e crianças me arvorecem

aspiro o tilintar das folhas no chão

e tenho su-u-culência por laranjas e gritos

vejo fios de lã e me movo em carinhos
e pretendo ainda mergulhar de boca aberta numa poça de tinta .

                     *

eu acredito mais no que pulsa
do que no que pisca
***

16/01/2012

Eros

( I )

desintegra, Amor
murcha

do contrário nunca vais passar nesse mínimo buraco.
só quando o que sobrar for apenas semente
haverá espaço

murcha, Amor
murcha logo

olha: pra lá da fechadura o mundo vaza colorido das nossas entranhas

e a gente já não liga pra pombos, aranhas, bichos grandes

interessa o que é miúdo e recheia

interessa carinho no próprio nervo

interessa ser vapor

movi mento

quanto do que eu tenho pra dar você-s pretende-m receber?
é muita estrela pro caminho o meu grito?

...

agora escrevo A-mor. com muita lindeza.
é pessoa muitíssimo respeitada na minha casa
e não entendo displicência com seu nome,
põe letra e coisa no mesmo umbigo que é pra não confundir quem passa
–  que confusão com Amor no meio é dessas pra vida...



( II )

tem sempre muito Ar dentro de mim
e agora Vermelho

 é vulcanicidade ou vulcanismo ?
uns movimentos muito soltos
uma coisa de cabeça pesada
... mais solto o possível
e libera o não-sei-o-quê na corrente sanguínea
e respira colorido – inspira doce, expira fresco


mas, é vulcanicidade ou vulcanismo . . . ?


às vezes acho que tem gente aqui atrás
às vezes é só uma mosca...
às vezes movipenso em capotagens
me salvo porque nunca são pressentimentos
só escorregamentos sombrios


mas . . .


é o vulcão antes
trepidar da terra
mosca de uma asa só
aquele espasmo
aquela coisa de madrugada
ar demais pra pouco peito


é antes . . .


mata a tapa o tremilique
suspende o zum-zum da mosca suja
insulta .


é tudo rima besta, mas não fácil
é tudo vontade da palavra certa
                       
                        e da brisa exata . . .

palavra cert a onde há mar


(lugar exato de errar ainda é lugar legítimo - ponto)
***



12/01/2012

"Nas encruzilhadas como passagem, na coragem da travessia à teia, na 
tensão de lugar e espaço, o véu traz o limiar, um horizonte que se abre no 
habitar do homem, na escuta do que se é, terra.  A travessia na experienciação
poética do tempo mostra o vigorar mítico; é o manifestar-se do real, a saber, 
mundo, e não apenas uma transitoriedade. A obra enquanto travessia do ser 
tece na trama a questão, por criar no próprio o caminho da linguagem, o 
questionar-se. " (CALFA, 2010)

05/01/2012

ímpeto de paixão

105 ímpeto de paixão (EUK)

Ímpeto de paixão é a denominação dada à combinação de qualidades de esforço em relação a Peso, Fluência e Tempo. A Fluência substitui Espaço. "Não se esboça nenhuma atitude referente à forma, ou seja, quando se acham adormecidas as qualidades espaciais, as ações corporais se tornam particularmente expressivas das emoções dos sentimentos." (LABAN, 1978, p.130)

(em: "Dicionário Laban" - Lenira Rengel)
***