um gato e meio perdido
três rosas queimadas
um novo plano
longas, as horas
as estradas
as pílulas de crítica, as listas
os passos para trás no futuro (não me lembro de já ter falado com o futuro...)
a clareza, o escuro, um fundo, os sons todos
outro pulo
nova gata insana
pensar na grana (!)
prazer, espinho. trouxe o vinho.
um porre escatológico
sete perdões
(de trocentos passos perdidos)
o colapso das minhas generalizações
uma briga com uma muda
uma Maya falante, um João sorridente
Clarice e os clics
Caetano.
a ilusão da alma, o segredo dos seus olhos, Parnassus, os famas, os cronópios e as esperanças, o cérebro e a mente (que bem mente...)
as noites, a varanda, os cantos da janela
mais uma prova
as pretensões de primavera
outro início e esse cara, agora: Bernoît (continuo até amanhã com isso...)
a poesia para escrever, espairecer e fingir que existo
a poesia para ler, comer e rabiscar que insisto
(ainda o apego:)
37 barquinhos, dois caderninhos, boas fotos laranjas:
uma luminária em forma de disco voador
um disco voador em forma de amor
Caio Fernando Abreu e as borboletas na cabeleira
a história da cosquinha
[Infra] McGregor me esfregando a vida do movimento na tela
Magritte
a Odalisca Andróide
muita água, pouca cisma
a inauguração da lista das dores bem-vindas:
***
31/12/2010
30/12/2010
(bang)
É difícil desde o início.
Porque se você deseja alguém que te leva para rodar à noite alheio à substancialidade, é porque em algum canto, talvez da mesma cidade, o desejado pede por outro passagem – que os encontros são todos matéria de desencontros anteriores –, não é novidade. E se vamos seguir nessa linha das vontades, logo entra no jogo alguém que pense pelo primeiro do bolo e pelo menos mais uns dois corações para dar liga ao engodo.
E se o umbigo é a seta do jogo, somos todos incapazes: vamos querer juntos ou o centro, ou os cantos e choraremos os mesmos prantos, pelas mesmas cores e imploraremos o vazio pelo belo-bem das flores, mas sugando-as a esmo (morrerão da própria primavera). Ressecadas, todas elas.
Precisamos nos derreter em próxima estação sem a necessidade da notícia, dando nota do que se tem pela vista... Assim, as coisas quase se encaixam – que não sou mesmo eu a pessoa com a resposta certa –, mas vocês percebem? Não vale a aposta, a medalha, nem a lição da derrota; que se cabe tanta história na nossa glória é porque as coisas existiram aos milhões numa específica-faísca-infinita de hora. E danem-se, então, as outras complicações, os manuais e convenções, os ritos, os desgostosos...
Me desculpe, você
Que veio me ver e não me encontrou
Me desculpe se chego, às vezes
Sem saber onde estou
Mas eu não ouço a largada...
Só vim pelas estrelas da calçada.
***
Porque se você deseja alguém que te leva para rodar à noite alheio à substancialidade, é porque em algum canto, talvez da mesma cidade, o desejado pede por outro passagem – que os encontros são todos matéria de desencontros anteriores –, não é novidade. E se vamos seguir nessa linha das vontades, logo entra no jogo alguém que pense pelo primeiro do bolo e pelo menos mais uns dois corações para dar liga ao engodo.
E se o umbigo é a seta do jogo, somos todos incapazes: vamos querer juntos ou o centro, ou os cantos e choraremos os mesmos prantos, pelas mesmas cores e imploraremos o vazio pelo belo-bem das flores, mas sugando-as a esmo (morrerão da própria primavera). Ressecadas, todas elas.
Precisamos nos derreter em próxima estação sem a necessidade da notícia, dando nota do que se tem pela vista... Assim, as coisas quase se encaixam – que não sou mesmo eu a pessoa com a resposta certa –, mas vocês percebem? Não vale a aposta, a medalha, nem a lição da derrota; que se cabe tanta história na nossa glória é porque as coisas existiram aos milhões numa específica-faísca-infinita de hora. E danem-se, então, as outras complicações, os manuais e convenções, os ritos, os desgostosos...
Me desculpe, você
Que veio me ver e não me encontrou
Me desculpe se chego, às vezes
Sem saber onde estou
Mas eu não ouço a largada...
Só vim pelas estrelas da calçada.
***
27/12/2010
Estudo Coreográfico - Night Time In The Backyard (1)
uma moça muito mole
e uma sombra de feitiço
na porta, na janela, na estrada
na floresta... (ninguém vê?)
e porque ela foi atrás
a sombra, imodesta
abriu as portas do jardim
em uma quase noturna seresta.
***
jogo pra dois.
e uma sombra de feitiço
na porta, na janela, na estrada
na floresta... (ninguém vê?)
e porque ela foi atrás
a sombra, imodesta
abriu as portas do jardim
em uma quase noturna seresta.
***
jogo pra dois.
25/12/2010
zzz . . .
Me deu agora
às seis horas
(como se eu não tivesse tido tempo pra isso antes do sono chegar)
um medo que
me arregalou os olhos
e emudeceu o peito.
Porque é bem quando
eu me acho nos eixos
e espalho a notícia da regalia
ao Universo, que tudo gira ao contrário
(o pior é que agora já é tarde demais pra dizer que eu entendi tudo errado...)
***
às seis horas
(como se eu não tivesse tido tempo pra isso antes do sono chegar)
um medo que
me arregalou os olhos
e emudeceu o peito.
Porque é bem quando
eu me acho nos eixos
e espalho a notícia da regalia
ao Universo, que tudo gira ao contrário
(o pior é que agora já é tarde demais pra dizer que eu entendi tudo errado...)
***
24/12/2010
Então é Natal?
Hoje, eu vi bem no meio do céu que se exibia num verão azul e embaçado, um aglomerado de nuvens cinzas. E parei para assistir como se assistem às coisas realmente impressionantes: que era tudo aquilo um imã, ou um raio sonoro inaudível aos caretas, uma massa flutuante de energia... Eu ia andando e olhando devagar para o alto e já me via escalando o vazio atéééé lá em cima.
O fluxo era energia de desejo. Ou melhor, o desejo era o que bulia. E quis ser matéria do instante, ponto de água no asfalto parado, na folha chovida, no nariz maltratado, no ombro da menina, nos lombos assados; quis encostar isso tudo que eu sou sem saber dar sentido, nessas coisas que são o sentido torto desse mundo vivido.
[Ia ser como tocar a eternidade, finalmente escorrer toda a vaidade, pingos duram instantes e só...]
- Ô menina! Vai ocupar a vaga o dia inteiro?
***
O fluxo era energia de desejo. Ou melhor, o desejo era o que bulia. E quis ser matéria do instante, ponto de água no asfalto parado, na folha chovida, no nariz maltratado, no ombro da menina, nos lombos assados; quis encostar isso tudo que eu sou sem saber dar sentido, nessas coisas que são o sentido torto desse mundo vivido.
[Ia ser como tocar a eternidade, finalmente escorrer toda a vaidade, pingos duram instantes e só...]
- Ô menina! Vai ocupar a vaga o dia inteiro?
***
23/12/2010
21/12/2010
oi, dia 21.
"Mas seu descompasso com o mundo chegava a ser cômico de tão grande: não conseguira acertar o passo com as coisas ao seu redor. Já tentara se pôr a par do mundo e tornara-se apenas engraçado: uma das pernas sempre curta demais. (...) E de repente sorriu para si própria com um sorriso amargo, mas que não era mau porque também ele era de sua condição. (Lóri se cansava muito porque ela não parava de ser.)"
***
(Clarice L. - "Uma aprendizagem...")
***
(Clarice L. - "Uma aprendizagem...")
dos inícios
eu acho que consigo as coisas
mas na verdade sonho com elas.
e ponho luzes, movimentos
preencho toda a música
(cada oito em seu tempo)
esquematizo os desenhos
assopro a poeira e afasto as cortinas
(mas isso é aqui bem pra dentro...)
e até dói isso de só
Começar
Começar
Começar
mas qual é mesmo
o próximo
passo?
depois invento e digo
que amanhã eu tento
mas chega o sol de novo
...e de novo
...e de novo
e eu aqui criando
princípios.
***
mas na verdade sonho com elas.
e ponho luzes, movimentos
preencho toda a música
(cada oito em seu tempo)
esquematizo os desenhos
assopro a poeira e afasto as cortinas
(mas isso é aqui bem pra dentro...)
e até dói isso de só
Começar
Começar
Começar
mas qual é mesmo
o próximo
passo?
depois invento e digo
que amanhã eu tento
mas chega o sol de novo
...e de novo
...e de novo
e eu aqui criando
princípios.
***
17/12/2010
Viver é oblíquo
(Rodrigo Rosa)
Viver é obliquo
Muito
A obliqüidade da vida
Viver é sem definição
Os grandes ramos espinhosos do desejo
Decepam, não furam
Cai o ser, acaba a vida
O desejo rasga
Mutila o eu quando desaba
Antes, constrói fortaleza
Edifica sonhos de areia
O vento do real vem
E é tudo pó
Mutila o eu o desejo
A obliqüidade da vida recortada
Pelos reveses, costurada pelo seguir
Ai, vida, não sabias queu era fraco?
O eu se desbarata
Parte em pedacitos trêmulos
Tolo eu, por que procuraste
mais do que lhe convinha?
O tempo que deixo ir (lhe faço despedida com um branco lenço)
Discorrendo grafos neste papel que coisa é.
É? Se é ou não, não se sabe
Mas, mesmo que fosse, inconcebível seria
A noite se vem esfriando
A lua acenou-me jactante às nuvens negras
Também são belas as nuvens negras, pena os homens as macularem.
***
linda, linda...
(em: www.cronopios.com.br)
Viver é obliquo
Muito
A obliqüidade da vida
Viver é sem definição
Os grandes ramos espinhosos do desejo
Decepam, não furam
Cai o ser, acaba a vida
O desejo rasga
Mutila o eu quando desaba
Antes, constrói fortaleza
Edifica sonhos de areia
O vento do real vem
E é tudo pó
Mutila o eu o desejo
A obliqüidade da vida recortada
Pelos reveses, costurada pelo seguir
Ai, vida, não sabias queu era fraco?
O eu se desbarata
Parte em pedacitos trêmulos
Tolo eu, por que procuraste
mais do que lhe convinha?
O tempo que deixo ir (lhe faço despedida com um branco lenço)
Discorrendo grafos neste papel que coisa é.
É? Se é ou não, não se sabe
Mas, mesmo que fosse, inconcebível seria
A noite se vem esfriando
A lua acenou-me jactante às nuvens negras
Também são belas as nuvens negras, pena os homens as macularem.
***
linda, linda...
(em: www.cronopios.com.br)
09/12/2010
do silêncio
coisas que importam...
uma faxina, um levantamento...
um tempo...
***
29/11/2010
um, dois...
Ok. Eu me aproveito da sua varanda, e aí?
Vai ficar agora, encostado, fingindo que não gosta de me ver aqui enfeitando a rede?
Vai emburrar de me ver desenrolar novelos no seu peito sabendo que eu venho pelo espaço vazio?
E sem essa de ficar me encarando, ao invés de me encostar – não faz mesmo o seu gênero –, encerra os lábios e dá os olhos por cansados, jurando que não me ataca com a boca fechada. Outro obstáculo: vencer as coisas não ditas.
(e como as procuro sem querer, e caio sempre nos braços mais mudos, sisudos e machucados que se tem notícia; eu que grito por gosto e sofro tanto em jogos de mímica, em física, matemática, meditação e tudo mais que exija um número escasso de palavras.)
- E a solução, cadê?
Mas eu não vim aqui pra dizer! (nem sabia que se buscava uma...) Eu vim respirar essas flores e olhar de olhos muito abertos o céu, vim pelo tempo exposto, por um peito roxo de ausências; eu vim porque o domingo daqui é lindo e dias assim são bem-vindos.
