06/12/2011

Isto é um texto confessional

Ele não vai ter fim...
Iniciado em setembro de 2011 -

(...)

como se explica o que era?

- Eu não gosto mais de listas de aniversário, não insiste.

Próxima pergunta: um grito.
tudo em você me irrita, eu sei disso.

...e todas as minhas rugas vão
ter o formato da tristeza que
isso me dá e dos soluços que
eu engoli

sou educada de amores e dores
e vejo as minhas olheiras quadruplicarem no primeiro semestre dos anos
é só alguém me arrebatar que eu vou.
Infinito . . .

até a última gota de fita colorida
até a porta da primavera
em mim, só não some o que eu carrego
(do que já ficou estabelecido e dos objetos)
todo o resto eu esqueço, perco

ando esquecendo... ando perdendo...

é que ir não tem fim
e as coisas pesam t a a a n t o

sonho ser o cruzamento das cartas 9, 1 e 22 do tarô
mas isso é hoje,
amanhã talvez sonhe um desmaio

28/11/2011

tempo qual?

Manga que cansa de dar pano
Inspira o tempo e expira fome

Sem nome
Sem cheiro
Sem qualquer cor de corpo, Fome.

De andança e laranja
Fome de não querer entender
De dar o braço a torcer ao vento
Deixar que ele torne as coisas Íntimas...

Existe aqui – e por isso ali
e acolá – um dilaceramento
Invisível, uma fresta
Que liga isso, àquilo
Num caminho certeiro
Traçado às cegas



Instante sem tempo



mini-minutos são
no fundo do buraco
o mesmo que horas largas
***

26/11/2011

perfil (fotopoema - roteiro coreográfico)

Menina sentada.
Sopra com a boca um vento fino desenhando o perfil do Amor no ar:

- fantástico perfil.

- que perfil? tem perfil o Amor?

Depois de riscado o quadro ela beija o Amor indefinido, lambe ele, quer engolir de amor o Amor

se despede com calma, plácida...

o Amor a violenta

se desmancha em mancha

impregna.



[silêncio sem rima na cena; pro fim: o som da respiração e cílios inquietos]
***

03/10/2011

dia-não

eu não morreria amanhã.

se me aparecesse um pássaro negro de asas lindas eu não ia, se visse por trás de alguma árvore descoberta uma capa, não me envolvia
não botava o pescoço em nenhuma lâmina por arrepio
e também não riria a toa da brisa
a engolia.

eu não morreria amanhã e não usaria vermelho.
que segunda feira não é dia de querer brincadeira.

saber que a rosa tem espinhos
não defini os espinhos da rosa

conhecer as 24 horas do dia
não preenche os minutos

o natal é daqui a dois meses
não adianta grita-aaar!

(me obrigar a contar os passos
só faz eu me atrasar...)

Levantar às 9:00 e almoçar a Rosa inteira - lamber o fundo do miolo e as beiras, mastigar as folhas e cuspir sementes, palitar com os espinhos os dentes.

o vento sopra e pronto: outro buraco negro

Tossir hoje essas palavras bobas.
Fingir que movo o mundo enquanto chovo.


(eu não morreria amanhã nem pelos buracos negros)
***

08/09/2011

Das Voltas - Revisitado

A pesquisa coreográfica se estruturou a partir da dinâmica relação entre tempo e espaço. Consideramos os espaços interno e externo que estabelecem entre si uma relação de interdependência. Assim, apontamos a idéia de que os movimentos - aqui em sentido bem amplo, significando desde movimentos de dança até as tendências e movimentos sociais- que ocorrem nesses espaços são responsáveis pela transformação do homem e do meio social. Esses movimentos que são metonimicamente parte do todo do Universo têm força capaz de assegurar as mudanças.
Partimos da continuidade do tempo e do caráter transformador da relação homem/ espaço para mostrar através da linguagem da dança a necessidade expressiva do corpo humano.
Do jogo de palavras: dança > mudança > volta >revolta > revolução; fizemos no trabalho um jogo de gestos com essas significações que trazem como análise última o tempo como um ciclo de voltas que (se) transformam e mudam cada vez que se re-voltam.
***