Não tem x, a questão, nenhum fio precisa ser cortado, continua lindo o gramado e os cantos distantes, os pássaros, a água gelada... (não embaça a história) é bem essa a nossa vitória.
***
Vai ficar agora, encostado, fingindo que não gosta de me ver aqui enfeitando a rede?
Vai emburrar de me ver desenrolar novelos no seu peito sabendo que eu venho pelo espaço vazio?
E sem essa de ficar me encarando, ao invés de me encostar – não faz mesmo o seu gênero –, encerra os lábios e dá os olhos por cansados, jurando que não me ataca com a boca fechada. Outro obstáculo: vencer as coisas não ditas.
(e como as procuro sem querer, e caio sempre nos braços mais mudos, sisudos e machucados que se tem notícia; eu que grito por gosto e sofro tanto em jogos de mímica, em física, matemática, meditação e tudo mais que exija um número escasso de palavras.)
- E a solução, cadê?
Mas eu não vim aqui pra dizer! (nem sabia que se buscava uma...) Eu vim respirar essas flores e olhar de olhos muito abertos o céu, vim pelo tempo exposto, por um peito roxo de ausências; eu vim porque o domingo daqui é lindo e dias assim são bem-vindos.
Não tem x, a questão, nenhum fio precisa ser cortado, continua lindo o gramado e os cantos distantes, os pássaros, a água gelada... (não embaça a história) é bem essa a nossa vitória.
***
27/11/2010
noite três
Eu queria dizer as coisas e descansar a mente, o peito, a cabeça no travesseiro, mas não acho uma palavra que me caiba agora. Que não é espera o que se passa, nem é mais primavera aqui da minha janela, não tem o derramar intenso da chuva (mas tem a fúria), e não tem o ardor do fogo (mas tem o vermelho), não tá escuro o mundo, e ainda não tá claro; eu ando me sentindo muito incomodada, longe das coisas, querendo o dia ao contrário e seguindo a bula, o protocolo, a linha da estrada – mas a minha cabeça voa na contramão buscando uma porrada.
***
***
26/11/2010
de fora pra dentro
eu grito inteira – até quando não
grito – e grita, agora, o universo
junto comigo: as cartas, os orixás
os guetos, em polvorosa eu e o mundo.
nada sossega a alma, nem os tiros, nem
os versos de cautela, nem o que é cela;
soltaram os cachorros e os malucos de
mil hospícios, não me entendo, não me
quero, não me busco; secou a roseira –
fritou do sol de terça – e sumiram as
pessoas das ruas, esvaiu-se em cinzas
a fogueira; esvaziou o interior, encheu a beira.
não tarda o sacolejo alcança o eixo
ou a enxurrada de cores inunda o tempo
(eu escutei que a culpa é minha?) e aí
os silêncios serão respeitados – como
são os torturados –, deixem que explodam
os ambientes e vulcanizem-se os dormentes
ardam em embriaguez de realidade, sofram,
sangrem as vaidades; destranquem os portões
por enfrentamento à batida, mas não olhe pela
janela que a moça tem outro beijando ela...
e eles não ligam se você sente medo ou frio
ou vazio ou se a vida é inteira uma porcaria
(ali qualquer onda funciona)
– é essa então a sua verdade? estar arrasado e ponto final?
não tem o meu aval essas dores, nem esse peito infestado de invasores
e se eu pintei a boca e saí exibindo vulcões particulares a embriagados
dormentes não foi simplesmente para ocupar o tempo, foi por engenho;
não é minha a culpa, não é sua; não é de falar as coisas que se vive
(é de calar? por favor, não me obriguem a continuar...)
[o machucado que poderia parar de sangrar
se você parasse de mexer, mas você não vai.]
nos traímos pelo bem oculto das paixões, pelas
páginas novas de verão, pela promessa pitoresca
dos dias que virão... e vamos acabar mesmo arruinados
das horas e gentes e cigarros, arranhados de gatos
arbustos e arames enferrujados e porque faz-se realmente
necessário um final, digo a vocês que cochilem: não sei de
onde isso veio, não vi por onde passei, mas pedem todas
as minhas coisas um [ponto] e se não funcionar desse jeito
há sempre o jeito contrário.
***
"A vida é bela e cruel, despida
tão desprevenida e exata que um
dia acaba ... (laia laia lalaiááá)."
grito – e grita, agora, o universo
junto comigo: as cartas, os orixás
os guetos, em polvorosa eu e o mundo.
nada sossega a alma, nem os tiros, nem
os versos de cautela, nem o que é cela;
soltaram os cachorros e os malucos de
mil hospícios, não me entendo, não me
quero, não me busco; secou a roseira –
fritou do sol de terça – e sumiram as
pessoas das ruas, esvaiu-se em cinzas
a fogueira; esvaziou o interior, encheu a beira.
não tarda o sacolejo alcança o eixo
ou a enxurrada de cores inunda o tempo
(eu escutei que a culpa é minha?) e aí
os silêncios serão respeitados – como
são os torturados –, deixem que explodam
os ambientes e vulcanizem-se os dormentes
ardam em embriaguez de realidade, sofram,
sangrem as vaidades; destranquem os portões
por enfrentamento à batida, mas não olhe pela
janela que a moça tem outro beijando ela...
e eles não ligam se você sente medo ou frio
ou vazio ou se a vida é inteira uma porcaria
(ali qualquer onda funciona)
– é essa então a sua verdade? estar arrasado e ponto final?
não tem o meu aval essas dores, nem esse peito infestado de invasores
e se eu pintei a boca e saí exibindo vulcões particulares a embriagados
dormentes não foi simplesmente para ocupar o tempo, foi por engenho;
não é minha a culpa, não é sua; não é de falar as coisas que se vive
(é de calar? por favor, não me obriguem a continuar...)
[o machucado que poderia parar de sangrar
se você parasse de mexer, mas você não vai.]
nos traímos pelo bem oculto das paixões, pelas
páginas novas de verão, pela promessa pitoresca
dos dias que virão... e vamos acabar mesmo arruinados
das horas e gentes e cigarros, arranhados de gatos
arbustos e arames enferrujados e porque faz-se realmente
necessário um final, digo a vocês que cochilem: não sei de
onde isso veio, não vi por onde passei, mas pedem todas
as minhas coisas um [ponto] e se não funcionar desse jeito
há sempre o jeito contrário.
***
"A vida é bela e cruel, despida
tão desprevenida e exata que um
dia acaba ... (laia laia lalaiááá)."
22/11/2010
noite dois
sabe esse choro que não é de alegria, nem tristeza, nem nada?
quando os olhos estão só
cansados e cheios de água
(ou a alma inundada)
quando a gente não faz questão
de luz e deixa a lágrima
escorrer tranquila e amiga
querendo secar devagar
sem soluço, sem gosto, sem cheiro
sem nada que atormente
quando o que importa é respirar
e deixar esvair-se o miolo
abrir
outra porta
e outra
e outra
e procurar as plantas semi-mortas
para pintá-las com cores antigas e
caçar borboletas pretas para liberta-las
...
***
quando os olhos estão só
cansados e cheios de água
(ou a alma inundada)
quando a gente não faz questão
de luz e deixa a lágrima
escorrer tranquila e amiga
querendo secar devagar
sem soluço, sem gosto, sem cheiro
sem nada que atormente
quando o que importa é respirar
e deixar esvair-se o miolo
abrir
outra porta
e outra
e outra
e procurar as plantas semi-mortas
para pintá-las com cores antigas e
caçar borboletas pretas para liberta-las
...
***
21/11/2010
tcha-rããã
sentou-se para descansar e em breve fazia de conta que ela era uma mulher azul porque o crepúsculo mais tarde talvez fosse azul, faz de conta que fiava com fios de ouro as sensações, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que dela não estava em silêncio alvíssimo escorrendo sangue escarlate, e que ela não estivesse pálida de morte mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz de conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse com o faz de conta verde-cintilante, faz de conta que amava e era amada , faz de conta que não precisava morrer de saudade, faz de conta que estava deitava na palma transparente da mão de Deus, não Lóri mas o seu nome secreto que ela por enquanto ainda não podia usufruir, faz de conta que vivia e não que estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, faz de conta que ela não ficava de braços caídos de perplexidade quando os fios de ouro que fiava se embaraçavam e ela não sabia desfazer o fino fio frio, faz de conta que ela era sábia bastante para desfazer os nós de corda de marinheiro que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua pois ela era lunar, faz de conta que ela fechasse os olhos os seres amados surgissem quando abrisse os olhos úmidos de gratidão, faz de conta que tudo o que tinha não era faz de conta, faz de conta que se descontraía o peito e uma luz douradíssima e leve a guiava por uma floresta de açudes mudos e de tranquilas mortalidades, faz de conta que ela não era lunar, faz de conta que ela não estava chorando por dentro
***
Clarice, né.
(Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres [ou o superior dos superiores])
tchau, dia 21.
***
Clarice, né.
(Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres [ou o superior dos superiores])
tchau, dia 21.
Porta-retrato
(Caio Fernando Abreu)
A unha batia contra o dente. Contatos assim: uma coisa definida chocando-se com outra definida também. E não só contatos, emoções, linguagens. Quase analfabeto de si mesmo, sem vocabulário suficiente para explicar-se sequer a um espelho. Não queria assim, esses turvos. Não queria assim, esses vagos. Sem nenhum humor. Sem nada que pulsasse mais forte que o frio cuidado com que desordenava-se, um gole disciplinado de vodca quando alguma corda do violino rebentava em plena sinfonia e, no meio do palco, impossível deter o acorde. Unicamente imagens assim lhe ocorriam, essa coisa das árvores, das gramáticas, das minas, dos concertos. Elegantemente, sempre.
http://www.4shared.com/get/4ajmoEBJ/Caio_Fernando_Abreu_-_Fragment.html
***
inaugurado o dia [21] das citações.
A unha batia contra o dente. Contatos assim: uma coisa definida chocando-se com outra definida também. E não só contatos, emoções, linguagens. Quase analfabeto de si mesmo, sem vocabulário suficiente para explicar-se sequer a um espelho. Não queria assim, esses turvos. Não queria assim, esses vagos. Sem nenhum humor. Sem nada que pulsasse mais forte que o frio cuidado com que desordenava-se, um gole disciplinado de vodca quando alguma corda do violino rebentava em plena sinfonia e, no meio do palco, impossível deter o acorde. Unicamente imagens assim lhe ocorriam, essa coisa das árvores, das gramáticas, das minas, dos concertos. Elegantemente, sempre.
http://www.4shared.com/get/4ajmoEBJ/Caio_Fernando_Abreu_-_Fragment.html
***
inaugurado o dia [21] das citações.
Odalisca Andróide
(Fausto Fawcett)
Eu estou sempre aqui, olhando pela janela. Não vejo arranhões no céu nem discos voadores. Os céus estão explorados mas vazios.
Existe um biombo de ossos perto daqui. Eu acho que estou meio sangrando.
Eu já sei, não precisa me dizer. Eu sou um fragmento gótico. Eu sou um castelo projetado. Eu sou um slide no meio do deserto. Eu sempre quis ser isso mesmo. Uma adolescente nua, que nunca viu discos voadores, e que acaba capturada por um trovador de fala cinematográfica. Eu sempre quis isso mesmo: armar hieróglifos com pedaços de tudo, restos de filmes, gestos de rua, gravações de rádio, fragmentos de tv.
Mas eu sei que os meus lábios são transmutação de alguma coisa planetária. Quando eu beijo eu improviso mundos molhados. Aciono gametas guardados. Eu sou a transmutação de alguma coisa eletrônica. Uma notícia de saturno esquecida, uma pulseira de temperaturas, um manequim mutilado, uma odalisca andróide que tinha uma grande dor, que improvisou com restos de cinema e com seu amor, um disco voador.
***
[eita...]
Eu estou sempre aqui, olhando pela janela. Não vejo arranhões no céu nem discos voadores. Os céus estão explorados mas vazios.