http://www.youtube.com/watch?v=JgzvX0kAnqw

29/08/2011

Confraria dos Esquecidos

eu esqueci.
esqueci pra sempre
esqueci as coisas todas pra trás
como se esquecem as mentiras

perdi a conta dos dias
perdi o dia da feira
perdi a saída da estrada

eu esqueci
o mundo n’algum canto
eu esqueci do que é feito o pranto

esqueci de abrir a porta e depois
esqueci a mesma porta escancarada
eu demorei a vida, pela própria vida
pra passar despercebido...

não sigam o que eu digo
não me dêem ouvidos, braços, bocas partidas em grito
me esqueçam todos (que eu tenho a todos em mim só porque esquecidos)

...

– Eu esqueço o cigarro aceso e furo a camiseta

– Eu esqueço as chaves, o casaco, os brincos no banco de trás...

– Eu lembro dela que é pra não esquecer de mim.

– Eu esqueço as estrelas pra lá e não volto nunca atrás.

– Eu pisco, a todo momento, que é pra não me esquecerem.

– Eu esqueço de mim pela poesia assimilada

– Eu não lembro nem de esquecer, é outra coisa o viver

– Eu esqueço de dizer e digo
que esqueci por não ouvir

– Eu esqueço por esquecer...
***

www.youtube.com/watch?v=GjHbnPPyhR4&feature=related

25/08/2011

lugar um

eu moro dentro de uma caixa florida
com uma janela que dá para cima
e o vento já não pede licença
para entrar – tanto acaricia
quanto esburaca

eu tô uns degraus pra lá dessa realidade
e acho que arde menos sentir saudade

se tivesse uma varinha pintaria agora um
balanço e apagaria as luzes dos postes
mas tenho que recuperar a trajetória...

eu moro dentro de uma caixa florida que vive
com uma das abas aberta e sou repleta de envelopes
e insetos – os que voam, voam e os que rastejam
são invisíveis

cruzo com uma caixa de lápis de cor
e estamos alojadas numa encruzilhada –
para a direita meu eu-ascendente à vida
do lado esquerdo a voz exasperada da morte,
a minha sorte vai escrita e adivinhada ao dia seguinte

a frente o silêncio



se viro de costas
ecos mais ensurdecedores
que os barulhos –

ali pingam amores e estouram
gotas d’água fresca e cheirosa

mais ali,

.

.

.

dentro do espelho
paixões roxas e beterrabas amarradas

e porque são quatro as linhas da estrada
perco o dia aqui mesmo, nesse ir e vir
de gente bamba, meio acreditando no que
diz a frente, meio suspirando relances

um pouco enfiando agulhas finas
nas doenças do mundo, um pouco
lambendo feridas profundas

eu moro numa encruzilhada colorida
aqui o frio é quente e a boca florida
e não se duvida nem da verdade nem da mentira

ninguém me empurra para trás
porque é meu
o buraco
e só
(...)

***

19/08/2011

sete versos mais um

(já) acho graça de vocês
aí invisíveis e em-pilhados
me espalhando arrepio em ondas
me afetando sei lá de onde sei lá de quando
sei lá porque o tempo não cansa da gente
ao me ver ensacar nuvens para viagem
malabarista de pratos fantasmas
bamba em foco lunar - Lá
***

ler sem respirar.

15/08/2011

de dentro pra fora

muda de árvore repousada
em pedra, natureza em rio manso...
com borboletas me indagando
***

31/07/2011

tréplica

- rapadura que é doce, mas não é mole
solta açúcar sem precisar de mordida.

- [...] e eu volto quando for
só pra dizer que volto de
novo quando você achar
que eu saí, porque aqui
onde a gente parou da
pra ver de longe que
não acabou, e ainda
que você me diga vou
de novo e vou e vou,
eu volto – passem quantos
ventos quiserem passar –
pra te trazer um sopro
qualquer que te faça ir
sem nenhum medo de
deixar.

(volto sem nem sair do lugar)
***

24/07/2011

da ambiguidade das coisas

Saudade esburaca
Maltrata a carne fraca
Amassa o peito, papel de pão
Não pulsa, arde

- nas veias, na cara, na sola do pé...
não dá e passa, ultrapassa
as horas contadas, reina à
revelia do tempo correndo -

Cada vez mais pra dentro
Até morrer de grito infinito
ou suspiro comprido . . .

a saudade é um som ambíguo
***

17/07/2011

Preciosa e o Ar

(García Lorca)

Na lua de pergaminho
Preciosa tocando segue
por um anfíbio caminho
de cristais e louros verdes.
O silêncio sem estrelas,
da batucada a esconder-se,
cai onde o mar bate e canta
a noite cheia de peixes.
Na serra os carabineiros
pelos cumes adormecem
vigiando as brancas torres
onde vivem os ingleses.
E os ciganos da água
para distrair-se se erguem,
gazebos caracóis
e ramos de pinho verde.
-

Na lua de pergaminho
Preciosa tocando segue.
Ao vê-la se ergueu o vento,
vento que nunca adormece.
E São Cristóvão desnudo,
cheio de línguas celestes,
olha a menina tocando
uma doce gaita ausente.

Menina, deixa que eu erga
teu vestido para ver-te.
Abre em meus dedos antigos
a rosa azul de teu ventre.

Preciosa atira o pandeiro
e dispara sem deter-se.
Vento-homenzarrão persegue-a
com uma espada ardente.

Franze seu rumor o mar.
Olivais empalidecem.
Cantam as flautas de umbria
e o liso gongo da neve.

Preciosa, corre, Preciosa,
que te pega o vento verde!
Preciosa, corre, Preciosa!
Olha por onde vem ele!
Sátiro de estrelas baixas
com as línguas reluzentes.
-

Preciosa adentra, de medo
cheia, a casa que pertence,
mais acima dos pinheiros,
ao que é cônsul dos ingleses.

Assustados pelos gritos
três soldados aparecem,
as negras capas cingidas
e nas testas os barretes.

O inglês dá à cigana
um copo de morno leite,
mais uma taça de gim
que Preciosa não bebe.

E enquanto conta, chorando.
a aventura àquela gente,
pelas telhas de piçarra,
bravo, o vento a morder segue.
***

12/07/2011

o quadro

Na parede, em frente ao sofá menor, havia uma marca de quadro passada. Emoldurado em madeira, eu acho. Mas o que dizia esse texto que é agora um quadrado vago?

Sei que tinham pipas. Pipas e casinhas coloridas. Que postas como foram, bem juntas, pareciam uma caixa de lápis de cor... Três pipas com três crianças. E ainda quatro crianças sem pipas. Com e sem camisa, de usar calça curta e laço de fita:

os sem pipas são dois, são meninos e são bestas
mordem o próprio nariz sem perceber
- a gente não rola na xepa!

enquanto na calçada dois gatos assistem sentados
já sabidos da tortura – e da fuga
ao plano dos dois malvados

- vamos juntos, como quem não quer nada, assim se achegando de leve, como se deve, e pegamos os bichanos pelo rabo! Depois rodamos, rodamos, rodamos, até eles gritarem: quiabo!

- ralamos pelo ralo!