Existe um biombo de ossos perto daqui. Eu acho que estou meio sangrando.
Eu já sei, não precisa me dizer. Eu sou um fragmento gótico. Eu sou um castelo projetado. Eu sou um slide no meio do deserto. Eu sempre quis ser isso mesmo. Uma adolescente nua, que nunca viu discos voadores, e que acaba capturada por um trovador de fala cinematográfica. Eu sempre quis isso mesmo: armar hieróglifos com pedaços de tudo, restos de filmes, gestos de rua, gravações de rádio, fragmentos de tv.
Mas eu sei que os meus lábios são transmutação de alguma coisa planetária. Quando eu beijo eu improviso mundos molhados. Aciono gametas guardados. Eu sou a transmutação de alguma coisa eletrônica. Uma notícia de saturno esquecida, uma pulseira de temperaturas, um manequim mutilado, uma odalisca andróide que tinha uma grande dor, que improvisou com restos de cinema e com seu amor, um disco voador.
***
[eita...]
17/11/2010
Estudo Coreográfico – La Llorona (1)
Era doce o gosto dela feito
O fruto em primavera
Sonhava longe um par bonito
E todo coberto de cobre
Quando viu chegando do mar
Um tipo príncipe hispânico
Que lhe veio bem a calhar
Enfeitiçaram-se um do outro
E vieram desse encanto, duas bonitas
Crianças
Mas a ele não bastava nada
Que não fosse o mar como
Estrada
E ainda rezaram os deuses
Dias de muito tormento caso
O pai pretendesse levar oceano
A fora os rebentos
Apodreceu a bela, estragada pelo
Abandono, cegueta de ódio e vaidade
Vagava esbranquiçando a cidade
Amargurando aos olhos do tempo
(indiferença é pá de cal e sombra em qualquer tipo de sentimento)
Soterrada, perdida por constituição e
Agora abençoada de vento, deixou os
Filhos sangrarem rio abaixo...
(o universo tem dessas de revelar obscuridades por razões que só entendemos muito, mas muito mais tarde)
Salvou a América do esculaxo
Por pouco, mas algum tempo.
...
Não se deixe estremecer
Por seus gritos de mis hijos!
Cortou os punhos fervendo
Em paixão e humanidade
Se ela aparecer controla o espanto
Tem dó da moça, por caridade.
***
O fruto em primavera
Sonhava longe um par bonito
E todo coberto de cobre
Quando viu chegando do mar
Um tipo príncipe hispânico
Que lhe veio bem a calhar
Enfeitiçaram-se um do outro
E vieram desse encanto, duas bonitas
Crianças
Mas a ele não bastava nada
Que não fosse o mar como
Estrada
E ainda rezaram os deuses
Dias de muito tormento caso
O pai pretendesse levar oceano
A fora os rebentos
Apodreceu a bela, estragada pelo
Abandono, cegueta de ódio e vaidade
Vagava esbranquiçando a cidade
Amargurando aos olhos do tempo
(indiferença é pá de cal e sombra em qualquer tipo de sentimento)
Soterrada, perdida por constituição e
Agora abençoada de vento, deixou os
Filhos sangrarem rio abaixo...
(o universo tem dessas de revelar obscuridades por razões que só entendemos muito, mas muito mais tarde)
Salvou a América do esculaxo
Por pouco, mas algum tempo.
...
Não se deixe estremecer
Por seus gritos de mis hijos!
Cortou os punhos fervendo
Em paixão e humanidade
Se ela aparecer controla o espanto
Tem dó da moça, por caridade.
***
13/11/2010
Título para reflexão
O meu maior pecado é mesmo essa bruta contradição.
(Do início:)
A dialética do perdão: eu e eu (no lugar de todos ou de algum de vocês), aí me contorço o quanto for, mas resolvo os ventos e sigo o movimento; e como boa pecadora, me dou ao contrário do que padeço [o passo não é calculável, não é fácil e é só o começo]
Aí vem, pelo meio, a história de desde pequena admirar grandes mulheres;
- É isso, vou ser Grande quando crescer!
Eu olhava essas Anitas, essas Bárbaras, todas as Anas, as Rosas, as Isadoras, tinham vida todas elas... Eu queria ir lutar em qualquer lugar ou desbravar inúmeros corações e depois largá-los ou ter um único coração e poder guardá-lo; eu queria ser o fruto amargo da poesia doce, recordação de cores infinita na paleta da imaginação, sobressalto incansável e inesgotável... Mas não tenho o que sobra de ardor Nestas.
Cresci e me desvendei em Elisas, em pálidas Manoelas, em Beatrizes e Isabelas; tenho vocação pra todas essas, e não seria feio se desejasse do fundo do peito um final esguio e sonso de Cinderela; mas pelo meu pecado insistente, viro a minha serpente.
Me conduz um espírito lunático, sonhador de passos firmes (quero histórias com início-meio-e-fim mas me encanto pelo que sobra delas) e se pretendo deixar imperar a razão, me dou ao avesso pela emoção.
Não há em mim a força capaz de vencer as guerras e, embora participe de todas, não tenho gana por elas, mas não quero também o que cabe às moças que são de janela (não dou para o brilho, não dou pro martírio).
E no final das coisas julgo a vida toda muito bem subentendida. Tenho uma máscara quando não quero que se desprende quando preciso dela, me entrega aos olhos do mundo crua enquanto eu me arrisco inteira e madura. Talvez o pecado seja, então, a transparência...
(há sempre quem me convença) Eu sou um reflexo forte de tudo o que é maleável, sou de dissolver e sonho eternidades; mas não sou fugaz, não sou de consumir páginas, vidas, cenários...
Aqui, nesse corredor, moro eu e mais algumas outras, que também abriram mão dos nomes. Cabe a cada uma, um ideal: tem as que cansaram de se buscar e as que se encontram em lugares demais; as que querem ter, mas repelem paixões e as que têm as paixões e querem o perdão; as que sonham e querem agir; as que de tanto agir esqueceram como se sonha;
tem as de sangrar
as de escorrer
e as de vazar litros
e litros (fluidas, todas...)
não somos muitas
não somos poucas
e nem somos um time
somos o que sobra das
nossas histórias coexistindo
com o que diz de nós mesmas
morremos todas sufocadas
- cada uma de si, eu digo -
pelo pecado que nos consumir
(considerando as inúmeras formas
que esse pecado pode assumir)
***
(Do início:)
A dialética do perdão: eu e eu (no lugar de todos ou de algum de vocês), aí me contorço o quanto for, mas resolvo os ventos e sigo o movimento; e como boa pecadora, me dou ao contrário do que padeço [o passo não é calculável, não é fácil e é só o começo]
Aí vem, pelo meio, a história de desde pequena admirar grandes mulheres;
- É isso, vou ser Grande quando crescer!
Eu olhava essas Anitas, essas Bárbaras, todas as Anas, as Rosas, as Isadoras, tinham vida todas elas... Eu queria ir lutar em qualquer lugar ou desbravar inúmeros corações e depois largá-los ou ter um único coração e poder guardá-lo; eu queria ser o fruto amargo da poesia doce, recordação de cores infinita na paleta da imaginação, sobressalto incansável e inesgotável... Mas não tenho o que sobra de ardor Nestas.
Cresci e me desvendei em Elisas, em pálidas Manoelas, em Beatrizes e Isabelas; tenho vocação pra todas essas, e não seria feio se desejasse do fundo do peito um final esguio e sonso de Cinderela; mas pelo meu pecado insistente, viro a minha serpente.
Me conduz um espírito lunático, sonhador de passos firmes (quero histórias com início-meio-e-fim mas me encanto pelo que sobra delas) e se pretendo deixar imperar a razão, me dou ao avesso pela emoção.
Não há em mim a força capaz de vencer as guerras e, embora participe de todas, não tenho gana por elas, mas não quero também o que cabe às moças que são de janela (não dou para o brilho, não dou pro martírio).
E no final das coisas julgo a vida toda muito bem subentendida. Tenho uma máscara quando não quero que se desprende quando preciso dela, me entrega aos olhos do mundo crua enquanto eu me arrisco inteira e madura. Talvez o pecado seja, então, a transparência...
(há sempre quem me convença) Eu sou um reflexo forte de tudo o que é maleável, sou de dissolver e sonho eternidades; mas não sou fugaz, não sou de consumir páginas, vidas, cenários...
Aqui, nesse corredor, moro eu e mais algumas outras, que também abriram mão dos nomes. Cabe a cada uma, um ideal: tem as que cansaram de se buscar e as que se encontram em lugares demais; as que querem ter, mas repelem paixões e as que têm as paixões e querem o perdão; as que sonham e querem agir; as que de tanto agir esqueceram como se sonha;
tem as de sangrar
as de escorrer
e as de vazar litros
e litros (fluidas, todas...)
não somos muitas
não somos poucas
e nem somos um time
somos o que sobra das
nossas histórias coexistindo
com o que diz de nós mesmas
morremos todas sufocadas
- cada uma de si, eu digo -
pelo pecado que nos consumir
(considerando as inúmeras formas
que esse pecado pode assumir)
***
06/11/2010
Contagem Regressiva
Na verdade o que varia não é
A intensidade do querer. Querer,
Te quero por esse tempo que nos
Persegue sem nunca cansar do assunto
A diferença fica explícita
Na alma do sentimento, no
Fator que conduz o sopro
E vasculha meu pensamento
Às vezes é um quererzinho
Feito coceira no dedo do pé
Cosquinha inconveniente
Aconchego manso e ondeante
Coça a mente
Coça a mente
Coça a mente
Até abrir larga ferida
Aí muda completamente o
Cenário, e te quero enlouquecida
Por não querer nada da vida
Num tapete melodramático me
Esparramo na escuridão, vôo em cegos
Corredores fugindo do que é razão
Cansada da viagem, volto ao mundo
Para espairecer refletindo em botões
De rosa o valor de retroceder
Passa a ardência, passa a hora
O sol, a lua; as nuvens vêm e vão embora
O sangue estanca
Cicatriza em verso a ferida...
E volto a te querer do início da partida:
***
A intensidade do querer. Querer,
Te quero por esse tempo que nos
Persegue sem nunca cansar do assunto
A diferença fica explícita
Na alma do sentimento, no
Fator que conduz o sopro
E vasculha meu pensamento
Às vezes é um quererzinho
Feito coceira no dedo do pé
Cosquinha inconveniente
Aconchego manso e ondeante
Coça a mente
Coça a mente
Coça a mente
Até abrir larga ferida
Aí muda completamente o
Cenário, e te quero enlouquecida
Por não querer nada da vida
Num tapete melodramático me
Esparramo na escuridão, vôo em cegos
Corredores fugindo do que é razão
Cansada da viagem, volto ao mundo
Para espairecer refletindo em botões
De rosa o valor de retroceder
Passa a ardência, passa a hora
O sol, a lua; as nuvens vêm e vão embora
O sangue estanca
Cicatriza em verso a ferida...
E volto a te querer do início da partida:
***
05/11/2010
Mais
( I )
lá vai ela, mais uma vez
de tropeço em tropeço
atingir logo o proibido
arrepia a pele e congela a razão
mas esse som...
vento ao pé do ouvido
e disfarça a sedução
abre as pernas, envolve as mãos
respira essa ansiedade
e cospe na cara da vontade
mas a noite é linda;
“e a dança, e a dança, e a dança”
encosta-se por acaso
perde tempo com a sombra
mas ainda não está desfeito o caso...
( II )
a outra pensa em afagos
e ele só quer conseguir respirar
insiste, tenta de novo
e uma vontade de espirrar...
ela grita, esperneia
(não tarda a desapontar)
mas ele, longe dali
passa a ver só boca mexendo
e de repente o que era cor escura cambalhota
bambolê em cores
espiral multicolorido
vem vindo, vindo
e quando encosta-lhe a face
transformou-se:
é azul, azul cristalino.