Fora tudo isso, duas meninas (uma muito comprida e a de laço de fita), e cada uma têm nas mãos um canudo e um copo com água e sabão para as bolinhas; e só por festa andam espalhando que aquele que, batendo como se batem as claras de ovo em neve, conseguir transformar o líquido transparente numa coisa azul, ganha um beijo na testa e uma bala de alcaçuz...
***

09/07/2011

diamantes, espinhos e flores

Tenho uma cicatriz de diamantes
No tamanho do dedo indicador, mais ou menos
Estirada bem no tendão de Aquiles

E ela sozinha conta uma história
Cheia de meios inícios e longos fins

Ardem cintilantes as pedras quando
Expostas ao sopro, ao vento, ao corpo
Ígneas vaidosas

Brilham na medida em que se fecha
Sobre elas minha pele em despedida

Mas no dia que sarar a ferida
E secar a volta dela em caminho
Os diamantes passam a ser protetores

(como espinhos e flores)
***

27/06/2011

Cinco Sentidos

O som...

As plumas...

O doce do mel, o melado não.

O som
das nuvens

O tom
dos cravos

A quentura
da luz

As plumas...

O tempo.

O som chama
as voltas:

O vento
***

giz de cera laranja pro fundo,
canetinha roxa pras palavras.

22/06/2011

da Estamira

"Sabia que tudo o que
é imaginário existe
e é e tem?

Pois é..."
***

atrasada, claro.

(OBS: queijo, feliz aniversariô. beijo no nariz!)

05/06/2011

noite cinco

te procuro em territórios falidos

antigos caminhos
velhas palavras
céus perdidos

não adianta, não te encontro
vives alheio ao meu plano

nado nado nado



e afundo.

querendo muito (ou por
não querer mais nada) me
afogo em devaneios de
respirar tanta água...

aí incho, me aperto, te esbarro
em corredores imaginários
pauso o cenário para os dias
sem eixo, te guardo inteiro
raiado em memória, embalo
tudo em letras e longas histórias
o levo em voltas pelo meu coração

eu autorizo a confusão
não corrijo deslizes
não determino limites

voas em mim agitando-me o peito
congelado, deitas aqui secretamente
e diz-me baixo “não te largo”.

me deixo enfeitiçar
por mentiras líricas
não sei fazer de outro jeito...
invento as dores
dou asas aos invisíveis amores
mergulho em escatologias
pairo em adivinhados vendavais...

acordo muda e cega e santa.
sem calores, sem resquícios de
noturnos rubores, amanheço fria
folha em branco prum novo dia
***

04/06/2011

muito vento e nenhum dedo d'água

I

nós que não estamos aonde gostaríamos de estar
vamos nos mexer só quando alguém vier nos buscar?
a questão é sempre simples, embora não transpareça

se eu começar a me mexer nessa direção não vou
mesmo querer parar, mas nada de discos voadores
e o vento refresca mas não leva embora nada
além da folha de sempre...

cambeiam as palavras na mente
dissolvem-se no tempo seco as imagens;
de fora: aonde leve a entrada da próxima passagem

II

Nós que não estamos aonde gostaríamos de estar nos enfrentamos pelo
nosso próprio lugar. Somos coisa demais existindo no mesmo espaço...
Não vale saber querer e aparecer sem ser, assim não se alcança a tempo o tal
lugar (?)

(um cansaço mais que fundo e faíscas de desejos já crispados)

- Lá vou eu.
- Eu?
- Você.
***

30/05/2011

Sonhando um sono bonito

anda me faltando o ar
e me sobrando o grito
um bafo choroso me
esquenta e me derrama
– graças ao vento frio –
um arrepio longilíneo
não respondo a nada
que não seja só impulso
nervoso...
não me mexo, só chovo.
-

sequei aqui mesmo
depois de uns minutos
(ou dias?)
levantei ainda fria...
uma mensagem da lua
fina, um sorriso do
gato torto, um cobertor,
um gesto redentor
uns passos fracos...
estendida em longo cansaço
-

aquela coisa de fim do
mês, aquela história de
História cíclica, aquela
vista embaçada de sempre
aquele desencontro insistente

(dormi por baixo de um pano
vermelho e quente, cintilei feito
pedra bonita em mina e sonhei
com uma primavera toooda florida)

cheguei hoje emburrada ao mesmo
lugar de sempre mas avistei a roseira
podada (ajeitada não pelada) e
pintando-se em botões gorduchos...
a chuva levou embora o susto.
***

25/05/2011

00:47 (e ponto)

tá tudo muito descompassado entre a gente
tenho um buraco sem fundo pra preencher
e pouquíssima disposição pra fazer

eu não te quero aí de sombra
me babando e espiando e lambendo
qualquer poeira do meu tempo

não lembro de onde a gente veio
não lembro por onde a gente passou

fotos ainda sem cor
fotos de transbordar amor
fotos de personagens distantes...
é agora o instante!

mas pra agora você só tem essas
mesmas mesmíssimas perguntas

todas vindas de fora - interrogações toscas;
e as horas e as horas e as horas?

me aniquila esse tormento
me embrutece toda essa perseguição

nada no cheiro do vento me lembra
a tua visão...

um chove e não molha
de sentimentos ruins

pesa o mundo numa
ausência sem fim...
***

24/05/2011

jogo da verdade

era uma vez uma flor vaidosa
despetalou...
anda agora ou nua ou feia
e alguma coisa prosa
***


para o espelho - http://www.youtube.com/watch?v=o_amtm1Tq8A
para mim - http://www.youtube.com/watch?v=k7AuuweZ1Pw

21/04/2011

Ostra feliz não faz pérola

Ostras são moluscos, animais sem esqueleto, macias, que são as delícias dos gastrônomos. Podem ser comidas cruas, com pingos de limão, com arroz, paellas, sopas. Sem defesas – são animais mansos – seriam uma presa fácil dos predadores. Para que isso não acontecesse a sua sabedoria as ensinou a fazer casas, conchas duras, dentro das quais vivem. Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas saía uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário. Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste. As ostra felizes se riam dela e diziam: “Ela não sai da sua depressão...” Não era depressão. Era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro da sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor. O seu corpo sabia que, para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de sua aspereza, arestas e pontas, bastava envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda. Assim, enquanto cantava seu canto triste, o seu corpo fazia o seu trabalho – por causa da dor que o grão de areia lhe causava. Um dia passou por ali um pescador com o seu barco. Lançou a sua rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-as para a sua casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras de repente seus dentes bateram numa objeto duro que estava dentro da ostra. Ele tomou-o em suas mãos e deu uma gargalhada de felicidade: era uma pérola, uma linda pérola. Apenas a ostra sofredora fizera uma pérola. Ele tomou a pérola e deu-a de presente para a sua esposa. Ela ficou muito feliz...
***

em Quarto de Badulaques LXXV
(www.rubemalves.com.br)

09/04/2011

sobre ver

você me parece tão longe
que a dor se esconde
muito quieta, atrás das
cores deixadas para trás
às pinceladas ventadas
(borradas, esbarradas, interferidas
qualquer coisa que não concluídas)

mas se algum objeto voar de
cima de uma das prateleiras
se eu não perder seu olhar
pr’alguma estrela
(se eu olhar, finalmente)

vou me ver de longe acenando
à cena, vou ver flutuarem
palavras amenas saídas das
bolhas de sabão que não
passarão de minúsculas gotas...

quase-água-nenhuma que só mancha
o chão do beijo que dá nele pra estourar
(poc)

eu vou acreditar no que você contar
mas não posso acreditar olhando...
(olhar é acreditar demais)
***

04/04/2011

1956

abandonada à gravidade
e sufocada de susto,
o fundo do buraco
é bem mais embaixo.

um nó rouco na garganta
soluçoselágrimas
nenhuma força para amar
sem esperança...

mas,
quem éramos nós há dez anos atrás?
e ela há vinte, trinta ou mais?
... Aonde o atrás nos traz?
***


01/04/2011

dia desses

As pessoas são mesmo estranhas vistas de fora. Mas há de se acreditar que dentro delas existe um motivo. Um motivo para andar sem nunca parar, ou para 'ensozinhar-se' numa arquibancada abandonada às 16:00 horas da tarde... Esse com a bolsa de carteiro preta e nenhum fio de cabelo: já passou, agora voltou e parou encostado no poste. Piscou os dois olhos pro nada beeeem devagar, olhou pra mim e pensou: “e essa menina sentada aí fingindo que lê, será que se perdeu?” – o olhar foi bem mais curto que o pensamento. Agora ele seguiu riscando o dedo na parede cor de telha encardida. Esse helicóptero militar impertinente que sobrevoa a minha bolha tem um motivo – que não é me irritar – mas que de fora não se vê.