( + )
depois do mergulho, ele emerge
cansado de dar asas ao pensamento
e de caçar buracos, cansado de cansar sempre
e de cercar-se de sorrisos fracos
só aí, percebendo o erro
abre a porta e vê toda a água no chão:
o azul era o avesso.
o azul era o outro lado.
***
fevereiro/2009, na verdade.
lá vai ela, mais uma vez
de tropeço em tropeço
atingir logo o proibido
arrepia a pele e congela a razão
mas esse som...
vento ao pé do ouvido
e disfarça a sedução
abre as pernas, envolve as mãos
respira essa ansiedade
e cospe na cara da vontade
mas a noite é linda;
“e a dança, e a dança, e a dança”
encosta-se por acaso
perde tempo com a sombra
mas ainda não está desfeito o caso...
( II )
a outra pensa em afagos
e ele só quer conseguir respirar
insiste, tenta de novo
e uma vontade de espirrar...
ela grita, esperneia
(não tarda a desapontar)
mas ele, longe dali
passa a ver só boca mexendo
e de repente o que era cor escura cambalhota
bambolê em cores
espiral multicolorido
vem vindo, vindo
e quando encosta-lhe a face
transformou-se:
é azul, azul cristalino.
( + )
depois do mergulho, ele emerge
cansado de dar asas ao pensamento
e de caçar buracos, cansado de cansar sempre
e de cercar-se de sorrisos fracos
só aí, percebendo o erro
abre a porta e vê toda a água no chão:
o azul era o avesso.
o azul era o outro lado.
***
fevereiro/2009, na verdade.
03/11/2010
A moça, o bebê e a poesia
Garantia silenciosamente a noite que o dia seguinte seria ruidoso (ideologicamente falando). Por conhecer bem a insônia não se deixou afetar pelos desassossegos da madrugada, mas Elisa sabia que chegado o próximo sol o dia iria maltratá-la. Embalou as cartas que entregaria ao amanhecer com ou sem os pressentimentos.
Afinal se deitou e ficou rememorando o tapete de pétalas e as bicicletas do Aterro do Flamengo...
O acordar foi de uma vez (essa é a minha história dela:) abriu os angustiados olhos castanhos e saltou da cama vestida da energia injetável das noites mal-dormidas. Um banho pelo contato com a água, quatro nozes pelo Ômega 3, uma olhada na janela para a arrumação da bolsa, as vitaminas amarelas por recomendação médica, um macacão frouxo para conforto do bebê – que já carregava, a essa época, uma grande barriga de entregar uns cinco meses de gestação; imagino-a atravessando uma rua ou lendo manchetes vazias numa banca de jornal, sentada num ponto de ônibus remoendo amores por distração, tentando livrar a consciência de afogar-se em problemas tão prematuros – os óculos escuros por ilusória invisibilidade, três pulinhos na saída de casa pelo medo que a consumia nas últimas semanas, o pé direito e o bom dia pela nobre e velha rotina.
Vinha notando certos arroubos em seu comportamento como que em resposta fisiológica às forças que a buscavam secretamente. Ria trêmula, sentia o peito ora congelar, ora ferver; sentia pulsar o canto dos olhos, da boca, da alma; sofria delícias de folhetim. Logo ela, a amiga mais cética, a criadora de histórias pela falta de lirismo que aqueles anos vinham lhe esfregando na cara; ouvia estalar o coração, a mente, a áurea... Mas não comentava insights cósmicos com praticamente ninguém. Só com o bebê, às vezes, e telepaticamente.
O bebê, aliás, era o Universo intocado de Elisa, e por vontade própria serviria-lhe de casa para sempre. “Aqui na Realidade separam os pais das mães por informação, seqüestram meninas por besta diversão; aqui nesse país a música não toca e também não é o silêncio puro o que nos consola; aqui nos impuseram certas palavras e outras querem que finjamos que não existem; aqui arrancam unhas feitas por qualquer desfeita, andam matando demais e eu prefiro te guardar aí a te ver sangrando por nenhuma liberdade, feito eu, aqui desse lado.”
É claro que ela defendia a democracia – quem, vendo o que eles viam, não defenderia? –, os generais não permitiam suas “frases dissimuladas” de estudante de literatura, apagavam suas cores favoritas das ruas; a Zona Sul não era mais azul e o subúrbio da Vizinha e das cachoeiras de domingo aplaudia gols que se desmanchavam no ar enquanto Arthur morria. “Aqui fora você não vai mesmo encontrar com seu pai (não chorava) e a mim você tem inteira estando aí dentro...”
A moça refletia, mas não era subversiva. Torcia pela volta do Sarau, queria noites possíveis de serem vividas, seus silenciosos e bêbados amores, as rodas de girar saia e conquistar flores... “Não é pela Revolução, coisinha, é pelo perdão.”
No comitê, chamavam-na flor do burgo. Ria de canto, quase gostava e respondia sempre com as coisas já resolvidas. Escrevia cartas que deixava presas em canteiros à porta de colégios ou em cima de bancos de praça, em balanços, em pontos de ônibus... Dizia nelas os versos que lhe oprimiam, contava estrelas invisíveis e suspirava martírios a completos desconhecidos. Nunca ficava para ver quem lia suas linhas despejadas.
(meu reino por uma dessas cartas perdidas)
Eles acharam, leram e tentaram entender a poesia; “Não pode, é obscena”, disseram que insultava a Bíblia. Caçaram a luz das palavras, mandaram usurpar a criatividade do artista, quiseram romper os laços bonitos da imaginação com golpes de espalhar desespero em corredores da razão.
Elisa saiu, como que sugada, da sala de onde via subirem os monstros, para o mais próximo lance de escadas. E enquanto descia correndo, não pensava não queria não pedia, só chorava. E no segundo lance de degraus as lágrimas eram tão bem-vindas quanto o vento que esbarrou-lhe chegado de uma desconhecida janela. E foi nesse momento que se abriu a porta que dava para ela: viu homens cinzentos, sentiu a brisa, secou os olhos encharcados enquanto não ouvia o que gritavam, pressionou a barriga com a mão esquerda e deu-se a ventania,
sem obscurecer o dia
sem nenhum tormento
deixou o mundo em que
não cabia pela janela –
bebê-ela-e-poesia.
***
Me contaram, semana passada, essa história:
[1968, parece] menina grávida (e sem nome) pulou do antigo prédio de Letras da UERJ, no centro, por medo das mãos truculentas do Regime.
Afinal se deitou e ficou rememorando o tapete de pétalas e as bicicletas do Aterro do Flamengo...
O acordar foi de uma vez (essa é a minha história dela:) abriu os angustiados olhos castanhos e saltou da cama vestida da energia injetável das noites mal-dormidas. Um banho pelo contato com a água, quatro nozes pelo Ômega 3, uma olhada na janela para a arrumação da bolsa, as vitaminas amarelas por recomendação médica, um macacão frouxo para conforto do bebê – que já carregava, a essa época, uma grande barriga de entregar uns cinco meses de gestação; imagino-a atravessando uma rua ou lendo manchetes vazias numa banca de jornal, sentada num ponto de ônibus remoendo amores por distração, tentando livrar a consciência de afogar-se em problemas tão prematuros – os óculos escuros por ilusória invisibilidade, três pulinhos na saída de casa pelo medo que a consumia nas últimas semanas, o pé direito e o bom dia pela nobre e velha rotina.
Vinha notando certos arroubos em seu comportamento como que em resposta fisiológica às forças que a buscavam secretamente. Ria trêmula, sentia o peito ora congelar, ora ferver; sentia pulsar o canto dos olhos, da boca, da alma; sofria delícias de folhetim. Logo ela, a amiga mais cética, a criadora de histórias pela falta de lirismo que aqueles anos vinham lhe esfregando na cara; ouvia estalar o coração, a mente, a áurea... Mas não comentava insights cósmicos com praticamente ninguém. Só com o bebê, às vezes, e telepaticamente.
O bebê, aliás, era o Universo intocado de Elisa, e por vontade própria serviria-lhe de casa para sempre. “Aqui na Realidade separam os pais das mães por informação, seqüestram meninas por besta diversão; aqui nesse país a música não toca e também não é o silêncio puro o que nos consola; aqui nos impuseram certas palavras e outras querem que finjamos que não existem; aqui arrancam unhas feitas por qualquer desfeita, andam matando demais e eu prefiro te guardar aí a te ver sangrando por nenhuma liberdade, feito eu, aqui desse lado.”
É claro que ela defendia a democracia – quem, vendo o que eles viam, não defenderia? –, os generais não permitiam suas “frases dissimuladas” de estudante de literatura, apagavam suas cores favoritas das ruas; a Zona Sul não era mais azul e o subúrbio da Vizinha e das cachoeiras de domingo aplaudia gols que se desmanchavam no ar enquanto Arthur morria. “Aqui fora você não vai mesmo encontrar com seu pai (não chorava) e a mim você tem inteira estando aí dentro...”
A moça refletia, mas não era subversiva. Torcia pela volta do Sarau, queria noites possíveis de serem vividas, seus silenciosos e bêbados amores, as rodas de girar saia e conquistar flores... “Não é pela Revolução, coisinha, é pelo perdão.”
No comitê, chamavam-na flor do burgo. Ria de canto, quase gostava e respondia sempre com as coisas já resolvidas. Escrevia cartas que deixava presas em canteiros à porta de colégios ou em cima de bancos de praça, em balanços, em pontos de ônibus... Dizia nelas os versos que lhe oprimiam, contava estrelas invisíveis e suspirava martírios a completos desconhecidos. Nunca ficava para ver quem lia suas linhas despejadas.
(meu reino por uma dessas cartas perdidas)
Eles acharam, leram e tentaram entender a poesia; “Não pode, é obscena”, disseram que insultava a Bíblia. Caçaram a luz das palavras, mandaram usurpar a criatividade do artista, quiseram romper os laços bonitos da imaginação com golpes de espalhar desespero em corredores da razão.
Elisa saiu, como que sugada, da sala de onde via subirem os monstros, para o mais próximo lance de escadas. E enquanto descia correndo, não pensava não queria não pedia, só chorava. E no segundo lance de degraus as lágrimas eram tão bem-vindas quanto o vento que esbarrou-lhe chegado de uma desconhecida janela. E foi nesse momento que se abriu a porta que dava para ela: viu homens cinzentos, sentiu a brisa, secou os olhos encharcados enquanto não ouvia o que gritavam, pressionou a barriga com a mão esquerda e deu-se a ventania,
sem obscurecer o dia
sem nenhum tormento
deixou o mundo em que
não cabia pela janela –
bebê-ela-e-poesia.
***
Me contaram, semana passada, essa história:
[1968, parece] menina grávida (e sem nome) pulou do antigo prédio de Letras da UERJ, no centro, por medo das mãos truculentas do Regime.
02/11/2010
21.
Renascida [ponto]
Não porque antes me reconhecesse morta, mas porque o dia me pôs em contato com partes minhas que andavam misteriosamente perdidas em um mar de espasmos atemporais e sôfregos, numa zona de abissal poesia.
Não sei dizer se é onda da carta, do remédio ou da cafeína; talvez seja só vontade, por contato ilusório com a almejada liberdade, mas... intuitivamente: me livrei de você. Não entenda mal – não entenda, apenas. Que são bonitas as nossas coisas mesmo assim (e não posso nem me dar ao luxo de repetir isso alto, minha consciência itinerante teima sempre em te resgatar)
Digo só que o dia foi desses de sutilmente surpreender e divinamente agradar...
Ontem joguei cartas e tirei a 21 – O mundo. Acho-a linda das palavras-chave ao desenho no baralho, mas minha veia tortuosamente interrogativa me exibe a possibilidade dos meus ares corados serem influência da leitura...
De qualquer forma hoje rejeito inversões no pensamento, e seria mesmo legal se essa coisa holística e de energia em fluxo de saudade/criatividade/apelo ou alegria fosse verdadeira; e se o deus fosse um algo inteiro, não uma figura só Dele, imposta e por isso poderosa, mas uma super-força-universal e dinâmica: um turbilhão de cores em frenesi poético, resquícios flutuantes de envelhecidos amores, olhares de bichos servindo de postes de baixa iluminação a render contos selvagens à imaginação terrestre, a ingenuidade dilacerante dos nossos bichos domesticados e ventos, para incendiar movimentos e espalhar cheiro de vida no ar (que tem cheiro de coisa pra comer, a vida)
Isso mais algo que, por favor, voe, mais toda a compaixão das luas que nos inundam em noites de estar solitário, mais a felicidade de sangrar que mora nas chuvas e a solícita efemeridade das sempre bem-vindas rosas.
Ia ser mesmo lindo se o deus fosse isso – e nós um parêntese encantado da história, uma extensão ideológica da aquarela.
***
1 - lágrimas negras (otto e julieta venegas)
2 - positivismo (macalé)
3 - dança da solidão (com o paulinho mesmo)
4 - o trem azul (clube da esquina)
Não porque antes me reconhecesse morta, mas porque o dia me pôs em contato com partes minhas que andavam misteriosamente perdidas em um mar de espasmos atemporais e sôfregos, numa zona de abissal poesia.
Não sei dizer se é onda da carta, do remédio ou da cafeína; talvez seja só vontade, por contato ilusório com a almejada liberdade, mas... intuitivamente: me livrei de você. Não entenda mal – não entenda, apenas. Que são bonitas as nossas coisas mesmo assim (e não posso nem me dar ao luxo de repetir isso alto, minha consciência itinerante teima sempre em te resgatar)
Digo só que o dia foi desses de sutilmente surpreender e divinamente agradar...
Ontem joguei cartas e tirei a 21 – O mundo. Acho-a linda das palavras-chave ao desenho no baralho, mas minha veia tortuosamente interrogativa me exibe a possibilidade dos meus ares corados serem influência da leitura...
De qualquer forma hoje rejeito inversões no pensamento, e seria mesmo legal se essa coisa holística e de energia em fluxo de saudade/criatividade/apelo ou alegria fosse verdadeira; e se o deus fosse um algo inteiro, não uma figura só Dele, imposta e por isso poderosa, mas uma super-força-universal e dinâmica: um turbilhão de cores em frenesi poético, resquícios flutuantes de envelhecidos amores, olhares de bichos servindo de postes de baixa iluminação a render contos selvagens à imaginação terrestre, a ingenuidade dilacerante dos nossos bichos domesticados e ventos, para incendiar movimentos e espalhar cheiro de vida no ar (que tem cheiro de coisa pra comer, a vida)
Isso mais algo que, por favor, voe, mais toda a compaixão das luas que nos inundam em noites de estar solitário, mais a felicidade de sangrar que mora nas chuvas e a solícita efemeridade das sempre bem-vindas rosas.
Ia ser mesmo lindo se o deus fosse isso – e nós um parêntese encantado da história, uma extensão ideológica da aquarela.
***
1 - lágrimas negras (otto e julieta venegas)
2 - positivismo (macalé)
3 - dança da solidão (com o paulinho mesmo)
4 - o trem azul (clube da esquina)
30/10/2010
27/10/2010
21/10/2010
A Vida Vivida
(Vinicius de Moraes)
Quem sou eu senão um grande sonho obscuro em face do Sonho
Senão uma grande angústia obscura em face da Angústia
Quem sou eu senão a imponderável árvore dentro da noite imóvel
E cujas presas remontam ao mais triste fundo da terra?
De que venho senão da eterna caminhada de uma sombra
Que se destrói à presença das fortes claridades
Mas em cujo rastro indelével repousa a face do mistério
E cuja forma é prodigiosa treva informe?
Que destino é o meu senão o de assistir ao meu Destino
Rio que sou em busca do mar que me apavora
Alma que sou clamando o desfalecimento
Carne que sou no âmago inútil da prece?
O que é a mulher em mim senão o Túmulo
O branco marco da minha rota peregrina
Aquela em cujos braços vou caminhando para a morte
Mas em cujos braços somente tenho vida?
O que é o meu amor, ai de mim! senão a luz impossível
Senão a estrela parada num oceano de melancolia
O que me diz ele senão que é vã toda a palavra
Que não repousa no seio trágico do abismo?
O que é o meu Amor? senão o meu desejo iluminado
O meu infinito desejo de ser o que sou acima de mim mesmo
O meu eterno partir da minha vontade enorme de ficar
Peregrino, peregrino de um instante, peregrino de todos os instantes?
A quem respondo senão a ecos, a soluços, a lamentos
De vozes que morrem no fundo do meu prazer ou do meu tédio
A quem falo senão a multidões de símbolos errantes
Cuja tragédia efêmera nenhum espírito imagina?
Qual é o meu ideal senão fazer do céu poderoso a Língua
Da nuvem a Palavra imortal cheia de segredo
E do fundo do inferno delirantemente proclamá-los
Em Poesia que se derrame como sol ou como chuva?
O que é o meu ideal senão o Supremo Impossível
Aquele que é, só ele, o meu cuidado e o meu anelo
O que é ele em mim senão o meu desejo de encontrá-lo
E o encontrando, o meu medo de não o reconhecer?
O que sou eu senão ele, o Deus em sofrimento
O temor imperceptível na voz portentosa do vento
O bater invisível de um coração no descampado...
O que sou eu senão Eu Mesmo em face de mim
Rio de Janeiro, 1938
-
esses librianos...
Quem sou eu senão um grande sonho obscuro em face do Sonho
Senão uma grande angústia obscura em face da Angústia
Quem sou eu senão a imponderável árvore dentro da noite imóvel
E cujas presas remontam ao mais triste fundo da terra?
De que venho senão da eterna caminhada de uma sombra
Que se destrói à presença das fortes claridades
Mas em cujo rastro indelével repousa a face do mistério
E cuja forma é prodigiosa treva informe?
Que destino é o meu senão o de assistir ao meu Destino
Rio que sou em busca do mar que me apavora
Alma que sou clamando o desfalecimento
Carne que sou no âmago inútil da prece?
O que é a mulher em mim senão o Túmulo
O branco marco da minha rota peregrina
Aquela em cujos braços vou caminhando para a morte
Mas em cujos braços somente tenho vida?
O que é o meu amor, ai de mim! senão a luz impossível
Senão a estrela parada num oceano de melancolia
O que me diz ele senão que é vã toda a palavra
Que não repousa no seio trágico do abismo?
O que é o meu Amor? senão o meu desejo iluminado
O meu infinito desejo de ser o que sou acima de mim mesmo
O meu eterno partir da minha vontade enorme de ficar
Peregrino, peregrino de um instante, peregrino de todos os instantes?
A quem respondo senão a ecos, a soluços, a lamentos
De vozes que morrem no fundo do meu prazer ou do meu tédio
A quem falo senão a multidões de símbolos errantes
Cuja tragédia efêmera nenhum espírito imagina?
Qual é o meu ideal senão fazer do céu poderoso a Língua
Da nuvem a Palavra imortal cheia de segredo
E do fundo do inferno delirantemente proclamá-los
Em Poesia que se derrame como sol ou como chuva?
O que é o meu ideal senão o Supremo Impossível
Aquele que é, só ele, o meu cuidado e o meu anelo
O que é ele em mim senão o meu desejo de encontrá-lo
E o encontrando, o meu medo de não o reconhecer?
O que sou eu senão ele, o Deus em sofrimento
O temor imperceptível na voz portentosa do vento
O bater invisível de um coração no descampado...
O que sou eu senão Eu Mesmo em face de mim
Rio de Janeiro, 1938
-
esses librianos...
15/10/2010
aleatório (3)
depois, quando eu dou a mão prum qualquer que me passe na mente acenando confetes
e resolvo ir bem longe dessa coisa toda de proteínas, vitaminas, poli... B12, guanina (?)
me vem o que é externo – e dano, sem perceber, a chamar Universo – me vem cobrar compromisso. com isso? (com o que vier por trás dos montes! estás sempre a correr, a largar metades e desaparecer) é a minha cabeça que anda vazia e ao mesmo tempo cheia de coisas... (e faz, em algum lugar, sentido isso?) ... é como ter infinitos pensamentos sem nenhuma substância; ter calma e paciência para esperar (é assistir!) a própria cara se partir em pedaços. (podes bater ou te submeter) não, sutilmente passo:
me afetem
cantos
e cores
e sombras
e silêncios esguios
mexam comigo
bichos
e gentes
e folhas de todas as árvores
alguém, por vocação
ou instinto
me estremeça
por dentro
me arremesse dessa
pasma realidade
à próxima esquina
de se perder no tempo.
***
e resolvo ir bem longe dessa coisa toda de proteínas, vitaminas, poli... B12, guanina (?)
me vem o que é externo – e dano, sem perceber, a chamar Universo – me vem cobrar compromisso. com isso? (com o que vier por trás dos montes! estás sempre a correr, a largar metades e desaparecer) é a minha cabeça que anda vazia e ao mesmo tempo cheia de coisas... (e faz, em algum lugar, sentido isso?) ... é como ter infinitos pensamentos sem nenhuma substância; ter calma e paciência para esperar (é assistir!) a própria cara se partir em pedaços. (podes bater ou te submeter) não, sutilmente passo:
me afetem
cantos
e cores
e sombras
e silêncios esguios
mexam comigo
bichos
e gentes
e folhas de todas as árvores
alguém, por vocação
ou instinto
me estremeça
por dentro
me arremesse dessa
pasma realidade
à próxima esquina
de se perder no tempo.
***
11/10/2010
Para: o domingo
de relembrar ou lendo ouvindo ou vendo passagens
percebi que o domingo é o pai dos abandonados
e por gosto ou perdição acalanta os sofridos
cabem nele, sem julgamento
serenatas que seriam impensáveis às quintas-feiras obscenas
e exageros que chegariam às segundas desgastados
e para que é que servem estes dias se não para isso mesmo: serem tortuosamente desperdiçados ou remoídos em filmes distantes?
existem oficialmente como início
mas soam dentro das vidas
como final de dia vazio
só aos domingos a preguiça toda do mundo se exibe estendida numa longa varanda sem (ainda) ser massacrada pela pressa das horas correntes
deixem aos domingos suas breguices e brejeirices de roça à giz de cera; seus amorecos de praça e suas cores de retratar semana amarga
não intimidem-se, notas dominicais
(hão de entender que coisas são feitas ao passar delas mesmas)
enrubesci e desisti de me contorcer
deixo tecidos e esquecidos
meus domingos
por você
***
percebi que o domingo é o pai dos abandonados
e por gosto ou perdição acalanta os sofridos
cabem nele, sem julgamento
serenatas que seriam impensáveis às quintas-feiras obscenas
e exageros que chegariam às segundas desgastados
e para que é que servem estes dias se não para isso mesmo: serem tortuosamente desperdiçados ou remoídos em filmes distantes?
existem oficialmente como início
mas soam dentro das vidas
como final de dia vazio
só aos domingos a preguiça toda do mundo se exibe estendida numa longa varanda sem (ainda) ser massacrada pela pressa das horas correntes
deixem aos domingos suas breguices e brejeirices de roça à giz de cera; seus amorecos de praça e suas cores de retratar semana amarga
não intimidem-se, notas dominicais
(hão de entender que coisas são feitas ao passar delas mesmas)
enrubesci e desisti de me contorcer
deixo tecidos e esquecidos
meus domingos
por você
***
07/10/2010
A defesa do poeta
(Natália Correia)
Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto
Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim
Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes
Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei
Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em criança que salvo
do incêndio da vossa lição
Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis
Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além
Senhores três quatro cinco e Sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?
Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa
Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.
--
Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto
Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim
Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes
Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei
Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em criança que salvo
do incêndio da vossa lição
Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis
Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além
Senhores três quatro cinco e Sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?
Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa
Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.