(de fora não se vê nada muito além de uma sólida carcaça ou de um manto enfeitado em purpurina e flores. Até ocorrem variações, mas o que eu quero dizer é que o visível não passa de uma pontinha do mistério – considerando que há mistério.)

Agora que eu andei uns 97 passos pra frente e resolvi sentar no banco de outra quadra, eu sou o helicóptero – muito embora ele ainda exista aqui em cima me perturbando. Têm um casal e um menino de blusa amarela ali do outro lado. Eu acho que a blusa é amarela. Não posso olhar se não entrego o jogo.

Só escutei agora as vozes. Não sei também de que boca vem cada palavra. Na verdade não sei quais são as palavras. Agora riram. E o menino andando de skate fez UUuuLL. É, dois meninos e dois skates. Uns sons de pássaros que eu não reconheço (mas eu não reconheço mesmo sons de pássaros...), a roda do skate no chão grosso da quadra, ainda o helicóptero, “mas só tem existência as coisas nomeadas?”, foi a pergunta da professora de Filosofia e Estética, na última aula.

- É o que eu queria saber!

Aula de F-I-L-O-S-O-F-I-A.

Fiquei sem resposta.
***

28/03/2011

do tempo parado II

Andava pela casa com a caneta perfeitamente encaixada na mão. A postos para súbitas inspirações. Mesmo quando tinha a cabeça, o peito e todo o resto mais vazios que o último trem da estação, não descansava nunca a mão. Na falta da caneta rodeava a unha do polegar com o dedo indicador, depois ao contrário, até estar tão enrolada entre mindinhos e anelares que esquecia-se do tormento que lhe causava aquele tipo de esvaziamento. Vinha da nuca, o peso do mundo. E aquela necessidade muito grande de existir na hora errada. A respiração fraca, os braços mortos de cansaço, o peito roxo das tantas badaladas do relógio, os olhos muito perdidos num mar cheio de maré bem calma... Toda ela em banho-maria. É como sonhava. Uma banheira cheirosa, uma música gostosa... acordava. Nada disso rende história. Voltava a pesar a cabeça de abóbora. Se não escrevia, também não lia. Ria pouco, chorava oco e não sentia. Que na falta de todas as suas utilidades, sempre lhe restou ao resgate, agradar-se com os próprios gracejos. Mas, por mais uma noite, nada de nada lhe ocorria. Quando parada, parecia mesmo capaz de sustentar aquela posição para sempre; e se botava-se a dar passos saltava do sofá para ir sumir na feira, e logo estava na padaria ou comprando canetas em alguma papelaria... Andava desconhecida por ruas que só são bonitas quando se está perdido, e aquelas tarefas cotidianas, das mais simples de se cumprir, dissolviam-se sempre em mais passos. Comer: depois. Cortar o cabelo: depois. Fazer compras: beeem depois. Esbarrava num forjado cansaço. Voltava trágica ao sofá. Como se não tivesse saído de lá. Como se nunca tivesse começado a viver. As voltas que dera, até então, soavam alto como a materialização do que é vão.