--
05/10/2010
dê-erre
eu tentei, menina
te prender na cama hoje
enchi teu corpo de moleza
embalei-a com cantigas doces
juntei soltos fios de sonhos para surpreender-te com reflexões que ardem
não percebes que só te molhei os cabelos por querê-la até mais tarde?
mas tu não sossegas!
eu avisei que não deixaria de descer...
pretendia fazer descansar a tua saia
mas teimas sempre nessas voltas
nesses encontros e desencantos
em embriagar-se de multidão
não te deixo rodar hoje!
paro o trânsito, apago as luzes e os corações irisados
mas não te deixo andar com a vida
só por ciúme te prendo aí dentro com essa gente fosca
sugo a energia da noite, e congelo inteiro o teu dia!
*
pode gritar, chuva teimosa
me agradam as liras cinzas
por isso essa tua crise
me parece tão desmedida
só saí porque me empurravam
umas horas muito nervosas
bambas e sem direção
mas ansiosas por algum movimento
cantaram alto, de forma insistente
notas que soaram como passos ao coração
portanto choraste litros de raiva à toa
não me incomoda o teu trovão
não morro, andando, de medo de raios
nem me afligem tuas gotas d'água e solidão
- na verdade as recebo como me derreto por carinhos -
fugi de mim, não de ti
(teu desatino é o meu ninho)
***
te prender na cama hoje
enchi teu corpo de moleza
embalei-a com cantigas doces
juntei soltos fios de sonhos para surpreender-te com reflexões que ardem
não percebes que só te molhei os cabelos por querê-la até mais tarde?
mas tu não sossegas!
eu avisei que não deixaria de descer...
pretendia fazer descansar a tua saia
mas teimas sempre nessas voltas
nesses encontros e desencantos
em embriagar-se de multidão
não te deixo rodar hoje!
paro o trânsito, apago as luzes e os corações irisados
mas não te deixo andar com a vida
só por ciúme te prendo aí dentro com essa gente fosca
sugo a energia da noite, e congelo inteiro o teu dia!
*
pode gritar, chuva teimosa
me agradam as liras cinzas
por isso essa tua crise
me parece tão desmedida
só saí porque me empurravam
umas horas muito nervosas
bambas e sem direção
mas ansiosas por algum movimento
cantaram alto, de forma insistente
notas que soaram como passos ao coração
portanto choraste litros de raiva à toa
não me incomoda o teu trovão
não morro, andando, de medo de raios
nem me afligem tuas gotas d'água e solidão
- na verdade as recebo como me derreto por carinhos -
fugi de mim, não de ti
(teu desatino é o meu ninho)
***
26/09/2010
pretensão de primavera
sofro de constipação poética
nas luas cheias da primavera
- é a certeza da minha contradição -
anseio inquieta por essas cores
elas chegam, me ocupa o vão
pairo em tom fantasma
por pasmar e desligar
afim só da brisa e da estrada...
talvez limpeza astral
talvez implicância de algum
deus lírico Universal;
mas não falo das flores que me tangem
enquanto ainda me esfola o verão
as desejo como o que arde
em desencantos-outonos
me contorço em saudades
sofro delas, dedicada
em invernos fabulosos
mas em certos dias primaveris
me suga energeticamente
a rua
a noite impera magistral
me hipnotiza a solidão
da lua
falta fôlego para as palavras
falta noção de movimento
fico sem direção, cega
rosa-dos-ventos...
se esvai em torpor minha poesia
tudo no mundo me escapa
vôo aqui, ali, alheia - sangrando
ao longo, multicoloridas pétalas -
vem de mim a primavera
***
nas luas cheias da primavera
- é a certeza da minha contradição -
anseio inquieta por essas cores
elas chegam, me ocupa o vão
pairo em tom fantasma
por pasmar e desligar
afim só da brisa e da estrada...
talvez limpeza astral
talvez implicância de algum
deus lírico Universal;
mas não falo das flores que me tangem
enquanto ainda me esfola o verão
as desejo como o que arde
em desencantos-outonos
me contorço em saudades
sofro delas, dedicada
em invernos fabulosos
mas em certos dias primaveris
me suga energeticamente
a rua
a noite impera magistral
me hipnotiza a solidão
da lua
falta fôlego para as palavras
falta noção de movimento
fico sem direção, cega
rosa-dos-ventos...
se esvai em torpor minha poesia
tudo no mundo me escapa
vôo aqui, ali, alheia - sangrando
ao longo, multicoloridas pétalas -
vem de mim a primavera
***
14/09/2010
de vento em vento o quê?
vamos andando tontos, pra lá de sonsos
embriagados de música pra sempre...
certo isso e certo que estão, as voltas
à mercê do imaginário e do vento
e agora o quê?
insosso interregno
(e haja paciência com o tempo)
vamos indo porque é de ir que somos feitos.
desejaremos coisas sem forma
refletiremos certos sons por renovação
vamos respirar estes mesmos ares
sem saudade ou vergonha ou maldade
deixa relaxar a paisagem, clareia a paleta
arriscaremos leves suspiros
pequenos saltos...
lentíssimos voos . . .
(aquela velha coisa de equilíbrio)
mas ainda transbordamos
... de quando em quando
... de sono em sono
[sonho]
... de vento em vento
[tempo]
viu que não nos maltratamos?
mas de mentalizar idílios, carinho
tardamos
***
embriagados de música pra sempre...
certo isso e certo que estão, as voltas
à mercê do imaginário e do vento
e agora o quê?
insosso interregno
(e haja paciência com o tempo)
vamos indo porque é de ir que somos feitos.
desejaremos coisas sem forma
refletiremos certos sons por renovação
vamos respirar estes mesmos ares
sem saudade ou vergonha ou maldade
deixa relaxar a paisagem, clareia a paleta
arriscaremos leves suspiros
pequenos saltos...
lentíssimos voos . . .
(aquela velha coisa de equilíbrio)
mas ainda transbordamos
... de quando em quando
... de sono em sono
[sonho]
... de vento em vento
[tempo]
viu que não nos maltratamos?
mas de mentalizar idílios, carinho
tardamos
***
06/09/2010
the sky above us shoots to kill
boca que foge à dona
história a ser derramada
letra tossida, torcida ou cuspida
poesia que não vai ser descartada
isso a que vocês chamam
ação, em mim, não passam
de faíscas dissimuladas do
inconsciente
anseio desmedido por
abraçar o instante
espasmo sonso de
pássaro longe do céu
as coisas secretas
e de evitar enchente
partem de mim vomitadas
vazam instintivas pelos dedos
escorrem grossas, as letras
meio em ordem, meio pra
organizar a desordem...
aí leio, releio
mudo coisas de lugar
dou jeito nos acentos
nos pontos, no que é
parêntese ou nota da
paisagem
- soa mais interferido -
o programado pra ser
esquecido são os sentires
que eu visto mas evito
versos que vão evaporar
dias inteiros moldados
em fumaça e matéria de
nuvem
as melodias
ocultas aonde
os escondo
me encontro
e ratifico
minhas cenas
de "juro que fico"...
depois se vira a oca
página em branco
a que não vai ser escrita
aquela última
sem guarita
o motivo não bambeia
nasce puro
e vive mudo
(morre do próprio momento)
*
era disso que eu falava:
vocês não me veem a sério
assim como são frágeis pedacinhos
os seres que reinam na minha cabeça
(mas é de verdade que eu queria
lhes dizer as coisas que digo...)
e ainda que um dia eu me mostre inteira
- feita do tal barro, pétalas e brisa
contando com a ausência das
minhas máscaras sem margem -
ainda que eu me desconstrua
ninguém no mundo todo terá
me visto crua
***
história a ser derramada
letra tossida, torcida ou cuspida
poesia que não vai ser descartada
isso a que vocês chamam
ação, em mim, não passam
de faíscas dissimuladas do
inconsciente
anseio desmedido por
abraçar o instante
espasmo sonso de
pássaro longe do céu
as coisas secretas
e de evitar enchente
partem de mim vomitadas
vazam instintivas pelos dedos
escorrem grossas, as letras
meio em ordem, meio pra
organizar a desordem...
aí leio, releio
mudo coisas de lugar
dou jeito nos acentos
nos pontos, no que é
parêntese ou nota da
paisagem
- soa mais interferido -
o programado pra ser
esquecido são os sentires
que eu visto mas evito
versos que vão evaporar
dias inteiros moldados
em fumaça e matéria de
nuvem
as melodias
ocultas aonde
os escondo
me encontro
e ratifico
minhas cenas
de "juro que fico"...
depois se vira a oca
página em branco
a que não vai ser escrita
aquela última
sem guarita
o motivo não bambeia
nasce puro
e vive mudo
(morre do próprio momento)
*
era disso que eu falava:
vocês não me veem a sério
assim como são frágeis pedacinhos
os seres que reinam na minha cabeça
(mas é de verdade que eu queria
lhes dizer as coisas que digo...)
e ainda que um dia eu me mostre inteira
- feita do tal barro, pétalas e brisa
contando com a ausência das
minhas máscaras sem margem -
ainda que eu me desconstrua
ninguém no mundo todo terá
me visto crua
***
31/08/2010
pra lá daquele meteoro
( um )
ande, motorista!
tenho voltas a inaugurar
cores para reconhecer
céus que quero ver brilhar
por hoje:
me leva mais que fora das paredes
além das minhas prateleiras
longe de qualquer fronteira
procuro um lugar de flores gigantes
dessas que nascem ao luar
brisas cortantes e objetivas
canções de ver o tempo voar
me arremessa fora do mapa
onde haja atmosfera ainda
capaz de encantar, tenho
palavras que quero esconder
e um jardim de versos em noite de estréia
que se apresenta logo ao raiar...
me encontre a terra-do-céu-maior
onde o de mais grandioso exista
é só buscar... insista!
tem que dar vontade de mergulhar
fundo e com gosto, nadar de se perder
(quero algum direito a desaparecer...)
sei que busco uma estância desconhecida
distante mesmo em pensamento
mas é que há por lá bichos dançantes
que se movem em flashes sonoros
hipnotizantes, melodicamente frenéticos
(é de entorpecer os corações mais céticos)
procura com devoção o Estado
dessas dadas coordenadas
que são tontas, fantasiadas
mas justas feito brechas
é certeiro! segue a réstia...
lá as minhas asas são possíveis
e a água escorre em serenatas à lua
que inaugurada para esquentar o dia
vigia os possíveis amantes da praça-surda
e inspira o desabrochar da noite
entornando-lhe fresca poesia
depois, mimeografa sentimentos
puros para as noites que serão cruas
sejam as madrugadas opacas
ou explicitamente nuas...
( dois )
inaugure você a viagem
pode escolher a direção
eu sigo atrás dos ponteiros
tardia por constituição
rabisco um cenário, o enfeito
de fabulosas borboletas
sigo em traços o roteiro
enche a lua... a lua esvazia...
e nada de arte final...
faz calor, esbraveja a Natureza
em vento. sem suspiro de
último capítulo:
vê? são assim
as invenções
do meu coração
quadros limpos, claros, baixo atrito
mas a alma do negócio é confusão!
tudo vem com essa força poética
e assim, do mesmo impulso inicial
tudo vai em força igual...
por isso, hoje decida você o destino
mas me ache, pra esse sono, caminho
finda o fracassado desatino...
(que as minhas passagens tendem
todas ao mesmo clichê infinito)
juro que adormeço de paisagens
besta de margaridas coloridas
e cansada de viagens
junto os cílios
esqueço dias selvagens
sem vigília...
- encerro o que falei -
e logo sonho que cheguei
***
ande, motorista!
tenho voltas a inaugurar
cores para reconhecer
céus que quero ver brilhar
por hoje:
me leva mais que fora das paredes
além das minhas prateleiras
longe de qualquer fronteira
procuro um lugar de flores gigantes
dessas que nascem ao luar
brisas cortantes e objetivas
canções de ver o tempo voar
me arremessa fora do mapa
onde haja atmosfera ainda
capaz de encantar, tenho
palavras que quero esconder
e um jardim de versos em noite de estréia
que se apresenta logo ao raiar...
me encontre a terra-do-céu-maior
onde o de mais grandioso exista
é só buscar... insista!
tem que dar vontade de mergulhar
fundo e com gosto, nadar de se perder
(quero algum direito a desaparecer...)
sei que busco uma estância desconhecida
distante mesmo em pensamento
mas é que há por lá bichos dançantes
que se movem em flashes sonoros
hipnotizantes, melodicamente frenéticos
(é de entorpecer os corações mais céticos)
procura com devoção o Estado
dessas dadas coordenadas
que são tontas, fantasiadas
mas justas feito brechas
é certeiro! segue a réstia...
lá as minhas asas são possíveis
e a água escorre em serenatas à lua
que inaugurada para esquentar o dia
vigia os possíveis amantes da praça-surda
e inspira o desabrochar da noite
entornando-lhe fresca poesia
depois, mimeografa sentimentos
puros para as noites que serão cruas
sejam as madrugadas opacas
ou explicitamente nuas...
( dois )
inaugure você a viagem
pode escolher a direção
eu sigo atrás dos ponteiros
tardia por constituição
rabisco um cenário, o enfeito
de fabulosas borboletas
sigo em traços o roteiro
enche a lua... a lua esvazia...
e nada de arte final...
faz calor, esbraveja a Natureza
em vento. sem suspiro de
último capítulo:
vê? são assim
as invenções
do meu coração
quadros limpos, claros, baixo atrito
mas a alma do negócio é confusão!
tudo vem com essa força poética
e assim, do mesmo impulso inicial
tudo vai em força igual...
por isso, hoje decida você o destino
mas me ache, pra esse sono, caminho
finda o fracassado desatino...
(que as minhas passagens tendem
todas ao mesmo clichê infinito)
juro que adormeço de paisagens
besta de margaridas coloridas
e cansada de viagens
junto os cílios
esqueço dias selvagens
sem vigília...
- encerro o que falei -
e logo sonho que cheguei
***
30/08/2010
agosto
pedi o de sempre, um sopro de vento
rezou, a estrada: "turbulência a qualquer momento!"
esperei. cansei. sentei.
gritei palavras arrependidas
dei pra sentir coisas ao avesso...
mantive as sobrancelhas
teimosamente franzidas
mexi em feridas pouco minhas
inventei de ser isso que se é
por pura indecisão do que ser
cambalhoto, então, costumes
afasto cortinas, sopro ora
poeira, ora purpurina
termino ainda palhaça
mansa, dessa vez
subjetivamente resgatada
enfim salva!
(musicalmente falando...)
*
tem forma
cor de realidade
apreço, magnitude
é quase uma fonte
de transbordar saudade
música nova ainda que antiga
trilha sonora inaugurada
sussurrou acordes de lá
do outro lado da tela
gritei. Ela ouviu. então veio
eu chorei que me sentiu...
sonhei pitangas líricas:
- me escuta, não aguento! tendo ao drama, é um tormento;
não, não consigo sozinha. minto quando faço que sim.
desce, brilha, cintila AQUI, na rua.
por favor, Sra., diz que me ajuda?
(era disso que as
folhas ventavam;
choviam no vidro
descompassadas
anunciando, pela via
a fictícia tempestade)
não volto...
não adianta...
não grita, filha...
e não cansa...
canta essa fantasia pra sempre...
(de qualquer jeito não se acha o tom...)
dança dança dança...
não te deixa sufocar, a solidão...
segue a reta, inteira, vainer...
deixa dessa frouxidão...
te salvo aos poucos durante a estrada...
te canto ao longo músicas de estrelas...
você aí: escuta os pássaros...
cuida os figos...
não exagera em coisas à toa...
brilha na marra, me olha: te grito o infinito
com direito e autoridade -
tem paciência com a sua ignorância...
cura as dores em lugares quentes...
não inventa mais linhas do que devia...
música, passo, reflexão, movimento...
não tem erro...
te enxergo com certeza...
levanta de novo...
te amo...
descansa...
*
tinham que ser Canções de amor
as que abririam espaço no vão
desci muda, derramada
sentindo-a escorrer pela mão
***
rezou, a estrada: "turbulência a qualquer momento!"
esperei. cansei. sentei.
gritei palavras arrependidas
dei pra sentir coisas ao avesso...
mantive as sobrancelhas
teimosamente franzidas
mexi em feridas pouco minhas
inventei de ser isso que se é
por pura indecisão do que ser
cambalhoto, então, costumes
afasto cortinas, sopro ora
poeira, ora purpurina
termino ainda palhaça
mansa, dessa vez
subjetivamente resgatada
enfim salva!
(musicalmente falando...)
*
tem forma
cor de realidade
apreço, magnitude
é quase uma fonte
de transbordar saudade
música nova ainda que antiga
trilha sonora inaugurada
sussurrou acordes de lá
do outro lado da tela
gritei. Ela ouviu. então veio
eu chorei que me sentiu...
sonhei pitangas líricas:
- me escuta, não aguento! tendo ao drama, é um tormento;
não, não consigo sozinha. minto quando faço que sim.
desce, brilha, cintila AQUI, na rua.
por favor, Sra., diz que me ajuda?
(era disso que as
folhas ventavam;
choviam no vidro
descompassadas
anunciando, pela via
a fictícia tempestade)
não volto...
não adianta...
não grita, filha...
e não cansa...
canta essa fantasia pra sempre...
(de qualquer jeito não se acha o tom...)
dança dança dança...
não te deixa sufocar, a solidão...
segue a reta, inteira, vainer...
deixa dessa frouxidão...
te salvo aos poucos durante a estrada...
te canto ao longo músicas de estrelas...
você aí: escuta os pássaros...
cuida os figos...
não exagera em coisas à toa...
brilha na marra, me olha: te grito o infinito
com direito e autoridade -
tem paciência com a sua ignorância...
cura as dores em lugares quentes...
não inventa mais linhas do que devia...
música, passo, reflexão, movimento...
não tem erro...
te enxergo com certeza...
levanta de novo...
te amo...
descansa...
*
tinham que ser Canções de amor
as que abririam espaço no vão
desci muda, derramada
sentindo-a escorrer pela mão
***
26/08/2010
Para: a Diva
Sei bem como é isso, estrelinha. De se esgotar em querer. Se esfolar por dentro com as próprias unhas por vontades que já foram soterradas dezenas de vezes.
Mas não adianta saber. Ou saber que os outros sabem. A gente não sossega.
A Priscila diz ser coisa de gente mimada, essas cismas eternas. Litros de palavras já sabidas, diálogos ultra ultrapassados. Acho o apego em forma de trajetória, essa nossa insistência em engodos pintados de relacionamento tosco ou paixão aguda. Tem, ainda, qualquer coisa de medo (num sentido vago...) e covardia ou preguiça de dar um passo firme novamente.
E seria tão bonito se as coisas funcionassem como se apresentam no roteiro...
Coramos de verde esperança por ingenuidade, pura estupidez. Nenhuma grande onda invade a sala, nenhum passarinho vem perto cantar; existem só um monte de horas iguais, um monte de pessoas falantes demais, de noites devastadoras, dias secos e azedos...
A gente cansa, descansa, e cansa de novo do que já não é mais mistério. Fica inquieta a imaginação que, vazando ou não, cria cenas de culpa dilacerantes, enquanto recorda passeios cortantes à lua.
Mas [e aqui entra o click] se nos esforçamos pelo alargamento do conto, se insistimos na multiplicação dos versos, desgastamos todos os encontros. Aí arrebenta a corda. Responsabilidade nossa, deles e dos dias que clamam por eternidade.
Entenda, estrela, ninguém têm culpa que possa ser nomeada.
É tudo substância do movimento... Dança infinita ditada pelo vento.
Eu não vou dizer para que não chores, para que vá às ruas vestida em cores falsas fingindo que espanta sombras densas. Não vou insistir para que cantes tuas notas mais felizes, agora.
Acho, ao invés disso, que te deves esgotar em melancolia. Que um dia, que virá depois de um outro dia mais claro, o peito esvazia. E aí quando as horas estiverem a te bater de leve e sem nenhuma graça - que depois de abismos vagamos num buraco amplo, vazio e mudo de todos os sons - aí vamos andar pelos meus caminhos favoritos para te colorir de novo.
De volta ao início do tabuleiro depois de uma volta loooonga e da qual vais lembrar melodicamente...
Aliás! Remédio para mente: ouça mais e mais e mais e mais um zilhão de músicas, estrela.
[conselho da madrugada]
E não te deixo esmorecer! Que esse ainda não é teu motivo para sumir em implosão de brilho invisível.
Então, querendo ou não, continuas para mim assim: sendo triste ou a dar cambalhotas, torta, santa ou meretriz... A aflorar...
Enquanto o próprio Universo não sucumbir em vão, continuo a te ver brilhar!
***
Beijo de boa noite, chuchu.
(com as maiúsculas =D)
Mas não adianta saber. Ou saber que os outros sabem. A gente não sossega.
A Priscila diz ser coisa de gente mimada, essas cismas eternas. Litros de palavras já sabidas, diálogos ultra ultrapassados. Acho o apego em forma de trajetória, essa nossa insistência em engodos pintados de relacionamento tosco ou paixão aguda. Tem, ainda, qualquer coisa de medo (num sentido vago...) e covardia ou preguiça de dar um passo firme novamente.
E seria tão bonito se as coisas funcionassem como se apresentam no roteiro...
Coramos de verde esperança por ingenuidade, pura estupidez. Nenhuma grande onda invade a sala, nenhum passarinho vem perto cantar; existem só um monte de horas iguais, um monte de pessoas falantes demais, de noites devastadoras, dias secos e azedos...
A gente cansa, descansa, e cansa de novo do que já não é mais mistério. Fica inquieta a imaginação que, vazando ou não, cria cenas de culpa dilacerantes, enquanto recorda passeios cortantes à lua.
Mas [e aqui entra o click] se nos esforçamos pelo alargamento do conto, se insistimos na multiplicação dos versos, desgastamos todos os encontros. Aí arrebenta a corda. Responsabilidade nossa, deles e dos dias que clamam por eternidade.
Entenda, estrela, ninguém têm culpa que possa ser nomeada.
É tudo substância do movimento... Dança infinita ditada pelo vento.
Eu não vou dizer para que não chores, para que vá às ruas vestida em cores falsas fingindo que espanta sombras densas. Não vou insistir para que cantes tuas notas mais felizes, agora.
Acho, ao invés disso, que te deves esgotar em melancolia. Que um dia, que virá depois de um outro dia mais claro, o peito esvazia. E aí quando as horas estiverem a te bater de leve e sem nenhuma graça - que depois de abismos vagamos num buraco amplo, vazio e mudo de todos os sons - aí vamos andar pelos meus caminhos favoritos para te colorir de novo.
De volta ao início do tabuleiro depois de uma volta loooonga e da qual vais lembrar melodicamente...
Aliás! Remédio para mente: ouça mais e mais e mais e mais um zilhão de músicas, estrela.
[conselho da madrugada]
E não te deixo esmorecer! Que esse ainda não é teu motivo para sumir em implosão de brilho invisível.
Então, querendo ou não, continuas para mim assim: sendo triste ou a dar cambalhotas, torta, santa ou meretriz... A aflorar...
Enquanto o próprio Universo não sucumbir em vão, continuo a te ver brilhar!
***
Beijo de boa noite, chuchu.