Fora isso, uma vontade constante de fazer xixi.
Que era mesmo a única coisa que sentia.
Vontade a todo momento de fazer xixi.
E a caneta pesando na mão...
-

[do som]

Where you invest your love/ You invest your life
O sol se pôs/ Depois nasceu/ E nada aconteceu
O sol.../ Há de brilhar mais uma vez...
-

Saltou louca do sofá por um pedaço de chocolate.
***

21/03/2011

O corpo tem suas razões

Nosso corpo somos nós. É nossa única realidade perceptível. Não se opõe à nossa inteligência, sentimentos, alma. Ele os inclui e dá-lhes abrigo. Por isso tomar consciência do próprio corpo é ter acesso ao ser inteiro… Pois corpo e espírito, psíquico e físico e até força e fraqueza, representam não a dualidade do ser, mas a unidade.

(Thereze Bertherat)
***

01/03/2011

A Margarida

Ainda que insista a paisagem
em transbordar borboletas de cor
há uma Margarida à flor da
pétala distante desse fervor

Tendo sofrido do vento e
sonhado estrelas desajeitadas
termina a estação indiferente
à maioria dos bichos com asas

Já cansada, suspira fundo
e dilacerando a primavera
entrega de presente à noite
o perfume de sua espera:

Um cheiro lento e doce que induz a fantasia
como quem diz a toda a gente que persiste a poesia.
***

http://www.youtube.com/watch?v=g55S8vi-AuY

23/02/2011

noite qual?

(...) vai ver era mesmo
o peito partido o que
eu queria, resta ainda
trabalho: resconstruí-lo

e se não fosse isso, seria um
isso-tronxo de qualquer jeito.

os tempos não se respeitavam
entrecortavam-se os ritmos
(ti-c - ta-c - ei!)

faiscavam oscilantes as meninas
que dançavam muito muito enlouquecidas...

me empurraram à vista a Varanda
e se eu respirasse mais vez e meia
perdia isso na asa de alguma borboleta
e dava a história ali mesmo por continuada . . .

                                                                             (pulei)

***

http://www.youtube.com/watch?v=ZKUzNF21n9w

07/02/2011

a varanda

eu consigo entender por que
é a sua parte favorita da casa.
(é a minha)

tem céu sempre bonito
vento sempre batendo
cantoria de pássaros que agrada
ou samba no vizinho, se for domingo

tem rede pra balançar depois do almoço
tem cheiro de renovação, a varanda
ruído de campo
coisa de admirar...

só hoje, olhando aqui de
longe é que eu percebi
um quadro inteiro:

uma lua fina, toda elegante
num foco deslumbrante
mais aquela estrela que
brilha horrores, fiel escudeira

e verde...
sempre muito verde.
bonito o verde visto da varanda...

uma cigarra cantando que não irrita
uns rugidos de cães que consagram a noite
umas distâncias que nem parecem tão distantes
umas vontades que nem soam tão fora de controle

nada de dores na varanda!
sem resquícios de fumaça
sem lamentações

coisa inteira
som, cor, aroma, estado de graça
notas redooooondas
tons fantasmas irreais

Universo intocado
silencioso
tentador...

coisa de gênio
(de gênio...)

bundinhas de vagalumes cintilantes
sinfonia discreta, natural
a que se ouve

uma exuberância sem fim
o mundo visto da varanda

[sem fim]
***

http://www.youtube.com/watch?v=xXP8Go83bhY

21/01/2011

[clic]

GATO: Perdeu algo?

ALICE: Oh, não não! Isto é, estava pensando...

GATO: Faz muito bem pensar.

ALICE: Obrigada, mas eu só queria saber que caminho tomar.

GATO: Isso depende do lugar onde você quer ir.

ALICE: Realmente, não importa, desde que eu...

GATO: Se é assim, não importa que caminho tomar.
***

[ ah . . . ]

ansiedade, em mim, é massacrante.
que só o que eu quero, agora, é morder morder morder morder pra sempre
a minha boca, até ter coragem de arrancar um pedaço e mastigar.
e suprimir isso que não me resolve a vida (isso o quê?) isso! que não tá aqui, não tá ali, não tá em lugar nenhum! arreganharam as cortinas do meu quarto, me encheram de encanto por flores e bichos voadores, mas cadê a porra do jardim?

o pior é que eu já me perdi...

que lugar é esse?
ei, quem é você?

...

vamos sonhar com,

...

põe pra tocar aquela,

                     aquela música ...

          (debruçou-se louca na janela, rimou fera-anjo-e-primavera, dançou na beira do espelho, mergulhou na foto da revista bacana, sonhou com ovelhas voadoras, contou estrelas protetoras, não achou em lugar algum as pérolas (chorou por elas), gritou de raiva por sentir ódio, esmagou as flores roxas em protesto aos risos dos caras-enlatadas, escalou quantas montanhas quis, por todos os dias que pôde sem cansar de andar e sem lembrar-se de respirar. deitou, por fim, sabe-se lá aonde, mas logo, logo era feita de algodão... sem dores, sem pulso, sem vão... sem ossos, sem o peso do mundo no pescoço, sem calor ou frio ou vontade de mastigar o próprio mindinho... algodão que não rima, não tem sina ou passo a dar pra próxima esquina... frouxo algodão... puro, frouxo e aconchegante algodão...)


- oi?

...é que a lua cheia continua tonteando os tonteáveis
e esse negócio de esperar resultados...

(me aniquilam, os meus silêncios e andam
me enjoando, as minhas interrogações.)

- ali, a esquina:

...

meu cordão arrebentou e eu tô com medo... é isso... o medo? vontade de ficar parada e de não terminar de escrever nunca pra não parecer a última e mais perdida pessoa do mundo? é isso, medo? eu tenho as sobrancelhas tristemente franzidas, o lábio por baixo dos dentes e as pernas cruzadas num perplexo descompasso... eu tenho medo? me serve de que o peito abafado?

...

meu cordão arrebentou.
até me assustou, mas amanhã
(que não é feriado)
vou andar por um calçadão feio mesmo
mas salva por tons agradáveis...
vou procurar um joalheiro que vai curar
o meu cordão e eu (porque amanhã é amanhã)
vou levantar azul e leve e com inúmeros cheiros
de campo a escorrer pela pele, vou virar para trás o pescoço
por escutar as margaridas que ventaram ali à noite.

vou esfregar os olhos gastos de sonhos
e escolher dois passos prum novo plano.
***

pelo dia 21:

“Quem brincava de princesa
  Acostumou na fantasia.”


(final de mês é triste...)

20/01/2011

A Carochinha

Eu vivo, a todo instante, catalogando respostas.

É como se tudo o que existe fosse colocado ali – exatamente ali – para me dizer que vá ou fique ou que, por isso mesmo, não duvide... E a música seguinte vem me dizer das coisas que os outros não dizem, e a forma da lua, a temperatura da rua, a quantidade de carros do lado de lá da calçada, as pobres violetas esfoladas na esquina, tudo o mais que não rima: são objetos para meu encontro, para os inúmeros porquês que eu vejo escorrer pelos cantos.

(não me valiam de coisa colorida)

vou longe deles por encanto
e as respostas não busco
conto.
***
 
 
http://www.youtube.com/watch?v=KePHLt_q0fg
 
booa noitê.

19/01/2011

(sem título)

ao mesmo tempo em que parece tudo andar
– pra frente mesmo, sem filosofar –
o que é vazio nisso tudo, sibila
me chamando pra fora do furacão

(o que é anterior ao vulcão desfoca
a luz que me esquenta agora...)

mas existe uma boca que
chama por dentro uns nomes
e se abre em suspiro sem direção
no escuro sem noite, no vão...

(matar a saudade chega a ser bom,
mas sentir saudade é tão mais real...)

- não sei do que fala a sedução,
eu rezo invencionices.

- condão.
***

05/01/2011

blá blá (blá)

eita! não é que o
coração ainda bate
pulsa...
covarde impulso, arde...

tarde demais me
expulsa do sonho
da noite quieta, da cama...
me ama na rua

na chuva, na felicidade
da roseira amanhã (ou
depois) à tarde, bate

pra ver, coração
com calma, as primeiras
rosas do verão.
***