(com as maiúsculas =D)
21/08/2010
(título secreto)
não é nem de longe tormento
é mais um esvaziamento
secou a escuridão
agora é a clareza do vão
sumiu o que era tristeza
subiu, pro meu céu
outra estrela - caso desfeito
sem dever ou direito
(qual era mesmo a conclusão, Tom?)
deixei me ludibriar pela luz
que vinha da rua. não liguei...
fingi ser o poste, a lua
que de lá me via e assim:
estonteante, a exibir grande laço
sorria e rodopiava no espaço
enquanto a dama oculta inundava
a noite de clássicos raios lunares
grossos de tão brancos
as coisas, que além de verdes
são cândidas, estavam inteiras a balançar
soavam, na minha rua
notas hipermusicais
e o vento que é de passagem
soprava redondo como se
não pretendesse parar
depois se perdeu no clarão
da cidade todo o meu devaneio
daí em diante pairei perdida
por um reino de palavras mudas
no dia em que a lua não veio
***
é mais um esvaziamento
secou a escuridão
agora é a clareza do vão
sumiu o que era tristeza
subiu, pro meu céu
outra estrela - caso desfeito
sem dever ou direito
(qual era mesmo a conclusão, Tom?)
deixei me ludibriar pela luz
que vinha da rua. não liguei...
fingi ser o poste, a lua
que de lá me via e assim:
estonteante, a exibir grande laço
sorria e rodopiava no espaço
enquanto a dama oculta inundava
a noite de clássicos raios lunares
grossos de tão brancos
as coisas, que além de verdes
são cândidas, estavam inteiras a balançar
soavam, na minha rua
notas hipermusicais
e o vento que é de passagem
soprava redondo como se
não pretendesse parar
depois se perdeu no clarão
da cidade todo o meu devaneio
daí em diante pairei perdida
por um reino de palavras mudas
no dia em que a lua não veio
***
19/08/2010
O que é efêmero
Faz pose de depois do amor
Enquanto fuma um cigarro
Debaixo de um pano em cores
Peito nu. E todo o resto é cinza
Faz pose de depois do amor
Pra pensar na vida -
Que é a única ação que
Lhe agrada nesse agora
Força algumas lembranças
Pretendendo agitar as borboletas
[nada]
Secou o jardim, flor
Lá se vai a primavera
***
Enquanto fuma um cigarro
Debaixo de um pano em cores
Peito nu. E todo o resto é cinza
Faz pose de depois do amor
Pra pensar na vida -
Que é a única ação que
Lhe agrada nesse agora
Força algumas lembranças
Pretendendo agitar as borboletas
[nada]
Secou o jardim, flor
Lá se vai a primavera
***
14/08/2010
Para:
moída
granulada
dividida em pedaços
minimiúdos
sem dor -
coisa leve
de se soprar
pó de ventar
de roçar com leveza a mão
conciso
diferente de coisa que escorre
menos cortante que serragem
de lenço retirante
só arranha
vermelhidão que não se nota
arde dentro. às vezes. e fraco.
confunde de tão claro
faz brotar palavra no vão
depois martela
feito um dedo eterno
numa das têmporas
baixinho...
até o outro lado
vê o coelho lá em cima
de cabeça pra baixo?
vê quantas são as letras
que me escapam pelos olhos?
não censura.
olha o quadro inteiro:
te encontro?
***
granulada
dividida em pedaços
minimiúdos
sem dor -
coisa leve
de se soprar
pó de ventar
de roçar com leveza a mão
conciso
diferente de coisa que escorre
menos cortante que serragem
de lenço retirante
só arranha
vermelhidão que não se nota
arde dentro. às vezes. e fraco.
confunde de tão claro
faz brotar palavra no vão
depois martela
feito um dedo eterno
numa das têmporas
baixinho...
até o outro lado
vê o coelho lá em cima
de cabeça pra baixo?
vê quantas são as letras
que me escapam pelos olhos?
não censura.
olha o quadro inteiro:
te encontro?
***
10/08/2010
7, 8:
detonei todos os títulos dos meus textos.
substituí pelas datas em que foram escritos.
uma merda. agora não acho nada!
não sei o que eu tinha na cabeça,
trocar palavras por números....
em que mundo isso soluciona alguma coisa?
no meu, com certeza, não.
que antes eu tinha: "história do dia crescente", - ah, claro as roseiras, o anoitecer cor de uva, aham; "a varanda" - a rede, o vento de sempre, um céu diferente, a varanda ué! "réplica" - a menina, as tranças... ok.
agora tenho uma pasta cheia de tracinhos-zerinhos-numerozinhos e não me acho em lugar nenhum! a missão do dia será renomear os pobres poemas.
alguém já tinha me falado para esquecer datas...
não pertencem a tempo nenhum, essas palavras.
permita, às coisas ditas, outra vida, outra história.
globalização de sentimentos derramados.
deixe as coisas todas se eternizarem, esquece números.
para datas ou para horas - descreve-os.
JÁ:
respirem por prazer
tem diferença...
se a flor for bonita
é para ser elogiada
e porque eu gosto
de falar de sons -
note a todos quando
comprometer-se em
escutar ao redor
sem negligenciar
gotas, roçar de coisa
em pó ou canto de
bicho miúdo... [cri]
querendo música privada
ande no ritmo!
direita, esquerda, diiii reiiii ta.
esquerda - paisagem - direita
respira...
e por favor, prestem atenção no vento.
7, 8:
***
substituí pelas datas em que foram escritos.
uma merda. agora não acho nada!
não sei o que eu tinha na cabeça,
trocar palavras por números....
em que mundo isso soluciona alguma coisa?
no meu, com certeza, não.
que antes eu tinha: "história do dia crescente", - ah, claro as roseiras, o anoitecer cor de uva, aham; "a varanda" - a rede, o vento de sempre, um céu diferente, a varanda ué! "réplica" - a menina, as tranças... ok.
agora tenho uma pasta cheia de tracinhos-zerinhos-numerozinhos e não me acho em lugar nenhum! a missão do dia será renomear os pobres poemas.
alguém já tinha me falado para esquecer datas...
não pertencem a tempo nenhum, essas palavras.
permita, às coisas ditas, outra vida, outra história.
globalização de sentimentos derramados.
deixe as coisas todas se eternizarem, esquece números.
para datas ou para horas - descreve-os.
JÁ:
respirem por prazer
tem diferença...
se a flor for bonita
é para ser elogiada
e porque eu gosto
de falar de sons -
note a todos quando
comprometer-se em
escutar ao redor
sem negligenciar
gotas, roçar de coisa
em pó ou canto de
bicho miúdo... [cri]
querendo música privada
ande no ritmo!
direita, esquerda, diiii reiiii ta.
esquerda - paisagem - direita
respira...
e por favor, prestem atenção no vento.
7, 8:
***
07/08/2010
do pote
chatisse de rima e de indecisão
o tom -
ondas ondas
corredores
e passagens
vão: sem luz
se arrasta
na escuridão
apagou a lua
secou tudo
o que era fartura
tempo sem nuvem
céu aberto, gasto
história dada
passo contado
final pré-moldado
(é a sem gracisse
do que é verdade)
gente xoxa
roxa de vaidade
frouxa...
pra colorir:
me inventa
nome de rosa
som de agradar
pro desejo
textura pra ronda...
alimenta essas
horas vazias
que me espremem
me deixa esquecer
que tem gente em volta
me deixa esquecer
dela, Dela, delA
daquela...
me agrada
com fantasia
arrepia à toa
enche meus bolsos
todos de poesia
até a boca
***
o tom -
ondas ondas
corredores
e passagens
vão: sem luz
se arrasta
na escuridão
apagou a lua
secou tudo
o que era fartura
tempo sem nuvem
céu aberto, gasto
história dada
passo contado
final pré-moldado
(é a sem gracisse
do que é verdade)
gente xoxa
roxa de vaidade
frouxa...
pra colorir:
me inventa
nome de rosa
som de agradar
pro desejo
textura pra ronda...
alimenta essas
horas vazias
que me espremem
me deixa esquecer
que tem gente em volta
me deixa esquecer
dela, Dela, delA
daquela...
me agrada
com fantasia
arrepia à toa
enche meus bolsos
todos de poesia
até a boca
***
05/08/2010
play
é mesmo a minha cara resolver fazer um blog logo agora, nesse canto oco da passagem.
já perdi as contas dos versos de cama mastigados pela madrugada, das cartas, das dúzias de palavras que eu não conto a ninguém por algum esdrúxulo pudor. então vou cuspir, por aqui, umas coisas novas mesmo para mim. os que lerem, tenham paciência, eu nunca sem bem ao certo do que eu tô falando.
de qualquer forma: é só poesia. sem nenhuma proposta avassaladora.
poesia por gosto
por má vontade de existir sem ela
pelo apelo
(e essa coisa de brotar palavra é encantadora, sempre)
poesia por hábito
feito o passo
feito o banho
feito o meu olhar sempre pra cima...
poesia por estado de espírito
***
já perdi as contas dos versos de cama mastigados pela madrugada, das cartas, das dúzias de palavras que eu não conto a ninguém por algum esdrúxulo pudor. então vou cuspir, por aqui, umas coisas novas mesmo para mim. os que lerem, tenham paciência, eu nunca sem bem ao certo do que eu tô falando.
de qualquer forma: é só poesia. sem nenhuma proposta avassaladora.
poesia por gosto
por má vontade de existir sem ela
pelo apelo
(e essa coisa de brotar palavra é encantadora, sempre)
poesia por hábito
feito o passo
feito o banho
feito o meu olhar sempre pra cima...
poesia por estado de espírito
***
04/08/2010
Tracinho.
Quem dorme?
com todas essas poses na cabeça
todas essas fotografias
cor demais!
e tem movimento:
aqui, tristeza
naquela, alegria
o som sai na ordem
siiiichiiuuuuu
sabe?! ch: í í í-u-u-u-u
Ela grava colorido!
e lembra de todas as notas
do tom
textura
graça...
surreal
letra, atrás de letra
(de novo)
s
s
s
l-e-t-r-a, a-t-r-á-s, d-e-l-e-t-r-a ... .. .
Não é ensaiado
ou é, mas atrasado
é ao contrário
(de novo)
um minuto atrasado.
ela tem que se mexer
pra conseguir sossegar
por letra
estragou o romance
***
com todas essas poses na cabeça
todas essas fotografias
cor demais!
e tem movimento:
aqui, tristeza
naquela, alegria
o som sai na ordem
siiiichiiuuuuu
sabe?! ch: í í í-u-u-u-u
Ela grava colorido!
e lembra de todas as notas
do tom
textura
graça...
surreal
letra, atrás de letra
(de novo)
s
s
s
l-e-t-r-a, a-t-r-á-s, d-e-l-e-t-r-a ... .. .
Não é ensaiado
ou é, mas atrasado
é ao contrário
(de novo)
um minuto atrasado.
ela tem que se mexer
pra conseguir sossegar
por letra
estragou o romance
***
03/08/2010
blocos.
De repente se perdem
Todas as formas
Se derretem por inteiro
Os blocos coloridos
Fica só aquela sensação
De se ter chupado limão.
É um rebuliço de entranhas
Não é desassossego
Não é agito de coração transbordante
Coisa de explodir sem estopim
Cessa o que é inquietude
Na madrugada
Rola, à toa, na brisa
A estrada
De vez enquando pinga
Lá dentro, um caldo verde
Que amarga, roça lento
Por umas longas paredes
De coração
Veneno ácido
Obscuro, corrosivo
Não cura nunca
Só mata.
Corre, você, do líquido rastejante.
Deixa rolar água aqui, ali
Mais ali...
Água clara
Vaza, agora
De dentro pra fora
Esquece pelo caminho
As coisas pegajosas
***
Todas as formas
Se derretem por inteiro
Os blocos coloridos
Fica só aquela sensação
De se ter chupado limão.
É um rebuliço de entranhas
Não é desassossego
Não é agito de coração transbordante
Coisa de explodir sem estopim
Cessa o que é inquietude
Na madrugada
Rola, à toa, na brisa
A estrada
De vez enquando pinga
Lá dentro, um caldo verde
Que amarga, roça lento
Por umas longas paredes
De coração
Veneno ácido
Obscuro, corrosivo
Não cura nunca
Só mata.
Corre, você, do líquido rastejante.
Deixa rolar água aqui, ali
Mais ali...
Água clara
Vaza, agora
De dentro pra fora
Esquece pelo caminho
As coisas pegajosas
***
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